Isabelly Narrando
O som tava alto tocando só as melhores, a bebida já tava começando a bater e eu dançava devagar com a Alessandra, curtindo o clima da noite. O morro todo parecia estar ali no mirante. Um monte de rosto conhecido, outros nem tanto. Mas o que mais pesava era aquele olhar. O dele.
Sombra.
Desde que chegou, senti os olhos dele me acompanhando, como se analisasse cada movimento meu. Ele tava calado, postura reta, observando. E, mesmo sem falar nada, o jeito que ele olhava dizia tudo. Foi quando o Torresmo se aproximou de fininho, com aquele sorrisinho de canto.
Torresmo - Toma, irmã, do jeitinho que você gosta – ele falou no meu ouvido colocando disfarçadamente na palma da mão.
Eu olhei sorrindo pra ele e assenti com a cabeça, segurando o baseado na minha mão. Quando olhei pro lado, lá estava ele. Sombra, sentado na cadeira dele, copo na mão, só me observando. Parecia calmo, mas eu sabia que aquele olhar não era à toa. Ele viu tudo. E não tirava os olhos de mim.
Fiquei uns segundos parada, até virar pro Torresmo de novo.
Isabelly - Me empresta um isqueiro, rapidinho, eu esqueci o meu – falei calma.
Antes que o Torresmo pudesse responder, Sombra se levantou com uma lentidão calculada, deu dois passos até onde a gente tava e estendeu um isqueiro preto fosco pra mim, sem dizer nada.
Peguei, tentando parecer natural, mas minhas mãos estavam um pouco trêmulas. Nossos dedos se encostaram por um segundo. Quente.
Isabelly - Valeu. – murmurei, olhando nos olhos dele por um segundo que pareceu durar mais que devia.
Fui me afastando, andando entre as mesas até achar um canto mais vazio, longe da bagunça. Encostei num pedaço de muro que dava pra uma vista linda da favela, lá embaixo, com as luzes piscando e o som do baile abafado pela distância.
Acendi o baseado, traguei devagar. A fumaça subiu calma, me ajudando a desacelerar os pensamentos. Mas mesmo ali, sozinha, eu ainda sentia o olhar dele em mim, como se tivesse deixado uma marca.
(...)
Torresmo Narrando
Sombra virou pra mim, com aquele tom baixo e firme:
Sombra - Quem é essa menina aí que tá contigo direto?
Dei uma risada já sacando a dele, olhando na direção onde tava a Isabelly.
Torresmo - Isabelly. É cria daqui também, minha amiga. A mina é do bem, trampa na papelaria e tudo. Mas não se engana, ela tem visão, não é qualquer uma, não – falo sério pra ele porque eu conheço o tipo do Sombra.
Sombra ficou em silêncio por uns segundos, com o copo na mão, olhando pro canto onde a Isabelly tava. Depois só balançou a cabeça, como quem tava processando alguma coisa.
(...)
Rodrigo (sombra) Narrando
O mirante já tava no vapor quando eu cheguei. Som tocando alto, fumaça no ar, cheiro de carne assando misturado com perfume doce demais. Geral parando pra cumprimentar, me dando o respeito. Cumprimentei os cria da mesa do Torresmo, sentei do lado dele e fiquei na minha. Copo na mão, base aceso, só observando até que ela aparece no meu radar.
Morena, cabelo liso batendo no começo da b***a, vestido colado no corpo que parecia feito sob medida pra provocar. Ela andava com naturalidade, sem forçar nada, como quem nem sabe o impacto que causa. Mas eu vi. Vi o jeito que os outros olhavam. E vi também que ela nem dava atenção.
Ela olhou em volta, analisando o ambiente com cautela. Cautela de quem é cria e sabe onde pisa. E ainda assim, carregava uma leveza no rosto, um jeito de menina que não combinava com aquele ambiente pesado. Me intrigou.
Sentou na mesa do lado com o Torresmo. Dei um gole na bebida, continuei observando. Os dois rindo, trocando ideia, ela olhando o movimento toda antenada, mas sem se mostrar demais. Discreta. Inteligente.
Torresmo levantou, foi até ela e passou alguma coisa discretamente. Conheço essa troca. A menina hesitou, mas aceitou. Ela não era do tipo que se perdia no meio do baile, era do tipo que escolhia onde se perder. E isso, pra mim, já dizia muito.
Depois pediu um isqueiro. E antes do Torresmo reagir, eu já tava de pé.
Fui até ela com calma, tirei o isqueiro do bolso e estendi, sem dizer nada. Ela pegou, os dedos dela encostaram nos meus por um segundo. Quente, macio, firme. Olhou nos meus olhos, agradeceu com a voz baixa. E eu não respondi, só fiquei ali, encarando.
Ela se afastou logo em seguida, indo pra um canto mais vazio. E eu continuei olhando.
Naquele momento, eu soube de uma coisa com certeza: aquela menina não era como as outras.
Tinha visão, presença... e mistério.
E eu queria descobrir tudo. Eu levantei e fui até ela.