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>> Emily G. Donovan >>
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No dia seguinte, levantei-me mais cedo do que o normal.
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Olhei para a imagem do meu namorado adormecido do outro lado da cama e isso me fez sorrir. Hoje eu terei um longo dia, eu sinto isso, e por esse motivo aproveitei cada segundo de paz que a vida me proporcionou para permanecer deitada, antes de ter que me levantar e começar a me arrumar para o trabalho.
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A minha i********e ainda latejava, incomodada com o sexo bruto que tínhamos feito na noite passada… era assim que o Nathaniel descontava toda a sua frustração sempre que algo o incomodava, embora pareça algo bom, nem sempre era muito agradável.
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Eu terminei de tomar o meu banho e fazer a minha higiene matinal, coloquei um dos meus terninhos e sair do banheiro enquanto passava um punhado quase cheio de creme nos meus cabelos, não tinha tempo para fazer fitagem e essas coisas todas que outras cacheadas costumavam fazer. Então, tudo o que me restava era passar creme e torcer para ele ficar no mínimo "comportado" pelo resto do dia.
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— Não tá muito cedo para ir trabalhar? — Perguntou enquanto se sentava na cama, fazendo o lençol claro escorregar pelo seu corpo e revelar o seu abdômen sarado com algumas marcas de unha.
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— Tenho coisas para fazer no presídio antes de receber o novo detento. — Expliquei, fechando os botões do meu blazer enquanto assistia o mesmo revirar os olhos. Ele só precisa de um tempo para se acostumar com isso, foi o que pensei.
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— Espero que também esteja no aeroporto para me receber quando eu voltar de viagem, seria horrível descobrir que mesmo depois de três meses longe um do outro os detentos ainda estão em primeiro lugar na sua lista de prioridades — Ele dramatizou e agora foi a minha vez de revirar os olhos, caminhei em direção a ele, me sentei na cama e me inclinei para lhe dá um selinho.
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— Os detentos não são a minha prioridade, são o meu trabalho. Você é a minha prioridade! — Sussurrei para o mesmo, encarando os seus olhos cor de avelã enquanto me afastava — Me manda uma mensagem para dizer que está bem quando chegar lá, okay?
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Me despedi dele com outro selinho e sorri quando ele disse que me amava. Quando eu, finalmente, cheguei ao presídio fui direto para minha sala, organizei tudo o que precisava e não demorou muito para que a Pamela viesse até mim.
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— Não aguento mais esses presos… olha isso — Ela tirou uma pulseira feita com massa de macarrão crua - algo que alguns presos faziam para passar o tempo - de dentro do bolso e eu dei risada negando com a cabeça — Acredita que o Saulo teve coragem de dizer que se eu o ajudasse a sair daqui ele poderia me dar uma com jóias de verdades e uma vida rodeada de luxo?
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— Imagina a cara que ele vai fazer quando descobrir que você é mulher do promotor que colocou ele atrás das grades — Comentei, fazendo a mesma gargalhar.
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— Ele disse que em cinco minutos sozinho comigo num quarto ele me comeria de todas as formas possíveis e me faria esquecer que sou casada — Ela disse com tom de nojo e eu fiz uma careta de repulsa na mesma hora em que imaginei aquele homem completamente peludo sem roupas — Eles são nojentos, uns animais!
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— A maioria deles, inclusive o Saulo, não tem contato com uma mulher a meses, alguns até anos, não dá para culpá-los por agirem feito criaturas irracionais. — Falei como se fosse o óbvio.
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— A sua paciência com eles é algo admirável, você deveria ser considerada uma santa por isso — resmungou e eu dei risada negando com a cabeça. Meu sorriso foi morrendo aos pouco assim que avistei o ônibus do presídio com o novo detento se aproximando.
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— Pam, você já providenciou tudo o que eu pedi? — Perguntei enquanto olhava pela janela da minha sala o detento sair do ônibus escoltado por dois guardas. Ela fez que sim com a cabeça e eu respirei fundo, me levantando — Hora de dar boas-vindas ao mais novo passarinho da minha gaiola...
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Murmurei com um tom sarcástico na voz e ela fez uma careta.
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Saí da minha sala, indo em direção a entrada do bloco onde ele iria ficar. Não demorou muito para que os carcereiros chegassem com ele.
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Eu encarei o rosto do meliante em minha frente.
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Ele não era muito mais alto do que eu. A sua pele branca era quase toda coberta de tatuagem. Os seus cabelos castanhos claros estavam molhados como se ele tivesse acabado de sair da chuva, com alguns fios colados na sua testa, mas não de uma forma que o deixasse estranho.
