Isabelly Narrando
A manhã seguinte começou como mesmo silêncio da noite passada.
Depois daquela conversa com o sombra, ele me deixou em casa. Não rolou beijo, nem carinho forçado. Foi só aquele último olhar antes de eu sair do carro que ficou preso em mim o resto do dia inteiro. Sabe quando a pessoa não diz nada, mas diz tudo só com o jeito de te olhar? Foi isso.
Entrei em casa devagar, todo mundo ainda tava dormindo. Tomei um banho quente, como se a água pudesse tirar de mim aquela confusão boa que ele tinha deixado. Mas não adiantou nada. Deitei na cama e fiquei ali, olhando pro teto, revivendo cada pedacinho da conversa. Cada palavra. Cada pausa.
Eu fiquei tentando entender por que aquilo mexeu tanto comigo. Ele não pediu nada, mas eu senti como se tivesse me entregado tudo. O jeito dele, a calma, o cuidado... Me desmontou.
Durante o dia, trabalhei na papelaria como sempre, mas a cabeça não colaborava. Eu me pegava lembrando da noite, das palavras, da forma como ele me escutou. E, principalmente, de como ele me viu. De verdade. Coisa rara.
Já era fim de tarde quando meu celular vibrou. Era mensagem dele:
"Durmo sozinho hoje não. Vem pra cá mais tarde. Quero tu aqui, só pra gente conversar melhor."
Meu coração disparou. E não foi por medo. Foi porque eu queria. E isso, pra mim, já era um problema. Porque quando eu quero, eu penso. E quando eu penso, eu travo. Só que dessa vez, mesmo com a cabeça gritando, meu corpo já sabia a resposta.
Respondi só um "tô vendo aqui". Mas já sabia que ia. Mesmo sabendo da encrenca que ia dar aqui em casa.
Fui tomar banho, tentei sair de fininho, mas minha mãe cruzou comigo no corredor, e na hora já veio o sermão.
Mãe - Vai sair de novo, Isabelly? Vai pra onde?
Isabelly - Na Alessandra. Dormir lá - menti, sem nem pensar duas vezes.
Ela cruzou os braços, já desconfiada.
Mãe - Toda hora tu tá na Alessandra, né? Tá estranha você. Não quero você se metendo com gente errada. Tem coisa que eu tô percebendo, mas tô calada...
Isabelly - Mãe, por favor - falei num tom calmo, cansada já. - Só vou dormir lá, não tem nada demais.
Mãe - Se tiver escondendo alguma coisa de mim, Isabelly... vai ser pior. Não esquece de onde você veio. E não esquece do que você merece.
Essa última frase dela ficou martelando dentro de mim. Como se o que eu quisesse fosse errado. Como se gostar de alguém como o sombra fosse um pecado. Como se eu não pudesse viver nada fora da linha que ela traçou pra mim.
Mas eu fui mesmo assim.
Peguei minha bolsa, saí de casa com o coração apertado, mas com uma certeza dentro de mim: eu precisava entender o que tava acontecendo entre mim e ele. Eu precisava sentir. E não dava mais pra ficar ignorando isso.
Porque às vezes, a gente não precisa entender tudo. Só precisa viver.
Quando eu subi e cheguei na frente da casa dele, ele já tava na varanda.
Sentado de lado na poltrona, braço jogado no encosto, baseado aceso na mão, como se aquele momento já fosse rotina. Como se fosse normal me esperar ali. Ele queria ir me busca mas eu preferir pegar um moto taxi pra evitar fofoca na rua.
Mas não era. Pelo menos não pra mim.
Sombra - Vem cá - ele disse com a voz baixa, soltando a fumaça devagar, sem desviar o olhar.
Me aproximei e ele puxou outra cadeira, me dando espaço. Sentei em silêncio. A rua lá embaixo tava calma, só o som distante de moto passando, o cheiro de comida de alguma casa se misturando com o da erva. E ele do meu lado, tão perto, mas ao mesmo tempo respeitando meu espaço.
Sombra - Que cara é essa? - ele perguntou, depois de um tempo em silêncio.
Isabelly - Minha mãe... - falei, encarando o chão. - Já tá começando a desconfiar. Veio cheia de pergunta, falou um monte. Que eu tô estranha, que eu tô me afastando, que eu tô escondendo coisa.
Ele assentiu com a cabeça, deu mais um trago e passou o baseado pra mim. Aceitei, puxei devagar e fiquei ali, respirando fundo como se fosse aquilo que me acalmasse.
Sombra - E tá escondendo mesmo, né? - ele falou depois, com um sorrisinho leve no canto da boca. - De todo mundo. De você mesma, até.
Eu olhei pra ele. Não era cobrança. Era só verdade. Daquelas que cutucam.
Isabelly - Eu só não sei lidar. Eu gosto de você, sombra. E isso... assusta. Não pelo que você é, mas pelo que vai virar a minha vida se eu encarar isso.
Sombra - Tu acha que eu não penso nisso também? - ele virou pra mim, mais sério agora. - Cê acha que eu não sei o que representa tu tá aqui comigo?
Eu sou o cara que tua mãe odeia sem nem saber que é ele. Que o povo comenta, julga, aponta. Eu sou o nome que tu esconde até de ti mesma.
Fiquei quieta. Ele tava certo. E ouvir aquilo de um jeito tão direto só me deixava mais exposta.
Sombra - Mas mesmo assim tu veio - ele completou. - E isso já me diz mais do que qualquer declaração.
Meu peito apertou. Era isso. Eu tava ali. Contra tudo que me ensinaram, contra tudo que me disseram que era certo. Mas de alguma forma, era ali que eu me sentia mais eu.
Isabelly - Eu tenho medo de te magoar, sombra. De não conseguir ser o que você espera. De não conseguir segurar essa barra.
Ele se aproximou um pouco mais, encostou o braço no meu e falou baixo:
Sombra - Eu não quero promessa. Nem rótulo. Só quero viver contigo. No teu tempo, do teu jeito. Mas com verdade. Se for pra ir, que seja real.
Fechei os olhos por um instante, sentindo o calor do corpo dele do lado, o jeito que ele falava tudo com tanta firmeza, sem jogar charme, sem fazer cena. Era só ele sendo ele. E era isso que me prendia.
Isabelly - Eu tô tentando - sussurrei. - Não sei até onde isso vai, mas eu tô tentando.
Ele colocou o braço por trás do meu encosto, me puxando de leve pra perto, sem forçar nada. Só o suficiente pra eu encostar a cabeça no ombro dele e sentir o peito dele subindo e descendo devagar.
Sombra - Já é o suficiente por hoje - ele respondeu.
Ficamos assim. Em silêncio. O cigarro queimando devagar no cinzeiro, as luzes da comunidade brilhando lá embaixo, e eu com a sensação de que, pela primeira vez em muito tempo, tava no lugar certo. Mesmo que tudo ao meu redor dissesse o contrário.
E naquela noite, eu não precisei de promessa, de certeza ou de palavras bonitas.
Só precisei dele. E de mim. Inteira.