>> Emily G. Donovan >>
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Eu sabia que não poderia acreditar nas palavras que eu ouvir saírem da boca de Maya. Ela era a mulher de um dos bandidos mais temidos e falados do Rio de Janeiro, óbvio que seria uma ótima mentirosa e, sabendo que a entrevista era supervisionada, faria de tudo para um dos vapores do seu marido ficar com a imagem de alguém que foi injustiçado. Estava mais que óbvio que o PK não tinha nada de pobre coitado.
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Mas algo na expressão do homem ao qual está sendo acusado do crime muda todas as vezes que citamos o assunto. Talvez seja culpa, arrependimento, saudades… ou talvez ele apenas esteja querendo fazer com que alguém acredite que ele é inocente. Mas ontem na visita eu vi a sua postura de i****a mudar completamente para a de alguém maduro e, talvez, aquele seja o verdadeiro PK que ele esconde atrás de toda essas suas palhaçadas.
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Respirei fundo e afastei a ficha do detento para longe de mim ao mesmo tempo que me encostei na cadeira. O cara não tinha crime nenhum, a ficha limpa, mas saiu assumindo todos os crimes que cometeu em uma falha tentativa desesperada de se mostrar sincero perante o juiz e agora tinha mais crimes na sua ficha do que eu poderia contar nos dedos.
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" ...mas nós dois sabemos que você jamais iria machucar uma mulher."
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Essas palavras não saem da minha cabeça e eu estava me sentindo uma i****a por tá tão atormentada por causa de uma visita. "A cadeia está cheia de inocentes, até que se prove ao contrário" era isso que eu ouvia todos os dias quando cursava a faculdade de direito e sabia que boa parte dos detentos - como o Rafael - não eram um perigo para a sociedade. Já alguns, como o Braga, faziam de tudo para manipular as pessoas e obrigar a elas a fazer o que ele queria.
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Mas, embora o meu lado advogada e faminta por justiça queira saber muito em qual dos dois lados o novo detento se encaixa, isso não era mais parte do meu trabalho. O meu trabalho era fazer com que os detentos cumprissem as suas penas e fazer o possível para que eles tenham uma boa conduta, então assim eu farei.
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— Bom dia, Rafael! É uma surpresa vê-lo em minha sala. No que posso te ajudar? — Perguntei para o mesmo com um sorriso simpático assim que ele se sentou na cadeira em minha frente.
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— Tudo bom, dona? Não me leve a m*l não, não tô querendo mandar no seu trabalho nem nada do tipo… mas a senhora poderia me mudar de cela? — Ele pediu em uma quase súplica e eu franzi a testa, Rafael está aqui a mais de 4 anos e essa é a primeira vez que ele parece ter inimizade com um dos presos.
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— Algum problema com o seu novo colega? — Perguntei enquanto observava as plantas da cela e confirmava com quem ele dividia a cela.
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— Problema nenhum não, Dona! É que o cara fica falando o tempo todo coisa com coisa, não me deixa dormir. Um dia desses ele ficou quase duas horas reclamando que fulano tava paquerando ele — Ele disse como se estivesse se lamentando e eu colocou a mão na boca para esconder a vontade de rir. Eu pensava que o conselho tinha mandado ele de castigo para mim, mas parece que não sou a única a pagar o pato.
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— Eu vou ver o que posso fazer por você, mas não prometo nada. Sei que o Pablo é uma pessoa… difícil, de se conviver. Mas ele chegou no presídio há apenas duas semanas, dê um tempo para ele — Aconselhei ao mesmo que apenas assentiu com a cabeça ao mesmo tempo em que se levantava da cadeira.
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— Eu vou tentar, mas não esqueça de ver se acha uma nova cela para mim, por favor! — ele pediu e eu afirmei com a cabeça em sinal de concordância. Não sei se sinto mais pena do Pablo ou do Rafael…
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Fiquei um tempo na minha sala relendo alguns relatórios carcerários que a Pamela tinha me passado, ao mesmo tempo em que lutava contra a vontade de pegar o relatório do crime que fez aquele detento parar aqui e reler até me convencer que tudo isso não passava de paranoias de alguém que estudou a vida toda para defender os outros. Eu parei de prestar atenção nos documentos quando meu celular começou a tocar, era uma ligação do Nathaniel.
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— Amor? — Chamei por ele assim que atendi o telefone e franzi a testa quando ouvi altos barulhos de carros e gritaria do outro lado da linha.
