Capítulo 01 - Restart

1895 Words
Isabela olhou para as malas encostadas no canto, perto da porta de entrada do pequeno apartamento, e sorriu com ironia. Tudo ali parecia combinar: duas malas pequenas, um apartamento minúsculo, uma mulher discreta — e uma conta bancária ainda menor. Aliás, a conta bancária era, de longe, o menor dos problemas naquela nova realidade. Quem a visse semanas atrás não imaginaria aquela cena. Afinal, que tipo de mulher fugiria de um marido rico, aparentemente perfeito, que a mimava a cada segundo? Mas a realidade quase nunca é o que parece — e Isabela sabia disso melhor do que ninguém. Sentada no chão da sala vazia, ela pensava em tudo que ainda teria de comprar para tornar aquele lugar minimamente habitável. Enquanto fazia cálculos mentais, percebeu que nada seria rápido. Sua ansiedade pulsou em frustração, querendo tomar o controle. Mas ela a conteve. Sabia que não era isso que deveria sentir. Respirou fundo. Olhou as paredes nuas ao redor. E, apesar do frio no estômago, sorriu de gratidão. Ela estava livre. E isso, por si só, já era motivo para agradecer. Na manhã seguinte, Isabela acordou cedo. Juntou e dobrou as roupas que usara como cama improvisada, tomou um banho e saiu com o laptop guardado na mochila. Vestia jeans e camiseta, escondia o rosto com óculos escuros e o cabelo preso sob uma boina. Ao passar por uma cafeteria de esquina, pegou um café preto e um pãozinho, comendo enquanto caminhava pelas calçadas já movimentadas da cidade. Misturou-se à multidão como quem já pertencia àquele cenário. A biblioteca municipal era o lugar ideal para procurar trabalho. Nas cabines individuais, ligou o laptop e começou a busca por vagas. Precisava de algo fixo, e com urgência. Embora os trabalhos como freelancer ajudassem a manter as contas básicas, um emprego formal representava mais do que estabilidade — era uma chance real de segurança. E para alguém fugindo de Alex Gibson, segurança era uma necessidade vital. Ela sabia: usaria todos os recursos ao seu alcance para continuar desaparecida. Enquanto procurava por vagas, inevitavelmente pensou nos cinco anos de relacionamento com Alex. Sorriu com desgosto. Era a clássica história de um relacionamento abusivo disfarçado de conto de fadas: o rapaz encantador que "resgata" a moça sofrida, a trata como princesa... até conseguir isolá-la de tudo e de todos. De todos os clichês, o que mais a incomodava era o poder da família dele. Ela nunca se importou com o dinheiro, mas nas brigas, ele fazia questão de jogá-lo na cara dela. Dizia que ela era uma “pobre coitada”, que ele a havia "comprado" — e, por isso, tinha o direito de fazer o que quisesse. Sentia-se tão burra por ter acreditado naquele playboy mimado, arrogante e c***l, que via preço em tudo e em todos. Uma lágrima quente escorreu por seu rosto. Percebeu, então, que havia se perdido nas lembranças. Voltando à realidade, respirou fundo e aproveitou o acesso à internet da biblioteca para mandar uma mensagem ao seu contato na dark web. Foi graças a ele — e aos trabalhos freelancers que realizou secretamente ao longo dos anos — que conseguiu fugir da cidade natal. Na calada da noite, deixou tudo para trás: roupas, joias, lembranças. Partiu com uma única mochila, levando apenas seu antigo laptop da época da faculdade. Não queria nada dele. Sabia que qualquer item poderia ser usado como desculpa para acusá-la de roubo. E não podia correr esse risco. Uma notificação no celular a tirou do novo devaneio. Era seu contato. Ele tinha um trabalho para ela: um código simples, que ela conseguiria finalizar rapidamente — e o valor seria suficiente para garantir o aluguel do mês e a compra de um colchão. Era mais do que poderia desejar naquele momento. Horas depois, voltava para o apartamento, arrastando