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A roupa laranja estava completamente seca. Seu rosto era magro, nariz reto... e uma boca que faria qualquer outra menina – Que não tenha um pingo de amor à sua própria vida – desejar-lá perto da sua. Não gostei da forma soberba que ele me encarava e nem da forma debochada que ele sorriu ao olhar diretamente para o meu crachá.
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— Bom dia, Pablo! O meu nome é Emily Donovan, sou a superintendente deste presídio. — Disse com um sorriso simpático e simultaneamente me colocando na frente dele. Ele olhou diretamente nos meus olhos.
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— Não gosto que me chame pelo nome, pode me chamar de PK, Morena! — Ele disse com um tom descarado, olhando-me com malícia e eu respirei fundo. Mais um...
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— E você pode me chamar de superintendente, diretora ou senhorita Donovan! — Disse com seriedade e ele mordeu os lábios com um sorriso — E quero deixar claro para você que tudo o que você faz aqui dentro gera uma consequência. Sugiro que tome cuidado com as gracinhas que você faz e com quem você fala.
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Falei com firmeza enquanto olhava para os seus olhos azuis com um misto de verde e o mesmo umedeceu os lábios antes de morder a parte inferior por um meio segundo.
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— E eu posso saber qual vai ser a minha recompensa se eu for um bom menino? — Ele perguntou enquanto encarava a minha boca com um olhar predador — Porque se for a que eu imagino...
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Ele não completou a frase, mas eu sabia exatamente o que ele quis dizer. Levantei um pouco a minha sobrancelha surpresa pelo atrevimento do homem à minha frente.
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— A sua recompensa vai ser continuar fora da solitária e com direito a todas as suas regalias — Falei séria e a sua expressão pretensiosa mudou para uma completamente séria na mesma hora. Olhei para os policiais — Por favor, levem o detento para a cela dele. Parece que ele precisa se lembrar qual é o seu lugar aqui.
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Olhei para o tatuado na minha frente e ele colocou a mão no peito, abrindo a boca como se eu o tivesse ofendido. Eu sou uma boa pessoa, mas detesto essa falta de fé que todos os detentos têm quando olham para mim. Mas se eles não me respeitam, eu vou fazer eles me respeitarem.
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Os policiais penais começaram a empurrar ele para dentro do bloco e, quando eu me virei para eles, o prisioneiro ergue o máximo que consegue da sua mão para me dar um tchauzinho enquanto um sorriso pretensioso tomava conta dos seus lábios. i****a!
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— Tenho a impressão de que ele vai dar mais trabalho do que a gente pensava… — Pâmela comenta aquilo que eu já sabia enquanto eu assistia os guardas empurrarem a sua cabeça com força para que ele olhasse para frente.
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— E para piorar não sai tão cedo…
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— Olhe pelo lado bom... Tem uma enorme chance dele nem sair daqui com vida... — Ela comentou, me fazendo rir e negar com a cabeça — Tem certeza que não quer que eu fale com o conselho? Não podem culpar você por querer transferir um preso que não é do nível dessa instituição…
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Ela passa o seu braço pelo meu ombro e começa a guiar-me para dentro. Eu apenas respiro fundo.
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— Não vou dar a eles o gostinho dessa vitoria...
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— Sabe que estou aqui por você, não sabe? — Ela perguntou e eu sorri assentindo com a cabeça.
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{...}
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— Senhorita Donovan? — O policial apareceu na minha porta logo após receber a minha permissão para entrar, não tirei a minha atenção do teclado do computador e esperei que ele continuasse — O novo detento exige vê-la.
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Parei de digitar e olhei para ele com a sobrancelha franzida. Era só o que faltava!
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— Desde quando os detentos exigem alguma coisa aqui, Fabrício? — Perguntei para o mesmo que me olhava com atenção e logo depois comprimiu os lábios numa linha fina.
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— Ele disse que era caso de vida ou morte, tá enchendo o saco dos caras, então eu imaginei que a senhora poderia querer vê-lo… — Ele argumentou, me fazendo olhar para o n***o de cabelo preto liso e olhos cor de mel que sempre ficava de guarda na minha porta.
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— Traga-o então, mas fique atento! — Falei para o mesmo que assentiu com a cabeça, não dá para confiar num detento que mata mulheres grávidas. Não que dê para confiar em algum outro detento.
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Demorou cerca de dez minutos para que ele trouxesse o indivíduo, Fabrício ficou do outro lado da porta enquanto Pablo entrava na sala, observando toda a minha sala com atenção antes de se sentar na cadeira que fica do outro lado da mesa.
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Quando os seus olhos me encararam, um desconforto involuntário me atingiu.
