Mateo estava em sua sala, analisando o relatório mais recente do Projeto Ômega — atualmente o mais desafiador da empresa. O documento apontava falhas graves de segurança que, se não fossem corrigidas nos próximos meses, tornariam impossível a entrega no prazo.
A equipe de dez desenvolvedores não havia chegado nem perto de uma solução satisfatória em seis meses. Isso o deixava mais do que preocupado — estava frustrado. E sua insatisfação já afetava abertamente seu humor.
Costumava ser reservado e frio no ambiente de trabalho, mas a tensão constante em torno do Projeto Ômega o tornara ríspido e intolerante, especialmente com sua equipe mais próxima. Sua secretária, antes solícita, agora evitava até cruzar olhares com ele. Passara a deixar os documentos diretamente sobre sua mesa, acompanhados de bilhetes — como fizera com aquele relatório. Mateo não gostava disso, mas compreendia. Provavelmente não conseguiria evitar descontar nela a raiva que sentia naquele momento. Sorte dela não estar na sala agora.
Foi então que a porta se abriu. Luca Bianchi, seu irmão mais novo e Diretor de Programação, entrou com o habitual sorrisinho de canto — que, de imediato, o irritou. Por que aquele i*****l estava sorrindo se o projeto mais caro da empresa estava em colapso?
Sem se abalar, Luca se acomodou na poltrona à frente da mesa. Cruzou uma perna, reclinou o corpo com naturalidade e manteve o sorriso.
Tentando manter a calma, Mateo perguntou:
— Você leu o último relatório?
— Li.
— Então por que está com esse sorrisinho de merda? — disparou Mateo, ríspido.
— Porque eu já solucionei o nosso problema — respondeu Luca, com tranquilidade, já acostumado ao temperamento azedo do irmão.
— Como?
— Com um desafio para programadores.
— Perdão? — Mateo arqueou as sobrancelhas, certo de que havia escutado errado.
— Eu lancei um desafio online para programadores freelancers. Eles terão a chance de demonstrar suas habilidades, e nós poderemos contratar o melhor entre eles. — Luca explicou com a paciência de quem já esperava resistência.
— É o quê?! — gritou Mateo.
Foi nesse momento que a porta se abriu, revelando Giancarlo Bianchi — presidente do conselho e patriarca da família.
Orgulhoso, intransigente e um tanto rabugento, Giancarlo era o pai de três filhos. Mateo, o mais velho, com 35 anos, era o que mais se parecia com ele em personalidade e rigor. Luca, com 28, era o oposto: leve, charmoso, irreverente — e, segundo a mãe, um cafajeste incorrigível. Já Giovana, a caçula, era a princesa da família e alvo da superproteção geral.
Apesar da rigidez com que enfrentava o mundo, Giancarlo era um pai presente e um marido apaixonado. Onde ele era dureza, Antonela, sua esposa, era suavidade.
Giancarlo entrou na sala bem no momento da explosão de Mateo. Viu o filho mais velho em pé, apoiado na mesa de trabalho, encarando o irmão com uma expressão de pura descrença. Do outro lado, Luca permanecia confortavelmente sentado, olhando o irmão com uma calma quase provocadora.
— Vejo que estão fazendo o que mais gostam: brigando! — exclamou Giancarlo.
— Quando ouvir a ideia estapafúrdia deste disgraziato, tenho certeza de que ficará do meu lado, pai — retrucou Mateo, sem disfarçar a indignação.
— A minha ideia é genial. Você que não teve a sensibilidade para entender o espírito da coisa — respondeu Luca, com um meio sorriso.
— E qual é essa ideia tão genial? — perguntou Giancarlo, já cruzando os braços.
— Idealizei e divulguei na internet uma competição de programadores. Um desafio. Vamos encontrar o talento certo para solucionar os déficits do Projeto Ômega — disse Luca, com a tranquilidade de quem acreditava cem por cento no próprio plano.
Mateo respirou fundo, tentando conter o impulso de retrucar. Sentou-se devagar e encarou o pai, que, por sua vez, mantinha o olhar firme em Luca.
Após alguns segundos de silêncio tenso, Giancarlo perguntou, ainda sem desviar os olhos do filho mais novo:
— E como você pretende fazer isso, mio bambino?
— Pai! — protestou Mateo, indignado com o tom quase carinhoso usado pelo pai.
— Mateo, filho... deixe seu irmão explicar. — A voz de Giancarlo agora era firme, mas paciente. — Prossiga, Luca. Queremos entender sua proposta.
Luca então olhou de um para o outro e começou a explicar seu plano.
No dia da competição idealizada por Luca, Mateo chegou ao hotel ainda cético — mas resignado.
Luca havia explicado a necessidade de encontrar um novo talento para liderar a equipe de programação e como os próprios desafios do evento já estavam estruturados para oferecer soluções a problemas reais do Projeto Ômega, usando dados fictícios. Segundo ele, quem conseguisse resolver aquilo estaria plenamente apto a assumir o projeto.
Com a competição já divulgada e aprovada pelo conselho, Mateo não teve escolha a não ser aceitar a ideia do irmão.
Assim, entrou no auditório do hotel acompanhado pelo pai — como representante do conselho — e por Luca, anfitrião e idealizador do evento. Para compor o júri, ainda estavam presentes quatro auditores independentes, contratados para garantir a idoneidade do certame.
