cap 04 efeito

900 Words
Isabelly Narrando A fumaça subia lenta, se perdendo no céu escuro do morro. Eu tragava devagar, tentando esvaziar a mente, mas era impossível. O som do mirante lá embaixo ainda batia forte, mas ali onde eu tava, encostada num canto meio afastado, tudo parecia mais calmo. Me sentia meio flutuando. Era o efeito, era o clima... mas também era o peso daquele olhar que eu senti antes de vir pra cá. O olhar dele. Eu sabia que o Sombra tava me observando desde a hora que cheguei. Ele nem escondia. E, sinceramente? Não era o tipo de homem que dava pra ignorar. A presença dele pesava. Não era só o porte, nem as tatuagens, nem o jeito que andava... era o olhar. Um olhar que parecia ler a gente por dentro. Dei mais uma tragada, soltando a fumaça devagar. O isqueiro dele ainda tava na minha mão. Como é que uma coisa tão simples já tinha me deixado com a mão suando? E foi aí que eu ouvi os passos. Calmos. Firmes. Meus ombros gelaram. Eu nem precisei olhar pra saber. Ele tava vindo. Olhei de canto, tentando manter a pose. E lá estava ele. Chegando perto, com aquele andar silencioso, base na mão e olhar preso em mim. Parou a um metro de distância, me analisando como se já soubesse que eu ia ficar nervosa. Sombra - Tu fuma sempre ou hoje é exceção? – ele soltou, voz baixa, grave, e um leve sorriso no canto da boca. Minha garganta secou por um segundo. Isabelly - De vez em quando... quando a cabeça tá cheia – respondi, tentando parecer natural, mas sentindo o coração bater na boca. Ele assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos de mim. Sombra - Faz sentido. Tu tem cara de quem pensa demais. – disse, encostando de leve no muro, ficando mais perto, mas ainda respeitando meu espaço. Eu dei uma risadinha curta, nervosa. Isabelly - E você tem cara de quem observa demais. – falei, encarando ele por um segundo. Ele riu de canto, como se gostasse da resposta. Sombra - Talvez. Mas é que tem coisa que a gente olha e não consegue parar. – soltou, olhando direto nos meus olhos. Senti meu estômago virar. Desviei o olhar, tragando de novo pra disfarçar. Silêncio. Só o som da fumaça queimando e o barulho do mirante ao fundo. Sombra - Tu é amiga do Torresmo, né? – ele perguntou depois de um tempo, quebrando o silêncio. Isabelly - Sou. Conheço ele há anos. Ele é meu parceiro. – respondi, já sentindo que ele tava sondando. Sombra - Ele falou bem de tu. Disse que tu é do bem. – ele falou com naturalidade, mas tinha um peso naquela fala. Tipo: “tô prestando atenção". Assenti, sem saber muito o que responder. A real é que... eu não sabia onde aquilo ia dar. Mas naquele momento, ali no canto, com o cheiro da fumaça no ar e ele parado na minha frente, eu só sabia de uma coisa: Ele era perigoso. Mas o mais perigoso era o jeito que ele me fazia querer ficar. O silêncio entre a gente falava mais do que qualquer papo furado. Eu continuava fumando, mas já nem sentia mais o efeito. A presença do Sombra era mais forte que qualquer brisa. Ele ali, parado, olhando direto pra mim, como se tivesse tentando decifrar quem eu era por dentro, camada por camada. O pior é que eu deixava. Nem conseguia evitar. Sombra - E tu... trabalha na papelaria, né? – ele perguntou, me olhando de lado, como se quisesse confirmar o que já sabia. Isabelly - Trabalho sim. Quase todo mundo do morro passa por lá. – respondi, mantendo o olhar firme. Sombra - Então tu escuta bastante coisa. – ele disse, mais pra ele do que pra mim. Isabelly - Escuto. Mas não repasso. – falei rápido, deixando claro que minha boca era fechada. Ele riu baixo, balançando a cabeça como se tivesse gostado da resposta. Sombra - Gostei de tu. Foi simples. Sem enfeite. Sem rodeio. E eu não soube nem o que responder. Só senti meu rosto esquentar. Olhei pro chão, dei mais uma tragada no beck, já no fimzinho, e fui jogar fora o que sobrou. Antes que o silêncio voltasse a se instalar entre a gente, ouvi um grito de longe. Xx - Ô Sombra! Chega aí rapidão, menor! – era um dos amigos dele, um tal de Dentinho, se aproximando apressado com o celular na mão e cara de urgência. Sombra virou só o rosto, sem se mexer, e resmungou: Sombra - Fala aí. XX - Bagulho do pecinha, tá ligado? O cara do Jacaré confirmou. Precisa resolver agora. Ele ficou em silêncio por uns segundos, depois soltou um suspiro leve e me olhou de novo. Aquele olhar demorou. Quase como se ele não quisesse ir. Sombra - Depois a gente troca mais ideia. – ele disse, com a voz mais baixa, puxando o isqueiro da minha mão com delicadeza. Isabelly - Obrigada. – falei, devolvendo, sem conseguir esconder a decepçãozinha por dentro. Ele me deu um último olhar, daqueles que grudam na memória, virou de costas e saiu com o Dentinho, voltando pro lado pesado da noite. Fiquei ali parada por uns segundos, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. O baseado já nem fazia mais efeito, mas o Sombra sim...
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