Enquanto Isabela chegava em seu pequeno apartamento alugado e se jogava no colchão no chão, feliz e sentindo que finalmente as coisas estavam melhorando, do outro lado da cidade, Mateo servia uma dose de uísque na sua cobertura de luxo, enquanto Luca se esparramava no sofá branco impecável.
— Então, como foi a reunião com Isabela Castro? — perguntou Mateo, indo direto ao ponto.
— Foi ótima. Ela me parece prática e eficiente, entendeu rapidamente o que precisamos e como a Guardian funciona. Fez algumas perguntas sobre segurança de dados dos funcionários que achei interessantes. Pensando bem, considerando que ela trabalhou de forma anônima na internet por tanto tempo, faz total sentido ela prezar por privacidade — respondeu Luca, tranquilo.
— Você acha que vai dar certo? — Mateo ainda tinha receios, embora tivesse ficado impressionado com as habilidades da moça.
— Não tenho dúvidas. Ela foi inacreditável no desafio. Finalizou em menos de quarenta minutos — a gente tinha projetado aquilo para durar pelo menos duas horas. E programou naquela linguagem como se fosse o mais simples dos códigos. Nem eu domino direito. Acho que vou pedir que ela me ensine — brincou Luca.
Mateo se sentou ao lado do irmão, girando o copo nas mãos.
— Espero que esteja certo. Precisamos que o Projeto Ômega avance. Não podemos perder esse contrato — nem a credibilidade.
— Eu sei. Vou me dedicar cem por cento ao Projeto Ômega com ela. A Ângela vai cuidar dos projetos menores por enquanto. — Ele fez uma pausa e sorriu. — Ela vai adorar ter que te reportar diretamente.
Mateo revirou os olhos.
— Desde que ela não encare isso como uma oportunidade romântica, não teremos problemas.
— Você realmente acha que ela vai perder a chance de entrar na sua sala todos os dias? — Luca riu.
— Eu espero que ela seja profissional — respondeu Mateo, com desgosto.
— Eu adoraria ver isso acontecer, mas agora vou acompanhar a ragazza Isabela.
— Luca, também espero que você seja profissional. Preciso te pedir para não assediar a nova programadora?
— Não, Mateo! Isabela é linda, deu pra notar mesmo com o moletom. Mas eu não estou interessado nela — respondeu Luca, sem hesitar.
Mateo o observou por um instante, em silêncio.
— Você tem certeza de que está me alertando? — Luca arqueou a sobrancelha. — Porque eu vi como você olhava para ela durante a competição.
— Sim. Ela é linda e intrigante. Foi impossível não olhar. Mas agora ela é nossa funcionária.
Na segunda-feira, Isabela acordou cedo, ansiosa. Era estranho se preparar para um trabalho regular, em um ambiente com outras pessoas. Desde o início de seu relacionamento com Alex, ele a isolou completamente. Quando fugiu, só tinha contato com o marido e, ocasionalmente, com os sogros — o que era outro tipo de terror, já que Alex a ameaçava caso tentasse pedir ajuda.
Viver em uma cidade diferente, começar um novo trabalho e uma nova vida parecia um sonho. Mesmo dormindo num colchão no chão, num apartamento sem móveis ou aquecimento. Mesmo ainda tendo pesadelos. Ainda assim, era um sonho. Às vezes, tinha medo de acordar de volta na casa de Alex.
Usou suas melhores roupas — que não eram muitas. Embora pudesse renovar o guarda-roupas com o prêmio da competição, preferiu restabelecer sua reserva de emergência em uma conta off-shore. Aquela reserva havia sido essencial para sua fuga, e seria novamente, caso precisasse desaparecer.
Evitava aceitar novos trabalhos na web, pois quanto mais aparecesse, mais riscos corria. Por isso, aceitou a vaga na The Guardian. A política de segurança de dados da empresa era essencial para sua tranquilidade.
Passou na cafeteria, pegou um café grande e seguiu a pé para a empresa. Apesar de não ter comido nada, não sentia fome. Estava ansiosa. Não queria criar esperanças... mas tinha.
Ao chegar à sede da The Guardian, Isabela observou o ambiente moderno e minimalista: paredes cinza-escuro, piso claro, móveis em metal preto e madeira. Sofás de couro e vasos com folhagens vivas compunham a decoração.
Acenou para o segurança e seguiu até a recepção. Uma mulher, sentada atrás de um notebook moderno, chamou sua atenção. Ela era deslumbrante: pele de chocolate, cabelos cacheados e volumosos, corpo curvilíneo envolto por um terninho branco elegante. As bijuterias douradas, salto alto e unhas nude completavam a imagem. Seu rosto era hipnotizante. Isabela se sentiu imediatamente deslocada.
— Olá, bom dia. Meu nome é Isabela Castro, estou sendo aguardada pelo senhor Luca Bianchi — disse, apreensiva.
— Bom dia, senhorita Isabela! Você é a nova funcionária, certo? — respondeu a recepcionista, sorrindo.
— Isso mesmo. Pode me chamar de você.
— O senhor Bianchi ainda não chegou, mas você já está autorizada a entrar. Vou te acompanhar até o setor de desenvolvimento.
— Obrigada. Desculpa, qual o seu nome?
— Cláudia. Mas pode me chamar de Cacau.
A simpatia de Cacau deixou Isabela mais à vontade.
O escritório de Luca era elegante como o restante da sede — industrial, em tons de madeira escura e móveis café. Cacau a deixou aguardando, e cerca de quinze minutos depois, Luca entrou sorrindo.
— Bom dia, Isabela! Tudo bem?
— Bom dia, senhor Bianchi! Estou bem, obrigada.
— Nada de "senhor". Me chame de Luca. Não sou tão mais velho assim.
— Desculpe — ela riu, levemente constrangida.
— Está pronta para começar?
— Pronta. Só um pouco ansiosa.
— Vai dar tudo certo. A equipe é excelente. Você vai liderar o desenvolvimento do Projeto Ômega, sob minha supervisão direta. A equipe tem dois designers e três desenvolvedores. Trabalharemos exclusivamente nesse projeto pelos próximos meses. Estamos com seis meses de atraso por causa da complexidade da linguagem híbrida.
— Por que vocês escolheram linguagem híbrida? — perguntou Isabela, com curiosidade.
— Segurança. O sistema é para uma grande instituição financeira. Precisamos garantir proteção contra hackers e vazamentos. Sua habilidade com essa linguagem foi decisiva para sua contratação.
— Entendi. Obrigada pela confiança.
— Sua performance foi impressionante, Isabela. De verdade.
No fim do dia, ao sair, Isabela passou pela recepção acenando para os colegas. Cacau a chamou.
— E aí, como foi o primeiro dia?
— Ótimo. Intenso, mas muito bom.
— Pensei em te chamar pra almoçar, mas fiquei com receio de atrapalhar.
— Nem lembrei de almoçar, acredita? Mas vou adorar almoçar com você amanhã.
As duas sorriram. E, assim, começava uma nova rotina.