A cabana

989 Words
INT. CABANA ESCONDIDA NA FLORESTA – ALGUMAS HORAS DEPOIS *A chuva tamborila no telhado de madeira podre. O vento canta pelas frestas, e cada sombra no canto da sala parece se mover. Mas aqui dentro... é silêncio. Lilith está deitada numa cama improvisada, coberta com um manto antigo. Seus olhos vermelhos estão abertos, fixos no teto. Mas ela não está vendo o presente. Está ouvindo o passado. ⸻ FLASH DE IMAGENS: • Um salão dourado no Egito. • Uma coroa sendo colocada em sua cabeça. • Um sussurro: "Você é o elo entre dois mundos..." • Uma dança com um guerreiro que não tem rosto. • Um beijo roubado no meio da noite. • Um pacto selado com sangue. • Uma porta trancada ⸻ DE VOLTA À CABANA Lilith se senta. Suas mãos tremem. Ela olha para elas... e por um breve momento, vê as unhas longas, douradas, de uma rainha antiga. Ela pisca e Some ⸻ LILITH (baixa, para si mesma): "Tem algo errado comigo... Ou talvez... esteja finalmente certo." ⸻ *Ela se levanta, pés descalços tocando o chão frio. O espelho velho no canto da cabana a reflete — mas por um segundo, o reflexo pisca com outra versão dela: com uma túnica egípcia, colares sagrados e olhos de pura luz. Ela se vira assustada. O reflexo é o mesmo de antes.* ⸻ Damien entra, silencioso, carregando madeira. DAMIEN (preocupado, mas controlado): "Você dormiu?" ⸻ LILITH (fria, não responde direto): "Sonhei. Mas nada claro. Algo... antigo. Uma rainha." ⸻ DAMIEN (tentando esconder o aperto): "Você já foi muita coisa... Mas se quiser, agora você pode ser só você." ⸻ Lilith sorri. Leve. Triste. LILITH: "O problema é que... eu não sei mais quem é 'só eu'." ⸻ Ela toca o ombro ferido. O toque queima. Um símbolo aparece por um segundo sob a pele – um ankh cruzado com um olho dourado. Ela grita. Damien corre até ela. Mas ela já está de pé, olhos vermelhos acesos. ⸻ LILITH (ofegante, com medo e raiva): "Eles estão vindo." ⸻ DAMIEN (já pegando a espada): "Como você sabe?" ⸻ LILITH (olhando pra fora, para o céu que escurece ainda mais): "Porque o que me quer... já me teve uma vez." ⸻ Ela não sabe como sabe. Mas sente. No fundo, Lilith sabe que o passado está tentando se reescrever... e ela está no centro do novo ciclo. *A chuva lá fora virou tempestade. Mas aqui dentro... O fogo da lareira dança, lançando sombras douradas pelas paredes rachadas. Lilith está sentada, de lado, com a blusa rasgada no ombro onde o símbolo apareceu. Damien ajoelha diante dela, concentrado. Ele segura um pano limpo e um frasco de ervas — os dois improvisando como podem. A tensão entre os dois... elétrica. ⸻ DAMIEN (voz baixa, firme): "Fica parada. Isso vai arder um pouco..." ⸻ LILITH (irônica, mesmo fraca): "Depois do que eu vi? Isso é só cócega." ⸻ Damien sorri de canto, mas não responde. Ele toca o ombro dela com o pano úmido e ela estremece. Não de dor... mas do toque dele, suas mãos másculas, passam devagar para não machucá-la. A pele arrepia. Ela disfarça olhando pro lado. ⸻ DAMIEN (sem olhar pra ela): "Esse símbolo... apareceu do nada. Nunca vi nada assim." ⸻ LILITH (tentando manter a voz firme): "Nem eu. Mas... parece que ele me conhece melhor do que eu me conheço." ⸻ O silêncio entre os dois fica mais denso. Damien termina de limpar e encosta um pano seco com cuidado. Os olhos dele se encontram com os dela. Ela respira fundo. Ele engole seco. Os dois parados, como se o mundo tivesse congelado. ⸻ DAMIEN (voz baixa, intensa): "Não sei o que tá acontecendo... Não entendo quem você foi... Mas eu sei o que sinto agora." ⸻ LILITH (lábios entreabertos): "O que você sente?" ⸻ DAMIEN (quase um sussurro): "Que se alguém tentar te tirar de mim de novo... Eu trago o inferno e transformo esse mundo em cinzas." ⸻ Ela arregala os olhos. O que ele disse... ecoa. "De novo?" Mas antes que ela possa pensar muito, ele se aproxima. Os rostos a centímetros. O calor entre eles é real. Intenso. Quase perigoso. ⸻ Lilith fecha os olhos. Mas no último segundo, vira o rosto, sussurrando: LILITH (com dor interna): "Você não sabe o que eu sou..." ⸻ DAMIEN (segurando o queixo dela, firme e gentil): "Então me deixa descobrir." ⸻ *Os olhos de Lilith se abrem — vermelhos, intensos, confusos. Eles continuam se encaram. DAMIEN (voz baixa, rouca): "Não sei o que aconteceu entre a gente antes... Mas tudo em mim grita pra te proteger agora." ⸻ Lilith fecha os olhos. Ela quer fugir... Mas está cansada de fugir. ⸻ LILITH: "Você não tem ideia do que está dizendo. Eu posso te destruir, Damien." ⸻ Ele chega mais perto, a respiração dele quase tocando a nuca dela. Mas a voz permanece calma. Firme.* ⸻ DAMIEN: "Talvez. Mas eu prefiro ser destruído por você... do que viver sem saber o que a gente é." ⸻ Lilith vira, enfim. Os olhos dela brilham em vermelho intenso. Mas dessa vez, não é ameaça. É vulnerabilidade. É verdade. Ela está tremendo. ⸻ LILITH (com a voz embargada): "Eu lembro de sentir isso antes. Não sei quando, nem onde. Mas quando você me olha assim... tudo em mim quer gritar que você era meu." ⸻ Damien não responde com palavras. Ele apenas toca o rosto dela com reverência. Como quem toca uma lembrança sagrada. Como quem já viveu aquele momento milhares de vezes em sonhos que não lembra. ⸻ E aí... o beijo acontece. Lento. Profundo. Intenso como se eles estivessem se reconhecendo. Como se o tempo todo, o universo estivesse apenas esperando esse reencontro. Luz e sombra se misturam nos dois. ⸻ (NARRAÇÃO EM OFF –) "Alguns amores são escritos não no tempo... Mas entre as eras. Selados em sangue. E renascidos... sob a lua certa."
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