cap 11 minha memória

1236 Words
Isabelly Narrando Acordei na terça com menos peso nos ombros. Ainda era cedo, mas diferente de ontem, o céu tava limpo, e um sol tímido entrava pela fresta da janela. Ainda me sentia meio anestesiada de tudo, como se estivesse assistindo minha própria vida de fora. Mas o nome dele não saía da minha cabeça. Sombra. Desci pra cozinha e Alessandra já tava lá tomando café, de shortinho e camiseta larga. Apareceu ontem à noite aqui pra dormir junto comigo, e eu não conseguia imaginar companhia melhor pra colocar os pensamentos em ordem ou pra bagunçar eles de vez. Alessandra - Tá pensativa, hein? – ela disse me olhando por cima da xícara. Isabelly - Tô normal. – falei tentando disfarçar. Alessandra - Normal é quando tu só olha o nada e suspira no meio do pão com manteiga? – ela riu debochada da sua própria fala maluca. Isabelly - Ah, Alessandra... – me sentei ao lado dela. – Tu acha que ele é problema? Ela nem precisou perguntar de quem eu tava falando. Só me olhou com aquele olhar de "precisa mesmo me perguntar isso?" e respondeu: Alessandra - Problema? Óbvio. Mas problema bom. Daqueles que te faz dormir sorrindo e acordar pensando besteira. Fiquei em silêncio, encarando meu café. Alessandra - Mas o bom é que ele também não é qualquer um, amiga. Eu vi o jeito que ele te olha. Aquilo ali não é só fogo, não. Engoli seco. Isabelly - Eu só tenho medo de me perder de mim mesma. – confessei baixo. Alessandra - Aí é que tá. Tu já se perdeu... – ela sorriu com carinho. – Mas ainda dá tempo de se encontrar. Se escolher se vale a pena. A manhã passou devagar. Fui trabalhar na papelaria, cumpri meu horário, mas minha cabeça tava em outro lugar. Quando cheguei em casa no fim da tarde, tinha uma mensagem no meu celular. Mensagem on "Vai tá em casa hoje?" O coração pulou de novo. "Tô. Porque?" "Vou subir mais tarde no mirante com os caras. Aparece lá" Mensagem off Fiquei encarando aquela mensagem por alguns minutos. E foi como se o peito abrisse. Me troquei sem pensar muito: calça jeans, um body e deixei o meu cabelo solto e fui de cara limpa. Na hora de sair, Alessandra tava deitada no sofá, vendo TV. Alessandra - Aonde vai toda arrumadinha? – ela perguntou com o olhar malicioso. Isabelly - Mirante. Sombra chamou. – soltei. Ela sentou no mesmo instante. Alessandra - Tá falando sério mesmo? Agora? Sozinha? Isabelly - Uhum. Preciso ver no que isso vai dar. Alessandra - Então vai com tudo. Mas qualquer coisa, me liga. – Concordei e saí de casa. Desci o morro com o coração acelerado. Cheguei no mirante, tava mais vazio do que no fim de semana. Os caras jogavam conversa fora, umas caixas de som tocando um trap de fundo. E lá estava ele. Encostado no capô de um carro preto, cigarro na mão, sorriso de canto. Me viu de longe e deu um aceno sutil com a cabeça. Fui chegando devagar, como quem tenta fingir que não tá nervosa por dentro. Sombra - E aí, apareceu. – ele disse baixo, me olhando de cima a baixo. Isabelly - Você chamou. – respondi firme. Sombra - Chamar é fácil. Tu veio porque tava com saudades. – ele sorriu e jogou o cigarro fora. Ficamos nos encarando por uns segundos. Ele abriu a porta do carro e bateu com a mão no banco do carona. Sombra - Vamos dar um rolê? Só eu e tu. Eu podia ter dito não. Podia ter pensado melhor. Mas naquele momento, tudo que eu queria era descobrir até onde aquele olhar dele podia me levar. Isabelly - Bora. – falei entrando no carro. O carro arrancou devagar, descendo a ladeira como se tivesse seu próprio tempo. O som tava desligado, e por alguns segundos só dava pra ouvir o barulho do motor e o som abafado da rua. Sombra mantinha a mão esquerda firme no volante, e a outra apoiada na perna dele, relaxada. Mas o olhar? Sempre atento. A rua, ao retrovisor... e de vez em quando, em mim. Sombra - Tá calada por quê? – ele perguntou, sem desviar os olhos da estrada. Isabelly - Observando. – respondi sincera. Sombra - O quê? Eu? Isabelly - É. – dei de ombros. – Queria entender como funciona sua cabeça. Ele riu curto, com aquele sorrisinho que fala mais do que a boca. Sombra - Se tu conseguir entender, me explica. Nem eu sei às vezes. Não era o tipo de frase que se joga pra qualquer um. E isso me fez olhar ele diferente. Não só com interesse... mas com uma certa curiosidade que tava começando a me dominar. Sombra - E tu? – ele rebateu. – Tem cara de quem não fala nada, mas sente tudo. Olhei pela janela, sorrindo de canto. Era exatamente isso. Como ele sabia? Isabelly - Às vezes é melhor guardar. As palavras complicam o que o olhar já disse. Sombra - Tu olha assim pra todo mundo? – ele perguntou direto. Virei o rosto devagar pra encarar ele. Isabelly - Só quando eu quero que a pessoa entenda sem eu precisar repetir. O clima ficou denso. Silencioso, mas não desconfortável. Era como se os dois estivessem tateando no escuro, querendo ver quem dava o primeiro passo. Ele virou numa rua mais deserta e parou o carro no final de um beco com vista pro asfalto lá embaixo. Era uma parte alta, sem muito movimento. O som da cidade vinha abafado, como se a gente tivesse num mundo à parte. Desligou o carro, se recostou no banco e me olhou de lado. Sombra - Tu parece tranquila, mas teu olho grita. – ele falou baixo. Respirei fundo. Isabelly - E o que ele tá gritando agora? Sombra - Que tu tá tentando segurar algo. – ele chegou mais perto. – Mas eu também tô. Eu podia ter virado o rosto. Podia ter dito alguma coisa pra quebrar aquele clima. Mas eu só fiquei ali, encarando ele, como se o silêncio fosse a única resposta possível. Sombra - Tu já teve namorado? – ele perguntou de repente. Isabelly - Não. Nunca tive. – respondi, direta. Sombra - Por escolha ou porque ninguém valeu a pena? Isabelly - Um pouco dos dois. – sorri. – E tu? Ele desviou o olhar, respirou fundo, apoiou o braço na janela. Sombra - Eu já tive gente do meu lado mas nada sério. Nenhuma me despertou tanta curiosidade assim. Meu coração disparou. E pela primeira vez, em muito tempo, eu me permiti não fugir. Mas antes que qualquer coisa acontecesse, o rádio dele chiou e uma voz saiu: "Sombra, chega aí rapidão. A parada que tu pediu chegou" Ele suspirou, fechou os olhos por um segundo e pegou o rádio. Sombra - Tô descendo. Me espera. Virou pra mim, mais sério agora. Sombra - Preciso resolver um negócio. Me dá cinco minutinhos? Fica aqui. Eu volto já. – Assenti. Ele saiu do carro e desapareceu pela esquina. Fiquei ali, sozinha no carro, com a janela meio aberta e o cheiro dele ainda preso no ar. O coração batendo rápido, como se algo estivesse prestes a mudar. E talvez estivesse mesmo. Porque naquele instante, eu soube: aquele homem não ia ser só mais um nome na minha memória.
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