feliz o colchão de solteiro pelo lobby do prédio. Era pequeno, mas bem pesado. Carregava também um jogo de lençóis e um travesseiro. Nenhum deles se comparava à qualidade dos que usava na mansão de Alex — mas não havia dúvida de que dormiria infinitamente melhor ali, no chão frio, do que ao lado do seu pior inimigo. Ofegante pelo esforço, colocou o colchão no canto da sala, ajeitou o lençol e se deitou. Pegou o celular novo — comprado com cadastro falso e chip anônimo — e viu que havia outra mensagem. Já sabia de quem era. Somente seu contato na dark web tinha aquele número. Ela não pretendia ter linha pessoal. Não daria ao Alex a menor chance de rastreá-la por um número vinculado ao seu nome. Curiosa, leu a mensagem. Mas, dessa vez, não se tratava de um trabalho pontual. Era um convite. Uma entrevista de emprego. A princípio, pensou em recusar. A ideia de revelar qualquer dado real era assustadora. O sigilo era parte fundamental daquele mundo — e da sua sobrevivência. Mas, após uma rápida pesquisa, percebeu que a mensagem havia sido enviada a poucos nomes. Um grupo seleto da dark web. Apenas os melhores tinham sido convidados. Na verdade, não era exatamente uma entrevista. Era um teste. Uma competição para demonstrar habilidades técnicas. Os participantes não precisariam revelar identidade alguma. Apenas códigos numéricos os identificariam. Seria como um jogo entre fantasmas — e o vencedor receberia um prêmio em dinheiro. E, caso quisesse, uma proposta de emprego muito bem remunerada. Ela sabia que a maioria dos participantes estava ali apenas para competir, mostrar suas habilidades e alimentar o próprio ego. Muitos faziam rios de dinheiro na dark web — e nem todos com métodos éticos. Mas ela era diferente. Nunca gostou de se envolver com atividades ilícitas, o que limitava bastante os tipos de trabalho que aceitava naquele submundo. Ainda assim, conseguiu sobreviver. E agora, a perspectiva de um emprego bem remunerado — e legal — parecia essencial para reconstruir a sua vida naquela nova cidade. Uma semana depois, no dia marcado para a seleção, Isabela ainda não sabia qual empresa estava por trás de um evento tão grandioso apenas para contratar um único colaborador. Ainda assim, sua curiosidade falou mais alto — e ela decidiu participar. Para ser sincera, com um mínimo de esforço, teria descoberto tudo. Mas preferiu não investigar. Não valia a pena se expor por uma informação que receberia de qualquer forma — caso ganhasse, corrigiu a si mesma. Por mais que evitasse alimentar inseguranças, precisava ser realista: estava há mais de cinco anos sem usar plenamente suas habilidades. Alex nunca aceitou que ela fosse hacker. Dizia que não era algo feminino. A repreendia por ser “nerd demais”, como se isso a diminuísse. Por mais que se orgulhasse do próprio talento, sabia que estava enferrujada. Os poucos trabalhos que aceitou nos últimos anos serviram apenas para manter a chama acesa — e poupar algum dinheiro para sua fuga. Chegando ao hotel de luxo onde ocorreria a seleção, foi encaminhada a um auditório com capacidade para trezentas pessoas. A sala estava lotada de jovens — em sua maioria homens, entre 18 e 25 anos. Isabela se sentia deslocada. Escolheu um assento no canto mais escuro e se encolheu ali, quase como um reflexo automático. Passar despercebida estava virando obsessão. Aos poucos, todos foram se acomodando. Quando três homens de terno subiram ao palco, o silêncio caiu sobre a sala. A presença deles era inegável. Tinha algo na postura, na forma como caminhavam. Uma aura de autoridade, confiança... domínio. Isabela tentou não encará-los, mas foi impossível. Eram, cada um à sua maneira, absurdamente bonitos. Difíceis de classificar em qualquer escala de beleza — e ainda mais difíceis de ignorar. Era