• Capítulo 06 •

2508 Words
⠀⠀⠀ >> Emily G. Donovan >> ⠀⠀⠀ Faz muito, muito, tempo desde que eu vi o pai do Nathaniel pela última vez. Lembro que na época de escola nossos pais eram vizinhos e eu sempre ia almoçar na casa deles nos finais de semana. Eu tinha uma queda pelo Nathan desde o fundamental e me aproveitava da amizade dos nossos pais para jogar todos os meus encantos para cima dele. Nada adiantava, eu continuava sendo apenas a pirralha da sua melhor amiga três anos mais nova e ele o gostosão da escola ⠀⠀⠀ Quando o meu pai morreu, eles dois fizeram tudo por mim. Se não fosse por eles, eu não era nada além de uma adolescente recém-adulta que não tinha onde cair morta. Arthur - pai do Nathaniel - me ajudou a passar no exame público, me ensinou tudo o que eu sei sobre senso de justiça e foi uma família para mim quando eu não tinha mais nada e nem ninguém. A dívida que eu tenho com ele é enorme. Devo a ele muito mais do que poderia descrever em palavras. ⠀⠀⠀ Sair do meu carro e tranquei as portas do mesmo enquanto atravessava a rua em direção ao restaurante que tinha marcado com o Arthur. Assim que passei pela enorme porta de madeira sorri ao ver o homem de meia idade redonducho e com cabelos grisalhos se levantando da mesa para me receber. Em questão de segundos eu já estava com os braços em volta do seu ombro. ⠀⠀⠀ — Oh, minha princesa! Eu estava morrendo de saudades de você! — Ele diz no meu ouvido, me apertando em um abraço forte e eu retribuo. ⠀⠀⠀ — Nem me fale, faz quanto tempo que a gente não se vê? Quatro meses? — Perguntei para ele com a testa franzida enquanto nos sentávamos à mesa. ⠀⠀⠀ — Para mim faz muito mais do que isso, anos, eu suponho. — Ele diz enquanto rir e o meu sorriso se alargar ainda mais — Vejo que está se alimentando bem, está até mais gordinha. ⠀⠀⠀ — Péssima escolha de palavras para se dizer a uma mulher, senhor Arthur! — disse em um falso tom de repreensão e o mesmo ergueu as sobrancelhas para mim. ⠀⠀⠀ — Mas olhe só a audácia dessa menina! Eu troquei suas fraldas! — Ele disse em um tom de quem estava sendo injustiçado e eu dei risada — Como anda o trabalho novo? ⠀⠀⠀ — Difícil, mas eu sabia que seria assim desde que resolvi aceitar…sabe que eu não corro de um desafio. — Falei com sinceridade ao mesmo tempo em que agradecia ao garçom pelo prato que o Arthur já tinha pedido. Ele sabia do que eu gostava — Estou me sentindo realizada pela minha conquista. Então, sendo fácil ou não, eu estou feliz. ⠀⠀⠀ — Estou orgulhoso de você por isso… e o Nathaniel também, embora deva admitir que assim como eu não tenho jeito para falar com as mulheres, o meu filho não tem o menor jeito para lidar com as palavras… — O mesmo fala enquanto bebe um gole do vinho que está na sua taça e eu umedeço os lábios enquanto solto um riso nasal. O pai dele me convidou… ⠀⠀⠀ — Algumas menos machistas e um pouco mais apoiadoras ajudariam a ele a parecer um pouco menos babaca — Falei séria enquanto encarava o mesmo que respirou fundo e colocou a taça na mesa — Desculpe o termo… ⠀⠀⠀ — Ele se preocupa com você e tem um forte instinto protetor, sabe disso. Não pode culpar a ele por não saber lidar com o fato da sua namorada ficar cercada de bandidos o dia todo e… ⠀⠀⠀ — Quando foi ele que mandou você me chamar para almoçar? Hoje de manhã? — Interrompi o mesmo e engoli em seco quando o mesmo me olhou como alguém que tinha sido pego no flagra. ⠀⠀⠀ — Eu iria te chamar de todo jeito, estava morrendo de saudades de você, ele só fez adiantar os fatos. — Confessou e eu abri um sorriso de descrença - sem mostrar os dentes - e olhei para as outras mesas ao meu redor — Sei que você pode está um pouco decepcionada agora, mas ele só quer o seu bem. ⠀⠀⠀ — E eu? — Me virei para ele e encarei seus olhos castanhos — Quando ele vai aprender a respeitar o que eu quero e não ficar usando todas as cartas que ele tem na manga para tentar me fazer desistir daquilo que eu passei anos da minha vida lutando para conquistar? ⠀⠀⠀ Disparei as palavras sem sequer me dar o trabalho de parar para respirar e o mesmo ficou me olhando como se não soubesse o que responder, abrindo e fechando a boca repetidas vezes enquanto eu aguardava a sua resposta. ⠀⠀⠀ — Não gosto de ver vocês assim, vocês tem que se entender… ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ — Não vamos nos entender até que ele aprenda a apoiar as minhas decisões… mas sei que o