Isabelly Narrando
A fumaça subia lenta, se perdendo no céu escuro do morro. Eu tragava devagar, tentando esvaziar a mente, mas era impossível. O som do mirante lá embaixo ainda batia forte, mas ali onde eu tava, encostada num canto meio afastado, tudo parecia mais calmo.
Me sentia meio flutuando. Era o efeito, era o clima... mas também era o peso daquele olhar que eu senti antes de vir pra cá.
O olhar dele.
Eu sabia que o Sombra tava me observando desde a hora que cheguei. Ele nem escondia. E, sinceramente? Não era o tipo de homem que dava pra ignorar. A presença dele pesava. Não era só o porte, nem as tatuagens, nem o jeito que andava... era o olhar. Um olhar que parecia ler a gente por dentro.
Dei mais uma tragada, soltando a fumaça devagar. O isqueiro dele ainda tava na minha mão.
Como é que uma coisa tão simples já tinha me deixado com a mão suando?
E foi aí que eu ouvi os passos. Calmos. Firmes. Meus ombros gelaram. Eu nem precisei olhar pra saber.
Ele tava vindo.
Olhei de canto, tentando manter a pose. E lá estava ele. Chegando perto, com aquele andar silencioso, base na mão e olhar preso em mim. Parou a um metro de distância, me analisando como se já soubesse que eu ia ficar nervosa.
Sombra - Tu fuma sempre ou hoje é exceção? – ele soltou, voz baixa, grave, e um leve sorriso no canto da boca.
Minha garganta secou por um segundo.
Isabelly - De vez em quando... quando a cabeça tá cheia – respondi, tentando parecer natural, mas sentindo o coração bater na boca.
Ele assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos de mim.
Sombra - Faz sentido. Tu tem cara de quem pensa demais. – disse, encostando de leve no muro, ficando mais perto, mas ainda respeitando meu espaço.
Eu dei uma risadinha curta, nervosa.
Isabelly - E você tem cara de quem observa demais. – falei, encarando ele por um segundo.
Ele riu de canto, como se gostasse da resposta.
Sombra - Talvez. Mas é que tem coisa que a gente olha e não consegue parar. – soltou, olhando direto nos meus olhos.
Senti meu estômago virar. Desviei o olhar, tragando de novo pra disfarçar. Silêncio. Só o som da fumaça queimando e o barulho do mirante ao fundo.
Sombra - Tu é amiga do Torresmo, né? – ele perguntou depois de um tempo, quebrando o silêncio.
Isabelly - Sou. Conheço ele há anos. Ele é meu parceiro. – respondi, já sentindo que ele tava sondando.
Sombra - Ele falou bem de tu. Disse que tu é do bem. – ele falou com naturalidade, mas tinha um peso naquela fala. Tipo: “tô prestando atenção".
Assenti, sem saber muito o que responder. A real é que... eu não sabia onde aquilo ia dar. Mas naquele momento, ali no canto, com o cheiro da fumaça no ar e ele parado na minha frente, eu só sabia de uma coisa:
Ele era perigoso. Mas o mais perigoso era o jeito que ele me fazia querer ficar.
O silêncio entre a gente falava mais do que qualquer papo furado. Eu continuava fumando, mas já nem sentia mais o efeito. A presença do Sombra era mais forte que qualquer brisa. Ele ali, parado, olhando direto pra mim, como se tivesse tentando decifrar quem eu era por dentro, camada por camada.
O pior é que eu deixava. Nem conseguia evitar.
Sombra - E tu... trabalha na papelaria, né? – ele perguntou, me olhando de lado, como se quisesse confirmar o que já sabia.
Isabelly - Trabalho sim. Quase todo mundo do morro passa por lá. – respondi, mantendo o olhar firme.
Sombra - Então tu escuta bastante coisa. – ele disse, mais pra ele do que pra mim.
Isabelly - Escuto. Mas não repasso. – falei rápido, deixando claro que minha boca era fechada.
Ele riu baixo, balançando a cabeça como se tivesse gostado da resposta.
Sombra - Gostei de tu.
Foi simples. Sem enfeite. Sem rodeio.
E eu não soube nem o que responder. Só senti meu rosto esquentar. Olhei pro chão, dei mais uma tragada no beck, já no fimzinho, e fui jogar fora o que sobrou.
Antes que o silêncio voltasse a se instalar entre a gente, ouvi um grito de longe.
Xx - Ô Sombra! Chega aí rapidão, menor! – era um dos amigos dele, um tal de Dentinho, se aproximando apressado com o celular na mão e cara de urgência.
Sombra virou só o rosto, sem se mexer, e resmungou:
Sombra - Fala aí.
XX - Bagulho do pecinha, tá ligado? O cara do Jacaré confirmou. Precisa resolver agora.
Ele ficou em silêncio por uns segundos, depois soltou um suspiro leve e me olhou de novo. Aquele olhar demorou. Quase como se ele não quisesse ir.
Sombra - Depois a gente troca mais ideia. – ele disse, com a voz mais baixa, puxando o isqueiro da minha mão com delicadeza.
Isabelly - Obrigada. – falei, devolvendo, sem conseguir esconder a decepçãozinha por dentro.
Ele me deu um último olhar, daqueles que grudam na memória, virou de costas e saiu com o Dentinho, voltando pro lado pesado da noite.
Fiquei ali parada por uns segundos, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. O baseado já nem fazia mais efeito, mas o Sombra sim...