possível notar a diferença de idade entre os três homens. Um deles, claramente mais velho e o mais baixo do grupo, tinha uma postura que denunciava experiência e autoridade. Parecia ser o pai dos dois mais jovens. O do meio, com cerca de vinte e oito anos, era apenas alguns centímetros mais baixo que o terceiro — e esbanjava um ar despreocupado e carismático. Mas foi o terceiro homem que prendeu o olhar de Isabela. O mais alto dos três. Moreno, sério, vestindo um terno de grife que caía perfeitamente em seu corpo atlético. A barba cheia dava um ar de maturidade, e o cabelo preto, ligeiramente mais comprido que o convencional, contrastava com os olhos claros — que ela não conseguiu definir se eram verdes ou acinzentados, dada a distância. Era indiscutivelmente lindo. Mas o que mais chamava atenção não era o rosto, nem o porte físico. Era a postura. A forma como se mantinha ereto no centro do palco, como se o mundo fosse dele — e ele soubesse disso. Por mais tentador que fosse continuar admirando aquele deus grego de carne e osso, Isabela se repreendeu mentalmente. Ainda carregava cicatrizes — físicas, emocionais, invisíveis — da última vez que deixou um homem se aproximar demais. Não precisava de mais complicações. Então se forçou a desviar o olhar e prestar atenção às informações que estavam sendo passadas. O homem mais jovem, com seu jeito descontraído, era quem conduzia a apresentação. Luca Bianchi, um jovem de cabelos pretos levemente rebeldes, olhos castanhos vivos, queixo quadrado e rosto liso de menino sapeca, falava com empolgação no palco. Explicava como todos os participantes poderiam demonstrar suas habilidades por meio de uma sequência de desafios — desde a escrita de códigos simples até o desenvolvimento completo de aplicativos. Os finalistas seriam definidos à medida que avançassem de fase, como em um jogo de eliminação. Inicialmente, os trezentos participantes seriam divididos em três grupos de cem. Ao final, os seis melhores — dois de cada grupo — enfrentariam um desafio final, revelado apenas no momento da execução. Isabela foi sorteada para o grupo 2. Foi conduzida a uma sala com longas fileiras de mesas, cada uma equipada com um laptop. Nenhum deles tinha acesso à internet, o que impossibilitava buscas externas ou "atalhos". A primeira fase consistia na criação de um site simples. Isabela concluiu o código em pouco mais de doze minutos. Sua velocidade de digitação estava longe do que já fora um dia, e isso a incomodava — mas, mesmo assim, conseguiu entregar a tempo, dentro dos quinze minutos estipulados. À medida que as fases avançavam, mais e mais participantes eram eliminados. Depois de cinco horas intensas de tarefas, no grupo 2 restavam apenas dois concorrentes: Isabela e um jovem sardento, magro, que parecia ter acabado de completar dezoito anos — e que, para surpresa geral, provou ser um gênio, ao ser o primeiro a concluir com sucesso todos os desafios. Antes da etapa final, os finalistas foram liberados para o almoço no restaurante do hotel. Sentada sozinha a uma mesa no canto, Isabela comia em silêncio, tentando relaxar. Foi então que sentiu um arrepio na nuca — uma sensação clara de estar sendo observada. Sem levantar a cabeça de imediato, lançou um olhar discreto ao redor. Os três homens que subiram ao palco mais cedo estavam olhando em sua direção. Luca, o mais jovem, sustentava o olhar com um leve sorriso. O mais velho, que ela já intuía ser pai dos outros dois, tinha uma expressão curiosa, quase analítica. E o moreno — o homem do olhar sério e da presença dominante — a observava de forma intensa, com um ar sombrio que a fez estremecer. Isabela não conseguiu definir se o que sentiu foi medo... ou algo ainda mais perigoso.
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