Isabelly Narrando
Graças a Deus deu meu horário. Desliguei o caixa, peguei minha bolsa e subi a ladeira ligeira, com o sol se pondo lá no alto do morro, tingindo o céu de laranja. Quando estava quase chegando em casa, a Alessandra já apareceu do meu lado, como se tivesse ensaiado o encontro.
Alessandra - Bora se aprontar, n**a! Hoje ninguém segura. Só os fortes! – ela falou dançando no meio da rua, toda empolgada. Ri alto, como sempre.
Isabelly - Eu, hein. Quero nem saber desses mavambo hoje – respondi, rindo, enquanto abria o portão de casa.
Alessandra - Isabelly, Isabelly... tu vai gamar num bofe ainda, eu já tô sentindo – ela disse entrando atrás de mim, toda vidente de boteco.
Só que o papo teve que parar ali mesmo. Meus pais estavam na sala, e Alessandra mudou de tom na hora.
Alessandra - Saudade, tios! – ela disse, indo abraçar meu pai e minha mãe com aquele jeito falso natural dela.
Pai - Você sumiu daqui, filha – meu pai comentou, sorrindo de leve.
Alessandra - Sabe, né, tio... a correria lá no serviço – ela disse, mentindo com a cara mais lavada do mundo.
Mãe - E as bonitinhas vão pra onde, hein? – minha mãe perguntou com a mão na cintura, já desconfiada.
Alessandra - Chamei a Isabelly pra jantar lá no mirante comigo – Alessandra respondeu toda fingida. Aham, claro que era só jantar.
Mãe - Vigia, hein, pelo amor de Deus. Porque o Sombra voltou, e vocês sabem... – minha mãe falou séria, lançando aquele alerta que só quem é cria entende.
Alessandra - Tá comigo, tá com Deus – Alessandra respondeu rindo, como se isso tranquilizasse alguma coisa.
Meu Deus, essa Alessandra ainda me coloca em cada uma... E o pior é que eu vou. Sempre vou.
Subimos pro quarto e fomos direto agilizar tudo. Tomamos banho juntas mesmo, pra acelerar. Saí primeiro, sequei o cabelo e passei a chapinha pra deixar bem alinhado. Enquanto isso, comecei a me maquiar e Alessandra foi secando o cabelo dela.
Alessandra - Quem tá gostoso mesmo é o Sombra... meu Deus, que homem é aquele – ela disse, passando a escova devagar, com cara de pecado.
Isabelly - Vou ter que concordar. Hoje vi ele com o Torresmo... mas aquilo ali é trabalhoso demais. Muito concorrido – falei, pegando a escova e passando no cabelo dela.
Alessandra - A gente podia fechar um 4 e pá, né? Eu pego o Joãozinho, tu pega o Sombra – ela disse me olhando pelo espelho, toda sonhadora.
Isabelly - Tá doida? Bandido é muito problema, tô fora. Agora posso ver a meta de você pegar o Joãozinho – falei, rindo, enquanto terminava de secar aquela parte bufada do cabelo dela.
Quando acabamos o cabelo, finalizei minha make enquanto ela começava a dela. Vesti um conjunto de lingerie branca básica, mas bonitinha e fui procurar uma roupa. Alessandra se levantou, fuçou meu guarda-roupa e puxou um vestido azul Royal com uma f***a na perna.
Alessandra - Amiga, você tem que ir com esse. Vai arrasar – disse, já me entregando o look.
Peguei e vesti. Sinceramente? Eu e minha irmã estávamos um nojo de tão gostosas. Descemos prontas, com perfume marcando presença e olhar de quem sabia o que queria. Meu pai já tava dormindo no sofá, e minha mãe nem vi por onde andava. Chamamos o mototáxi e fomos direto pro mirante.
Chegando lá, o lugar já tava fervendo. Cheio de cria, som alto, luz piscando, e aquele cheiro de churrasco misturado com fumaça no ar. Fomos procurando um canto pra ficar até que vimos o Torresmo acenando de longe, chamando a gente.
Alessandra - Irmão, nem avisou que tava vindo! – Alessandra falou, abraçando ele.
Torresmo - Esqueci, pô. Mas senta aqui na mesa do lado com a gente – ele disse, encarando a gente com aquele olhar protetor de sempre.
Isabelly - Não vai incomodar? – perguntei, meio sem graça.
Torresmo - Ô, Isabelly, vai tomar no c*. Onde que vocês incomodam? Aqui é tudo junto! – ele respondeu, me fazendo rir alto.
Nos sentamos na mesa do lado. O Torresmo tava com uns 10 bandidos na dele, todos armados até o osso, mas tranquilos, sorrindo, curtindo a noite. Eu e Alessandra pegamos uma bebida e começamos a entrar no clima, dançando no canto, rindo, aproveitando.
Foi aí que o ambiente mudou.
Sombra chegou.
E, sem exagero, o lugar inteiro parou. Os olhares seguiram ele. O cara tinha presença, postura, e aquele ar de perigo que atraía. Cumprimentou geral da mesa do Torresmo e sentou do lado dele.
Meu coração? Já tava acelerado.
E eu sabia: essa noite ainda ia dar história.