Nathan não é tão cabeça dura, isso não vai durar por muito mais tempo. — Pelo menos é nisso que eu quero acreditar… ⠀⠀⠀ — Eu espero, minha filha, eu espero… mas devo admitir que ele não é o único que está preocupado com tudo isso — Ele diz em um tom cansado e esperançoso e eu abri um sorriso sem mostrar os dentes, estendendo a minha mão para segurar a sua. ⠀⠀⠀ — Sabe que eu sou grata a você por tudo o que fez por mim, eu te considero muito, quase tanto quanto considerava o meu próprio pai… — Eu disse enquanto colocava um sorriso suave nos lábios e ele fez o mesmo — Mas eu não vou deixar a minha gratidão por você interferir nas minhas escolhas… ⠀⠀⠀ Eu disse enquanto encarava seus olhos e o mesmo ganhou um brilho novo, ao mesmo tempo em que o seu sorriso se alargava, agora, mostrando seus dentes. ⠀⠀⠀ — Seu pai sentiria orgulho da mulher que você se tornou… — Ele puxou minha mão para se e beijou o seu dorso. Eu engoli em seco quando o efeito de suas palavras quase me deixou emocionada — Eu também sinto! ⠀⠀⠀ — Obrigada, sabe o quanto isso é importante para mim… ⠀⠀⠀ {...} ⠀⠀⠀ Ter o conselho na minha cola era uma dor de cabeça constante… mas nada se comparava a ter que lidar com o fato do meu próprio namorado não apoiar as minhas decisões e deixar isso bem claro em todas as nossas conversas. Acho que no fundo o verdadeiro motivo de eu estar me sentindo tão sobrecarregada com tudo isso é por que o Nathaniel deixar a parecer - com atitudes - que eu estar seguindo atrás dos meus sonhos é o motivo do nosso relacionamento está se esfriando cada vez mais, pouco a pouco. Sabia que a culpa não era só minha, mas isso não impediu que algumas lágrimas escorressem pelas minhas bochechas enquanto eu dirigia em direção ao trabalho. ⠀⠀⠀ Respirei fundo e tirei a xuxa que prendia o meu cabelo quando percebi que coque já estava bem frouxo. Meu cabelo preto, cacheado e longo escorreu pelo meu ombro enquanto eu subia as escadas que me dava acesso a minha sala. Tudo o que eu queria era uma latinha de cerveja bem gelada e a minha cama para esfriar a cabeça, mas, em vez disso, a vida me deu a área da minha assistente sem a minha assistente e um Pablo escorado com as mãos algemadas em cima da mesa dela com um sorriso largo, parecia estar me esperando. ⠀⠀⠀ — Pensei que tivesse sido clara quando falei que não te queria mais aqui — Falei com a voz firme, com o cenho franzido e o mesmo respirou fundo — O que você quer? ⠀⠀⠀ — Não gosto de saber que alguém está chateado comigo… meu coração fica pesado — Ele comentou enquanto reprimia os lábios e curvada as pontas um pouco - quase nada - para baixo, numa falsa expressão de filhotinho se sentindo culpado. Eu soltei um riso nasal de descrença pela cara de p*u do traste e varri o cômodo com o olhar antes de voltar a encarar ele. ⠀⠀⠀ — Metade dos detentos odeia você. Vai se retratar com cada um deles? — Perguntei enquanto procurava a minha chave dentro da bolsa ⠀⠀⠀ — Não vale o esforço… ⠀⠀⠀ — Ah é? Deixe-me adivinhar… — Comecei a caminhar em direção a minha sala, procurando a chave certa no chaveiro e ele me acompanha — Eu valho o esforço porque sou mais “gostosa” do que todos os seus colegas detentos? ⠀⠀⠀ Enfiei a chave da fechadura e coloquei a mecha do meu cabelo que estava caída na frente do meu rosto para trás. Ouvir o mesmo soltar uma risada incrédula e rápida antes de responder: ⠀⠀⠀ — Ala, pode nem elogiar que já fica se achando a rainha da cocada… ⠀⠀⠀ — Olha aqui! — Interrompi o mesmo enquanto me virava para ele e arregalei os olhos quando percebi que ele estava mais próximo do que deveria de mim. ⠀⠀⠀ Pablo era mais alto do que eu, não muito, mas o suficiente para que os meus olhos ficassem na altura do seu pescoço. Eu fiquei alguns segundos encarando a rosa tatuada em seu pescoço antes de engoli em seco e subir o meu olhar para o seu queixo, para sua boca tão pecaminosamente desenhada e então… para seus olhos, em um tom de azul esverdeado que eu nunca tinha visto antes.Esse homem é lindo, o que eu não deveria admitir, já que ele é o motivo de boa parte da minha dor de cabeça. Além de ser um dos criminosos mais perigosos do Brasil. Um detento. ⠀⠀⠀ Ele estava com a cabeça um pouco inclinada para frente, isso fez com que eu pudesse ouvir o som da sua respiração e sentisse mais de perto a essência do seu perfume. Depois de alguns segundos me encarando ele franziu um pouco a testa. ⠀⠀⠀ — Seus olhos