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— Como você está? — Ele perguntou do outro lado da linha — ainda amarrotada de detentos para cuidar?
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— E poderia ser diferente? — Perguntei em riso e pude ouvir o mesmo bufar do outro lado da linha.
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— Não entra na minha cabeça que você jogou o seu diploma fora para ficar o dia todo nessa sala correndo perigo. Essa não é uma boa área para mulheres…
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— Nenhum cargo alto será “uma área boa” para mim, porque eu não tenho um p***o pendurado no meio das pernas. Esqueceu de deixar isso bem claro no seu discurso — Retruquei e não precisava tá do lado dele para saber que ele revirou os olhos.
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— Não quero saber dos seus discursos feministas — Ele rosnou do outro lado da linha e eu reprimi os lábios, soltando um incrédulo riso nasal.
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— E nem eu dos seus comentários machistas sobre o meu trabalho. Sinceramente, Nathaniel, eu não estou com cabeça para entrar nessa discussão outra vez — Falei ao mesmo tempo que tentava equilibrar o celular entre o ombro e o pescoço e assinava alguns papéis.
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— Não estou sendo machista, estou preocupado com a sua segurança. — Ele afirmou do outro lado Franzi a testa quando a gritaria voltou.
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— Onde você está?
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— Trabalhando. Um de nós tem que fazer algo além de brincar de polícia e ladrão o dia todo — Ele comentou e riu como se sua piada realmente tivesse alguma graça — Meu pai perguntou por você, vai estar na cidade amanhã e perguntou se você poderia almoçar com ele. Isso se não estiver muito ocupada com os detentos, claro. Fiquei sabendo que agora eles têm passe livre até a sua sala.
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— Tá com ciúmes de um bando de condenados? — Perguntei e não consegui evitar o sorriso que nasceu no canto dos meus lábios.
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— Não. Claro que não, mas esse tal de PK é um…
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— Manipulador, homicida e altamente agressivo. Eu sei! — Interrompi o mesmo que apenas respirou fundo e eu fiz o mesmo — Não sou uma criança que vai cair nos joguinhos dele, Nathan. Você poderia ter um pouco mais de fé em mim…
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— Eu tenho, eu só…
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— Fica preocupado, eu sei. — Disse e umedeci os lábios. Minha atenção foi tomada pelo Roberjan que abriu um pouco a porta e perguntou algo sobre trazer um detento até aqui, eu apenas confirmei com um sinal de joinha — Eu tenho que desligar… Espero que esteja indo tudo bem na missão e que você volte logo para casa. Estou com saudades!
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— Eu também, Te amo… — Respondeu do outro lado da linha e eu dei um sorriso ao mesmo tempo que afastava o celular do ouvido e desligava a chamada.
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{...}
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Eu nunca fui uma pessoa muito religiosa, mas nunca pedi tanto a Deus para que tivesse piedade de mim.
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Parei de massagear as minhas têmporas no segundo em que Roberjan entrou com o Pablo na minha sala, o tatuado estava com o seu sorriso i****a de sempre e o cabelo um pouco molhados. Os detentos tinham acabado de sair do banho. Eu arrumei a minha postura na cadeira e fiz um gesto na mão para que ele se sentasse.
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— Gosto de vim na sua sala, acho que é por causa do ar-condicionado — Ele comenta enquanto observa ela por alguns segundos, estou começando a perceber que ele faz isso com muita frequência. Não demorou muito para que ele virasse para frente e meus olhos encontrassem os seus.
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— O que você quer agora? — Perguntei para o mesmo que franziu a testa, talvez pelo fato de eu não ter feito o mínimo esforço para esconder o mau-humor que me atingiu depois da minha conversa com o Nathan — Vou acabar proibindo de verdade a sua entrada na minha sala.
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— Você parece estressada… aconteceu alguma coisa? — Ele ignorou completamente o meu aviso e eu revirei os olhos. Já estava cansada dos joguinhos desse cara. — Eu tenho uma pergunta, se você namora… por que não usa uma aliança?
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— Porque o meu caráter está dentro de mim, não em um anel. — Respondi enquanto me encostava na cadeira e voltava a revisar a pasta com os relatórios.
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— Mas se eu tivesse uma namorada tão gos… linda — Ele se autocorrigiu — Eu colocaria uma aliança no dedo dela para mostrar a todo mundo que ela tem dono.
