cap 01 vamos pro mirante
Isabelly Narrando
Me chamo Isabelly, tenho 18 anos recém-feitos. Acabei de concluir os estudos e, agora, tô naquela fase de correr atrás dos meus próprios sonhos. Trabalho numa papelaria aqui mesmo no morro, pertinho de casa. É simples, mas me ajuda a juntar uma grana. Tô focada em juntar o suficiente pra realizar meu maior sonho: fazer faculdade de enfermagem. Moro só com meus pais. Somos só nós três: eu, minha mãe e meu pai. Eles são tranquilos, de verdade. Nunca foram de ficar pegando no meu pé, me deixam sair, curtir, e confiam bastante em mim. A única coisa que vira e mexe gera atrito é o Torresmo, meu amigo. Eles não gostam nem de ouvir o nome dele. Acham que, por ele ser do movimento, eu devia manter distância. Mas a história é mais profunda que isso.
Conheci o Torresmo por causa da minha prima, Alessandra. Ela sempre foi como uma irmã pra mim. Filha única que sou, crescemos grudadas, tipo unha e carne. Saíamos pra tudo quanto era canto juntas, e foi numa dessas andanças que esbarrei com o Torresmo.
Na época, a Alessandra vivia dando uns rolês pra comprar uma maconha. E o Torresmo? Sempre tava por perto. Vivia dando em cima dela, com aquelas cantadas baratas de malandro que acha que é charme. No fim, eles ficaram amigos, e como eu sempre tava com ela, acabei entrando no bonde também.
De começo, ele era só "o cara que vendia pra minha prima", mas com o tempo, as conversas foram ficando mais leves, mais naturais. E hoje? Hoje o Torresmo é um dos meus parceiros mais fiéis. Mesmo com a fama que ele tem aqui no morro, sei que posso contar com ele.
Meus pais não entendem isso. Pra eles, todo mundo do movimento é problema. Mas a vida real é mais cinza do que preto e branco, né? Eu enxergo o Torresmo além do corre que ele faz. Ele tem um lado que ninguém vê. Só que nem todo mundo quer enxergar.
Mas bora reagir que hoje à noite é dia de bonde no mirante. Beber, rir, fumar…
Me levantei da cama ainda com aquela vontade de ficar deitada, fui direto pro banho. Lavei o cabelo, deixei ele secar natural mesmo pra ser mais rápido. Vesti uma calça jeans justinha, uma blusa branca canelada que marca meu corpo do jeitinho certo e um tênis confortável. Desci pra cozinha, sentindo já o cheiro do café, que eu amo.
Isabelly - Bom dia, pai. Bom dia, mãe – falei, dando um beijo carinhoso na cabeça do meu pai, que estava sentado no sofá assistindo o jornal, e outro na minha mãe, que tomava o café dela quietinha.
Mãe - Bom dia, filha. Já deixei seu leite com Nescau pronto, e o pão tá ali no prato, em cima da pia – disse ela, me olhando com aquele olhar de cuidado que só mãe tem.
Isabelly - Ai, eu te amo muito, mãe – respondi, já pegando o pão e comendo rápido pra não me atrasar pro trabalho.
Assim que terminei, lavei minha louça, escovei os meus dentes e saí de casa descendo a ladeira com aquele céu azul estalando. Peguei a Rua 6, onde fica a papelaria, e logo avistei o Torresmo encostado na esquina com mais uns bofes do movimento.
Torresmo - E aí? Hoje vai ser naquele pique no mirante, hein! – ele falou alto, do outro lado da rua, dançando e fazendo graça como sempre.
Isabelly - Você sabe, né, Torresmo? Quando estiver indo, me dá um toque – falei, rindo, colocando a mão na testa por causa do sol que já estava quente mesmo sendo cedo.
Torresmo - Vou colar com os faixa, mas na hora te dou aquele alô – ele respondeu, me encarando com aquele sorrisinho dele de sempre.
Foi aí que, por trás dele, meus olhos bateram em uma visão que quase me fez tropeçar.
Sombra.
Ele tava ali. Encostado, tranquilo, como se o tempo não existisse. Baseado na boca, aquele olhar que entra na gente sem pedir licença. Desde que voltou do Paraguai, era só a segunda vez que eu via ele... mas meu Deus, que visão. A perna fechada de tatuagem, o braço também... um pecado. E o pior, ele me encarou de volta. Sem pressa, sem pudor. Eu desviei o olhar na hora, com o coração batendo acelerado.
Isabelly - Tá bom então. Eu vou com a irmã, aí a gente se encontra, Torresmo. Beijo! – falei, tentando disfarçar meu surto interno e mandando um beijo pra ele.
Torresmo - Fechou então, faixa – ele disse, me encarando daquele jeito que só ele tem.
Segui meu caminho, descendo o morro com o pensamento a mil por hora, e logo cheguei na papelaria. Cumprimentei meu patrão com um "bom dia" apressado e fui direto pro caixa, onde eu passaria o resto do dia... até a noite chegar e o bonde subir pro mirante.