Capítulo 03 – O grande prêmio

1662 Words
Quando a competição recomeçou após o almoço, Isabela ainda sentia na pele o arrepio causado pelo olhar intenso de Mateo. Mas recusava-se a pensar nisso. Tinha apenas um objetivo naquele momento: vencer a competição, conquistar o emprego e reerguer sua vida. Não permitiria que sua mente a distraísse justo agora. Por mais que estivesse curiosa sobre o significado daquele olhar, sabia que não havia espaço em sua vida para isso. Ainda estava se curando — emocional e fisicamente. Não importava o que Mateo estivesse pensando dela; a última coisa que queria era chamar atenção. Tudo que precisava era daquela vaga e da segurança financeira que ela representava, longe de mídia, riscos ou exposição. No palco, Luca Bianchi voltou a se posicionar diante dos competidores. Explicou com clareza que a última fase da competição consistia basicamente em burlar um sistema de segurança para acessar um arquivo específico na nuvem. Esse arquivo continha as instruções que levariam ao próximo passo do desafio. Em seguida, cada participante teria acesso a um ambiente de desenvolvimento, onde deveriam criar um código em uma linguagem de programação que precisariam identificar por conta própria. A velocidade para burlar a segurança e acessar o arquivo correto poderia contar pontos para um possível desempate, mas a execução correta do código final seria determinante. Apenas aqueles que entregassem um código plenamente funcional estariam aptos à vaga oferecida pela empresa. Era um desafio ao mesmo tempo simples e complexo. Isabela suspeitava que a linguagem escolhida para o código final provavelmente seria algo muito difícil ou pouco usual. Ela estava empolgada com o desafio técnico, mas um pouco intimidada também. Afinal, era a única mulher entre os seis classificados para a final. Desde o início, havia menos mulheres do que homens na competição — cerca de 35% na primeira fase. Durante o intervalo, ouvira alguns comentários que sugeriam que muitas candidatas estavam ali menos pelo prêmio e mais pela chance de se aproximar de um dos irmãos Bianchi, considerados os solteiros mais cobiçados da cidade — talvez até do país. Isabela bufou discretamente. Ela, definitivamente, não estava ali por isso. A competição começou, e Isabela iniciou tranquilamente o processo de invasão do sistema de segurança proposto. Rapidamente percebeu que havia dois caminhos possíveis: uma invasão silenciosa ou a destruição completa do sistema. Era uma decisão estratégica. Olhou discretamente ao redor e viu que a maioria dos concorrentes já estava a meio caminho de destruir o sistema com o uso agressivo de malwares. Ela respirou fundo e optou pelo caminho oposto: simular um perfil de administrador. Dessa forma, a entrada seria silenciosa, discreta e muito mais rápida. Nenhum dos competidores perceberia que ela já estava à frente. Um... dois... três minutos depois, o arquivo estava sob seu controle. Ao ler as instruções, acessou imediatamente o ambiente de desenvolvimento e quase sorriu. Ela reconhecia aquela linguagem de programação. Na verdade, mais do que reconhecer — havia sido ela própria quem desenvolvera aquela linguagem em seu trabalho final da faculdade. Isabela não fazia ideia de como os Bianchi haviam chegado àquela tecnologia tão específica. Ainda assim, sentiu uma satisfação intensa: se havia alguém capaz de resolver aquele desafio rapidamente, era ela. Enquanto escrevia as primeiras linhas de código, ouviu as exclamações vitoriosas dos concorrentes que, um após o outro, conseguiam finalmente sabotar a segurança e acessar o arquivo. Ela manteve a concentração e continuou digitando com tranquilidade. Sabia que os outros participantes achavam que ela ainda estava travada na etapa inicial, mas isso não importava. Não estava ali para provar nada para eles. Segura e confiante, avançou rapidamente. Sabia também que os outros levariam um tempo significativo apenas para entender aquela linguagem complexa. Vinte minutos depois, digitou o último comando. Olhou brevemente seu trabalho na tela, permitiu-se sorrir por um instante e, decidida, levantou a mão. — Alguma dúvida, senhorita 03? — indagou Luca, do palco. — Não, senhor Bianchi. Só quero informar que terminei — respondeu Isabela, com calma. O silêncio se espalhou imediatamente pela sala. Os demais competidores pararam a digitação frenética e voltaram-se para ela. Auditores e membros da organização também a encararam, surpresos. — Como? — Luca perguntou, claramente surpreso. — Terminei — repetiu Isabela, agora com um leve gosto de provocação na voz. — A senhorita deseja desistir? — perguntou uma das mulheres da equipe organizadora, franzindo o cenho. — Não. Eu terminei. Escrevi o código, e ele é responsivo ao sistema — afirmou com firmeza. Isabela ouviu os cochichos começarem ao seu redor e percebeu o clima de descrença no ambiente. Ao olhar para o palco, viu os três Bianchi voltados para ela. Mas, entre os três, foi Luca quem recebeu seu olhar direto — ele parecia o mais receptivo. — Ok — disse Luca. — Vamos conferir. Peço a todos os participantes que pausem seu progresso enquanto verificamos o trabalho da senhorita 