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— Queria falar comigo? — Perguntei para o mesmo enquanto tirava o meu óculos e encostei-me na cadeira aconchegante em que estava sentada.
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— Que sala maneira. Olhando daqui de dentro nem parece que lá fora só tem delinquente — Ele comentou e eu tive que morder os lábios para não rir do seu comentário repentino.
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— Por que você não para de apreciar a minha sala e me diz logo o que quer falar comigo? — Perguntei para ele enquanto tirava o óculos e apoiava o meu antebraço na mesa, encarando o mesmo com uma expressão séria.
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— Quero saber como é o lance da visita íntima por aqui, eu posso mandar vim ou… — Ele parou de falar como se quisesse insinuar algo e eu fechei os olhos, respirando fundo. Paciência, Emily, paciência...
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— É casado? — Perguntei como se não soubesse a resposta e franzi o cenho quando algo do seu olhar mudou, ficou um pouco mais sombrio, melancólico, quase… morto.
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— Não mais, infelizmente! — Ele disse enquanto sorria, tentando ao máximo parecer inabalável — Mas tô ligado que a maioria dos presos que recebem esse tipo de visita não é.
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— A maioria dos detentos que recebem visitas íntimas sem ser casado tem um comportamento acima da média — Retruquei para o mesmo que passou a ponta da língua entre os lábios e deu com os ombros.
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— Eu acabei de chegar, não tenho como ter feito algo de errado, então… — Ele deixou que a minha mente completasse o seu raciocínio. Respirei fundo e encostei-me novamente.
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— É pelo fato de você ter acabado de chegar e não ser casado que eu não posso liberar as suas íntimas agora. Primeiro eu vejo a sua conduta aqui dentro e depois, quem sabe, eu possa aliviar para você… — Disse séria e me arrependi na mesma hora em que ele abriu um sorriso safado — Aliviar a barra!
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Exclamei e ele levantou um pouco as mãos como se estivesse a dizer que ele estava limpo de qualquer culpa.
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— Qual é! Eu sei que você é uma boa pessoa… não pode abrir essa pequena exceção para mim? — Ele perguntou com a carinha de cachorro molhado e eu abri um sorriso sem mostrar os dentes, fazendo com que uma pequena esperança surgisse nos seus olhos.
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— Não! — Fechei o sorriso e ele me olhou como se eu fosse a pior das megeras.
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— E os manos aqui dizendo que esse lugar virou um paraíso depois que você entrou... imagina se não fosse. — Ele resmungou irônico ao se encostar na cadeira e eu dei uma risada incrédula.
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— Acredite em mim, Pablo! Você passaria os restos dos seus dias na solitária se o antigo superintendente estivesse no meu lugar e, também, acredito que aqui seja muito melhor do que o lugar onde você estava...— Falei com uma calma surpreendente enquanto olhava para ele — Está agora na minha sala já é uma grande prova da minha boa fé, deveria agradecer por eu lhe dar a atenção que nenhum outro diretor daria. Ainda mais com a ficha que você tem…
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Olhei para o mesmo que apenas engoliu em seco e me olhou por alguns segundos, assentiu com a cabeça.
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— Eu tenho outra reclamação para fazer! — Alertou e eu olhei para ele incrédula.
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— Acha que aqui é o que? Um hotel cinco estrelas? — Perguntei grosseiramente e o mesmo ignorou o meu comentário, coçando a garganta.
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— Se eu vou passar o resto da minha vida aqui, devo ter direito de ao menos reclamar do cozinheiro. Você já comeu o feijão daquele cara? — Ele olhou para mim como se estivesse a esperar a minha resposta, mas não me deu tempo de responder — Não é dos melhores, puro sal. Qual é, diretora, nem Hitler consegue cozinhar tão m*l.
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— Vou anotar a sua reclamação, mas alguma coisa? — Perguntei com sarcasmo enquanto ele se levantava da cadeira à minha frente.
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— Por enquanto é só, mas eu volto caso lembre de mais alguma coisa, morena! — Ele comentou enquanto olhava para a minha sala mais uma vez.
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— Para você é superintendente, diretora ou senhorita Donovan! — Corrigir o mesmo que apenas riu enquanto passava a ponta da língua pelos lábios — Fabrício!
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Chamei o guarda que abriu a porta na mesma hora e olhou para mim com atenção.
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— Acompanhe esse detento até a cela dele. Por favor! — Pedi para o mesmo que apenas assentiu com a cabeça.
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O guarda puxou o tatuado pelo braço e ele apenas deu outro tchauzinho ridículo antes de passar pela porta.
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Que Deus me dê muita paciência para lidar com esse homem…