estão vermelhos… — Ele disse em um sussurro, com a testa ainda franzida e eu desviei o meu olhar do dele enquanto engolia em seco e tentava controlar o meu ritmo cardíaco acelerado, graças ao susto da sua aproximação — Estava chorando? ⠀⠀⠀ — Isso é da sua conta? — Respondi enquanto abria a porta e entrava na minha sala com ele atrás de mim. ⠀⠀⠀ — Se você fosse um pouco menos grossa, já teríamos uma amizade bem bacana… ⠀⠀⠀ — E se você fosse um pouco mais inteligente, já teria notado que eu não quero a sua amizade. — me sentei em minha cadeira e apontei para a da frente para que ele se sentasse. ⠀⠀⠀ — Que isso, morena! Assim você me parte o meu coração. — Eu tive que respirar fundo e desviar o olhar para não sorrir da sua expressão de quem tinha se doído. ⠀⠀⠀ — No que eu posso te ajudar, Pablo? — Encarei o mesmo segundos depois. ⠀⠀⠀ — Achei um pedaço de unha na minha comida hoje… estou começando a levar isso para o lado pessoal — Ele comentou e eu respirei fundo. Estava me sentindo um pouco incomodado pela forma que ele me olhava. ⠀⠀⠀ — Da próxima vez… porque você não se oferece para cozinhar para todos os outros detentos? — Sugeri e o mesmo colocou no rosto uma careta enquanto se encostava na cadeira que estava sentado. ⠀⠀⠀ — Não tenho vocação nenhuma para chefe de cozinha… ⠀⠀⠀ — Olha, Pablo. Sinceramente? Eu acredito em você! Imagino o quanto a comida seja r**m. O feijão salgado, o arroz empapado… mas seus colegas não estão ganhando absolutamente nada para estar com a barriga encostada na beira daquele fogão cozinhando para dezenas de outros detentos. Se eu levar as suas reclamações para eles, pode acontecer que eles parem de cozinha e assim a outra metade que não te odeia passará a te odiar… ⠀⠀⠀ Eu estava pronunciando cada palavra com o tom mais suave que eu tinha, a atenção do tatuado se mantinha fixa em mim. ⠀⠀⠀ — Vai ser melhor se você apenas se contentar com o gosto da comida e tentar se acostumar com ela… do que fazer algo que deixe a situação toda uma bagunça ainda pior… ⠀⠀⠀ — Ainda estamos falando de comida? — Ele perguntou enquanto colocava ainda mais atenção no meu rosto e eu engoli em seco quando percebi onde as minhas palavras tinham me levado — Ou você está se contentando com algo? ⠀⠀⠀ — Eu só estou tentando fazer o meu trabalho… — Agradeci internamente quando minha voz soou convincente — Ainda quer que eu leve sua queixa para o cozinheiro? ⠀⠀⠀ Perguntei para o mesmo e ele ficou calado por alguns segundos enquanto me olhava fixamente. Analisando cada pedacinho do meu rosto com tanta atenção que era como se ele pudesse ver por trás da "máscara" todos os problemas que eu tinha na minha vida. ⠀⠀⠀ — Nem sempre nos contentar para não piorar a situação é a melhor escolha, sacô? Se você ficar a vida toda aceitando as migalhas que te dão, eles nunca vão saber que você merece mais do que elas… — Ele falou com a sua expressão séria, olhando nos meus olhos e eu engolir em seco quando essas palavras me tocaram muito mais do que deveria — Mas, no meu caso, eu prefiro ouvir o seu conselho. Já que vou passar o resto da minha vida aqui, quero me dar bem com os meus coleguinhas. ⠀⠀⠀ O deboche na sua voz era tão nítido… ⠀⠀⠀ — Poderia começar colocando isso em prática dentro da sua cela, já que o Rafael veio até mim e implorou para que eu mudasse ele de cela — Respondi para o mesmo que deu um muxoxo. ⠀⠀⠀ — Ele é o assassino mais fresco que eu conheço, posso falar nada que o cara se ofende, pô! ⠀⠀⠀ — E eu suponho que você conheça um monte deles — Ele olhou para mim como se não tivesse entendido — De assassinos… ⠀⠀⠀ — Não tanto, mas se você quiser eu te apresento alguns que cobram um preço bem suave… — Ele disse com tanta seriedade que eu me senti obrigada a rir. ⠀⠀⠀ — Você não consegue levar nada a sério? — Perguntei enquanto me inclinava um pouco sobre a mesa e a expressão dele foi mudando aos poucos para uma um pouco mais séria — Por que? ⠀⠀⠀ Eu olhei nos olhos dele enquanto esperava a minha resposta. Silêncio. Durante alguns segundos que para mim pareceram uma eternidade. ⠀⠀⠀ — Por que eu não levo nada a sério? — Ele repetiu a minha pergunta, se escorando na cadeira enquanto mantinha seus olhos fixos em mim e suas mãos algemadas no meio de suas pernas entreaberta — Porque são essas piadas de merda que mantém a minha lucidez intacta... ⠀⠀⠀ São uma rota de fuga…
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