03. A equipe técnica e os auditores se reuniram em torno do servidor central, sussurrando entre si. Logo em seguida, todos se dirigiram até a mesa de Isabela, que aguardava de pé, ao lado de seu notebook. — Como a senhorita acessou o documento? — perguntou um dos técnicos. — Eu simulei um perfil de administrador — respondeu ela, com naturalidade. Isabela notou os olhares trocados entre os membros da equipe técnica. — E por que não nos informou que já havia superado essa etapa? — questionou a mulher que parecia ser a chefe da equipe. — As regras não exigiam isso. E, por estratégia, preferi não alertar meus concorrentes — respondeu, mantendo a voz serena. — Acho que não poderemos aceitar is... — começou a dizer a mulher, com um tom ríspido. — Ela está certa — interrompeu Luca, com firmeza. — As regras não exigiam esse tipo de notificação. A estratégia dela é válida. Prossiga, Ângela. Isabela soltou o ar que nem tinha percebido estar prendendo. Ângela fez cara feia, mas não protestou. — Ok. Então você invadiu a segurança simulando um perfil de administrador, acessou o arquivo, usou os dados de acesso para entrar no ambiente de desenvolvimento... e teve sorte de digitar um código que funcionou? — questionou Ângela, com rispidez evidente, deixando clara sua descrença. Luca lançou um olhar de repreensão na direção dela. Mateo, por outro lado, permaneceu em silêncio absoluto, observando Isabela atentamente. Por mais que tivesse vontade de intervir, não o fez. Havia prometido a Luca que apenas assistiria à disputa — e, além disso, precisava saber se aquela jovem, a senhorita 03, era de fato um gênio... ou apenas uma aposta ousada demais. — Não tive sorte, senhora, eu... — Senhorita — corrigiu Ângela, azeda. — Perdão — disse Isabela, endireitando os ombros. — Como eu estava dizendo: não tive sorte, senhorita. Após acessar o arquivo e entrar no ambiente de desenvolvimento, percebi que se tratava de um código simples em uma linguagem que eu domino. Então não foi algo complexo para mim. Se verificarem, verão que o código é executável. Eu mesma testei três vezes antes de informar a conclusão. — Veremos — respondeu Ângela, petulante. — Por favor, verifiquem o código — ordenou à equipe. — Está respondendo — informou um dos técnicos, após alguns minutos. — Verifique novamente — exigiu Ângela, ainda não convencida. — Continua respondendo — repetiu o rapaz, com firmeza. — Ok. Já basta — disse Mateo, pela primeira vez desde o início da discussão. Sua voz grave e firme fez Ângela se calar imediatamente. — Temos uma vencedora — afirmou Luca, olhando para o irmão. Mateo apenas assentiu, seco. — Temos uma vencedora — repetiu, agora encarando Isabela diretamente, enquanto Ângela o observava em silêncio. Os demais concorrentes foram dispensados após os agradecimentos de Luca, que elogiou o desempenho de todos. Isabela, à parte, aguardava em um canto da sala, jogando Candy Crush para distrair a mente, enquanto Mateo conversava tranquilamente com o pai, do outro lado do salão. Mesmo sem ouvir, ela sabia que era o assunto da conversa. De tempos em tempos, um deles olhava em sua direção. Pouco depois, Luca se juntou a eles. Em seguida, os três se aproximaram. Isabela se levantou assim que percebeu o movimento. Estava ansiosa. O prêmio em dinheiro, pago em dia, permitiria alguma estabilidade. Ela ainda morava em um apartamento minúsculo, dormia em um colchão no chão e vivia de fast-food. Mas o que realmente importava era a possibilidade de um emprego fixo. Trabalhar com o que amava — com segurança, legalidade e propósito — era tudo que desejava. Nada de riscos. Nada de se esconder mais. — Senhorita 03, meus parabéns. Estamos muito felizes com seu desempenho no nosso pequeno desafio — disse Luca, com um sorriso sincero. — Obrigada — respondeu Isabela, retribuindo o sorriso. Gostava de Luca. Ele tinha uma leveza genuína. Diferente do irmão, que parecia querer decifrá-la por dentro. — Senhorita 03, vamos direto ao ponto — cortou Mateo, sério. — A senhorita deseja apenas o prêmio em dinheiro ou está disposta a integrar nossa equipe de desenvolvimento? Isabela o encarou com firmeza, sem sorrir. — Sim, senhor Bianchi. Eu também quero a vaga de trabalho. — Ótimo — disse Luca, retomando o tom informal. — Como já sabe, sou Diretor de Desenvolvimento Tecnológico da The Guardian, empresa de investigação e segurança digital. Meu irmão, Mateo, é o presidente, e nosso pai, Giancarlo, preside o conselho de administração. Ele fez uma pausa. — Vamos precisar do seu nome completo e documentos para formalizar o contrato. E você já começa na segunda-feira. — Meu nome é Isabela Castro — respondeu ela, sentindo o peso da decisão. Mas, pela primeira vez em muito tempo, era uma escolha feita por ela, por vontade própria. Após uma breve reunião, Luca explicou os detalhes do cargo, o funcionamento da empresa, o que esperavam dela e respondeu a todas as suas perguntas — principalmente sobre a política de segurança de dados dos funcionários, algo que não passou despercebido por ele. E assim, Isabela assinou o contrato que selaria o início de uma nova vida.
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