Mateus já andava pela casa, tropeçando nos próprios pés e falando as suas primeiras palavras com aquele sotaque mineiro que arrancava risos da república. Gisele, agora mãe em tempo integral e estudante dedicada, contava com a ajuda dos amigos para manter tudo em equilíbrio. E Iva, como sempre, era o pilar.
Naquele sábado à noite, como em tantos outros, Iva vestiu o uniforme da lanchonete do shopping, amarrou o cabelo e seguiu para mais um turno. O salário não era alto, mas ajudava a pagar os livros, o aluguel da república e a comida do dia a dia. Ela nunca achou justo que Dona Marlene arcasse com tudo sozinha.
Já passava das 20h. O movimento estava ameno, mas constante. Iva atendia com paciência, sorriso discreto e passos rápidos. Enquanto finalizava o pedido de um casal, ouviu uma voz feminina atrás dela:
— Moça, o cardápio, por favor! — Disse uma loira platinada, daquelas que pareciam ter saído de uma revista. Vestido justo, maquiagem impecável, olhar impaciente.
— Só um minutinho, senhora. Já venho com ele. — Respondeu Iva, gentil, enquanto entregava o pedido anterior.
Ao chegar à mesa da loira, percebeu que havia cinco pessoas ali todos bem vestidos, rindo alto, com celulares de última geração na mão e olhares de superioridade.
— Demorou, hein? Já é hora! — Disse a loira, com tom cortante. — Vou reclamar com a gerente. Isso aqui tá virando bagunça.
Iva tentou se desculpar:
— Me desculpe mesmo. O movimento tá um pouco intenso e estou sozinha no atendimento. Mas já vou anotar o pedido de vocês.
A loira sorriu com sarcasmo e disparou:
— Se não dá conta, volta pra roça. Ou vai fazer faxina, né? Deve ser o que você tá acostumada.
A mesa explodiu em risadas. Iva sentiu o rosto queimar. Mas manteve a postura.
Antes que pudesse responder, um rapaz da mesa, camisa polo azul, loiro e olhar firme se inclinou e disse:
— Gente, tá cheio. E a garota não tem culpa. Vocês tão exagerando.
O silêncio caiu por um segundo. A loira revirou os olhos.
— Ai, Rafael, sempre querendo bancar o herói dos fracos e oprimidos.
Iva olhou para ele. Rafael. O nome ecoou. Ele olhou de volta, com um leve aceno de cabeça, como quem pede desculpas pelo grupo.
— Pode trazer o cardápio, moça. E não precisa correr. Ninguém está com pressa aqui hoje. — Disse ele, com gentileza.
Iva assentiu, engolindo a dor com dignidade. Voltou ao balcão, pegou o cardápio e respirou fundo. Mais uma noite. Mais uma batalha vencida sem perder a compostura.
Enquanto anotava os pedidos, pensava: “Se eu for lembrada por alguma coisa, que seja pela forma como segurei a bandeja mesmo quando tentaram me derrubar.”
Depois de anotar os pedidos da mesa dos cinco, Iva voltou ao balcão e seguiu atendendo outras mesas com a mesma dedicação de sempre. Mas não demorou para que os chamados começassem.
— Moça! — Gritava a loira platinada, agora identificada como Isis, com voz aguda e impaciente.
Iva se aproximava com calma.
— Pois não, senhora?
— Essa batata tá fria. Troca pra mim. — Disse Isis, sem sequer olhar nos olhos de Iva.
Minutos depois:
— Moça! Essa bebida veio com pouco gelo. — E depois: — Moça! Tem ketchup?
Iva sabia. Aqueles chamados não eram sobre comida. Eram sobre poder. Sobre provocar. Sobre humilhar.
Mas ela respirava fundo, mantinha o sorriso profissional e voltava à mesa. Porque, apesar de tudo, havia algo que tornava cada ida até ali um pouco menos amarga: o rapaz de cabelos escuros, olhos azuis e sorriso marcante que estava sentado ao lado de Isis.
Ele observava tudo com discrição. E toda a vez que Iva se aproximava, ele a olhava com gentileza. O seu sotaque era diferente, uma mistura de mineiro com algo mais arrastado, talvez do Sul, e quando falava, parecia que cada palavra vinha com intenção.
— Desculpa por isso tudo. — Disse ele, num dos momentos em que Iva recolhia um copo. — Você tá fazendo um ótimo trabalho.
Iva sorriu, surpresa.
— Obrigada. É… parte do serviço.
— Parte do serviço não devia incluir aguentar gente m*l-educada. — Ele disse, olhando discretamente para Isis, que mexia no celular como se o mundo girasse ao redor dela.
Iva riu de leve.
— Já vi de tudo por aqui. Mas tem dias que a bandeja pesa mais.
Ele olhou para ela com atenção.
— E mesmo assim, você segura firme.
Iva desviou o olhar, sem saber como reagir. Sentiu o rosto esquentar. Voltou ao balcão com o coração acelerado.
Naquela noite, entre pedidos trocados e provocações veladas, Iva descobriu que nem todo olhar é julgamento. Alguns são abrigo. E aquele rapaz, com olhos de céu e voz de aconchego parecia ser exatamente isso.
“Reconhecimento no Fim da Noite” ... O relógio marcava 22h45. O shopping já esvaziava, as luzes começavam a apagar, e Iva recolhia as últimas bandejas com os pés doendo e a cabeça pesada. Tudo o que ela queria era pegar o ônibus, chegar em casa e dormir até o meio-dia de domingo seu único descanso da semana.
Ela foi até o balcão, tirou o avental e esperou o gerente, seu Cláudio, acertar a diária.
— Aqui, Iva? — Chamou ele, entregando o envelope com o pagamento. — E parabéns, viu? Hoje você foi uma muralha.
Iva sorriu, cansada.
— Obrigada, seu Cláudio. Foi puxado.
Ele se inclinou sobre o balcão, com voz mais baixa:
— Aquela moça, a Isis… é filha de um dos maiores lojistas daqui do shopping. Estudante de medicina. Vive achando que o mundo gira em torno dela. Já fez escândalo em outras lojas. Mas você… você lidou com ela como ninguém.
Iva respirou fundo, ajeitou a mochila no ombro.
— A gente aprende a respirar antes de responder. E a sorrir mesmo quando o coração quer gritar.
O seu Cláudio assentiu, admirado.
— Você tem uma força que não se ensina. Vai longe, menina. Vai muito longe.
Iva agradeceu com um aceno, saiu pela porta lateral do shopping e caminhou até o ponto de ônibus. A cidade estava silenciosa, o céu limpo, e o vento da noite parecia sussurrar promessas.
Sentou no banco, encostou a cabeça na mochila e pensou: “Mais um dia vencido. Mais uma bandeja equilibrada. E amanhã… começa tudo de novo.”