Mateo observava os participantes enquanto Luca explicava as regras e o funcionamento das etapas. Teve que admitir: havia muito mais concorrentes do que imaginava. Mas, mesmo assim, ainda não estava convencido de que aquela abordagem era eficaz. Só mudaria de opinião se visse resultados concretos.
Enquanto seus olhos varriam a plateia, pararam em uma figura quase escondida no canto do salão.
Uma mulher. Sentada com discrição, atenta à fala de Luca. Vestia jeans folgado, moletom e tênis. Parecia uma menina deslocada. Ao contrário de outras participantes — algumas claramente vestidas para chamar atenção —, ela fazia o oposto: parecia quase desesperada para não ser notada.
Mas era impossível não notá-la.
Havia algo na tentativa de apagamento que, paradoxalmente, a tornava ainda mais visível. E Mateo, que não costumava se impressionar facilmente, se viu observando por segundos a mais do que gostaria.
Seu rosto parecia inocente... mas havia algo de profundamente sofrido em sua expressão. Isso fez Mateo se perguntar que tipo de experiência teria marcado alguém tão jovem daquele jeito.
Percebendo que estava divagando — e que a mulher, muito provavelmente, nem chegaria à final daquele campeonato maluco idealizado pelo irmão — Mateo desviou o olhar e voltou a focar no discurso de Luca, que agora anunciava a composição dos grupos.
Algumas horas depois, os concorrentes seguiam em ritmo intenso nas três salas designadas, enfrentando desafios em sequência. O grupo 2 foi o primeiro a concluir — e, para surpresa de Mateo, a menina estava entre os dois únicos classificados daquele grupo.
Luca parecia particularmente satisfeito com o resultado. Mateo percebeu, mas não questionou. Ainda achava a ideia absurda... mas agora queria ver até onde aquilo ia dar.
Logo os outros dois grupos também encerraram as etapas, e os finalistas foram definidos. Com isso, todos os participantes foram liberados para o almoço no restaurante do hotel, antes da disputa final.
Enquanto aguardavam a comida, Giancarlo comentou com Luca:
— Luca, você parece muito satisfeito com os participantes selecionados. Estou certo, filho?
— Sim, pai. Os candidatos que eu queria ver na disputa final estão todos aqui — respondeu Luca, com convicção.
— Então você já estava de olho em alguns candidatos. Por que passar pela farsa de uma competição, se podia ir direto a eles e fazer uma entrevista ou uma proposta de emprego? — questionou Mateo.
— O tipo de profissional que precisamos não pode ser abordado tão facilmente. Não sabemos quem são, nem seus nomes, muito menos como contatá-los — a não ser que eles queiram ser encontrados. Por isso promovi essa disputa: para aguçar a curiosidade, provocar a competitividade e fazê-los saírem de suas tocas. — Luca falava com convicção. — Passei a semana inteira divulgando e promovendo o hackathon na deep web. Estamos atrás dos melhores, dos que ainda não foram cooptados por grandes empresas.
— Mas, filho... — interveio Giancarlo, com as sobrancelhas franzidas — se não sabemos quem eles são, como você pode ter certeza de que estão aqui? E não de que são impostores?
Era uma pergunta que também pairava na mente de Mateo.
— Porque, para avançar em certos desafios, o candidato precisa ter conhecimentos que só um programador de altíssimo nível — ou um hacker de verdade — teria. — explicou Luca, com segurança.
— Vamos contratar um hacker? — perguntou Giancarlo, surpreso.
— Talvez, pai. Mas ele — ou ela — deixará de ser um hacker quando estiver do nosso lado.
— Não estou confortável com isso, meu filho.
— Não precisa se preocupar, pai... — disse Luca, com um meio sorriso. — Afinal, quem melhor para fortalecer nossas defesas digitais do que alguém que saberia exatamente como invadi-las?
— Eu pensei que nosso problema fosse de programação, não de defesa... — retrucou Mateo, agora apreensivo. — Estamos vulneráveis?
— Não no momento. Mas quero que o novo programador-chefe tenha conhecimento suficiente para nos proteger, caso seja necessário. O Projeto Ômega é grandioso — e, mais cedo ou mais tarde, precisaremos pensar nas defesas do sistema.
Giancarlo estreitou os olhos.
— Então você está me dizendo que aquela menininha de moletom e o moleque sardento do grupo 2 estão entre os melhores programadores do país?
Com a pergunta, Mateo automaticamente olhou ao redor e avistou Isabela, duas mesas à frente, comendo sozinha. Tentou visualizá-la como uma hacker brilhante... mas a imagem não se encaixava de imediato. Havia algo frágil demais nela.
— Sim, pai. — respondeu Luca, com convicção. — E, pelos resultados apresentados até agora, digo com segurança que um dos dois tem a chave para destravar o Projeto Ômega.
Como o outro candidato não estava no salão, todos os olhares se voltaram para Isabela.
Como se pressentisse a atenção sobre si, ela ergueu os olhos e olhou ao redor — até que seu olhar parou direto em Mateo.
Ela parecia assustada. Instintiva. Como se estivesse pronta para fugir se ele se movesse rápido demais. Mateo se viu, mais uma vez, questionando como uma garota tão frágil poderia ser uma hacker de elite.
E por que, diabos, isso o intrigava tanto?