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— Colocar uma aliança no dedo de alguém significa que você está se comprometendo com essa pessoa, não que você está assinando um contrato de compra de propriedade. Isso te torna parceiro dessa pessoa e não dono dela. — Retruquei para o mesmo enquanto o olhava por cima da folha e o mesmo umedeceu os lábios.
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— Isso é um modo de expressão, você entendeu o que eu disse!
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— Não gosto da sua “forma de expressão”. É nojenta… e machista.
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— Ala, “machista” tá doidona? — Ele olhou para mim como se eu fosse algo asqueroso e nojento — Eu sou mulherista pra c*****o!
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Ele falou com tanta convicção que eu não aguentei, gargalhei tão alto que até o tatuado do outro lado da mesa me olhou surpreso. Eu coloquei a mão na frente da boca para tentar disfarçar – inutilmente – o quanto eu estava me divertindo com isso. Quando eu virei a minha atenção para o Pk, o mesmo estava com a ponta dos seus lábios curvados em um sorriso ladino.
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— Minha nossa, como você é irritante! — As palavras saíram entre riso e ele colocou a mão no peito como se estivesse se sentido ofendido — Se fala "feminista", não ",mulherista". E Você é homem, não pode ser feminista! O máximo que você pode fazer é apoiar a causa. Algo que eu tenho sérias dúvidas que você faça, já que na sua ficha consta que você é terrivelmente agressivo com as mulheres.
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Percebi que algo na sua expressão vacilou por alguns poucos segundos.
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— Não por maldade… — Ele colocou um sorriso descarado no rosto e toda a melancolia em sua fase foi deixada de lado — Mas não posso fazer nada se elas preferem algo mais “bruto” em certas horas.
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Eu pisquei para ele diversas vezes em um período de tempo, completamente atônita. As palavras pareciam sumir completamente quando chegavam na ponta da minha língua…
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— Qual é, morena! Vai me dizer que você também não gosta de ser pega de jeito, de sentir uma mão firme no seu cabelo enquanto socam forte dentro da sua b****a, te chamando de v***a… — Ele disse enquanto olhava diretamento nos meus olhos e eu engolir em seco enquanto sentia o clima dentro da minha sala esquentar, não tive tempo para responder — Você também gosta de ser dominada durante o sexo? De levar uns tapas nessa sua b***a gostosa?
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Seus olhos que até esse momento encaravam os meus desceram para a minha boca e pousaram nela por alguns segundos.
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— Eu quero que você saia da minha sala! — Rosnei para ele, agradecendo internamente pelo fato de toda essa tensão que se formou entre nós não ter alterado em nada o tom da minha voz.
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— Ué, mas eu acabei de chegar… — Ele falou em um tom de protesto e eu engoli em seco quando um sorriso safado surgiu em seus lábios e o mesmo mordeu eles por alguns segundos — Te deixei nervosa?
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— Não. Mas se você não sair da minha sala agora, quem vai ficar nervoso é você! — Ameacei o mesmo que apenas respirou fundo e se encostou na cadeira.
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— Não quero, gosto da sua companhia — Disse enquanto se recostava na cadeira e agora foi a minha vez de respirar fundo.
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— Duvido que continuará gostando dela quando eu acrescentar o assédio na sua ficha criminal. Não que isso afete algo na sua pena… mas tenho certeza que afetará ainda mais o que resta da sua moral. — Eu disse enquanto caminhava até a porta, colocava a mão na maçaneta e abria a mesma. Voltando a encarar ele — Saia da minha sala!
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Ele me olhou sério por alguns segundos e então se levantou, caminhando até mim.
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— Eu não estava te assediando, tava apenas fazendo algumas perguntas. No máximo, dando em cima de você — Deixou claro enquanto passava pela porta e se virava para mim do outro lado da soleira da porta.
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— Não quero que dê em cima de mim, eu tenho namorado!
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— Cá pra nós, morena! Se o seu namorando estivesse comandando bem a empresa que ele tem nas mãos você não andaria tão estressada… — Ele disse em um tom cafajeste, me olhando de forma pretensiosa. Sentir meu sangue ferver.
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— Nunca mais, venha até minha sala! — Rosnei para ele e fechei a porta na cara dele antes que eu transformasse os meus pensamentos em atitudes e acabasse indo presa por homicídio.
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Eu odeio esse homem!