Isabelly Narrando
Sombra ligou o motor devagar, sem pressa. O som tava baixo, tocando um pagode antigo que dava vontade de cantar baixinho. Eu ajeitei o cinto e ele olhou pra mim de canto.
Sombra - Tu tá bem mesmo? Parece que ainda tá com a cabeça lá em cima.
Isabelly - Tô... só tentando entender o que aconteceu. – falei rindo. – Nem sei como cheguei nesse ponto.
Ele deu uma risada leve, com aquele jeitão de quem sabe o que faz.
Sombra - Você é novinha ainda mas é bem desenrolada.
Isabelly - Eu sei... só que tudo tá acontecendo muito rápido.
Sombra - Às vezes o que é bom vem rápido mesmo. O problema é quando a gente tenta segurar demais. – ele me lançou um olhar direto, firme.
Fiquei quieta por uns segundos, olhando pela janela. A moto passou por nós e ele abaixou o volume do som.
Sombra - Tu é diferente das meninas que costuma andar por aqui.
Isabelly - Diferente como?
Sombra - Tem um jeito quieta, reservada... mas ao mesmo tempo eu olho pra tu e vejo que tem coisa demais aí dentro. Curiosidade, vontade, dúvida. Parece que tu vive se segurando.
Engoli seco.
Isabelly - Talvez eu viva mesmo. Porque eu sei o tipo de mundo que cês vivem. Não é só festa, bebida e som alto. É outra parada...
Sombra - E mesmo assim tu veio.
Isabelly - Vim... mas com o pé atrás.
Sombra - E agora, ele tá mais pra frente ou ainda atrás? – perguntou com um sorriso meio torto, encarando a rua à frente mas com a atenção toda em mim.
Isabelly - Tá no meio... andando devagar.
Ele deu uma risadinha, como se tivesse gostado da resposta.
Sombra - Tá certo. Devagar também é caminho.
O silêncio ficou confortável. Ele dirigia tranquilo, como se já soubesse onde eu morava, mas sem pressa de chegar. Eu olhei pro rosto dele de lado, analisando os traços: a barba por fazer, o maxilar marcado, a tatuagem quase escondida na lateral do pescoço.
Isabelly - Tu já teve alguém de verdade?
Ele me olhou, como se a pergunta tivesse vindo do nada.
Sombra - Já tentei. Mas o 'de verdade' exige coisas que nem todo mundo tá pronto pra entregar. Tu pergunta isso por quê?
Isabelly - Curiosidade. Eu olho pra tu e tento entender se cê é só aquele cara perigoso que todo mundo respeita... ou se tem um Sombra que ninguém conhece.
Ele sorriu. Um sorriso de canto, quase orgulhoso.
Sombra - Tem. Mas ele aparece pouco. Só quando alguém de verdade chega também.
Meu coração deu um pulo por dentro. O carro já virava a última curva antes da minha rua.
Sombra - Chegamos. – falou baixinho.
Isabelly - Obrigada pela carona. – falei, sem ainda abrir a porta.
Sombra - Se eu disser que quero te ver de novo, tu vai correr ou vai deixar?
Suspirei, com um meio sorriso.
Isabelly - Depende de como você chega.
Ele se inclinou um pouco, e me deu um beijo leve no canto da boca, como se estivesse só testando o terreno. Um beijo rápido, mas cheio de intenção.
Meu corpo gelou, e ao mesmo tempo esquentou inteiro.
Sombra - Boa noite, Isabelly.
Desci do carro devagar, sentindo as pernas moles de novo. Ele esperou eu entrar no portão e só depois arrancou com o carro, devagar, sem barulho.
Eu encostei na porta por dentro e fechei os olhos.
E... o Sombra tava mesmo bagunçando tudo na minha mente.
A porta rangeu levinho quando abri e ainda bem que minha mãe e o meu pai já dormiam e a Alessandra estava estirada no meu quarto, toda torta na cama, com o ventilador apontado pra cara e uma novela antiga passando na TV baixinha. Ela deu uma levantada rápida assim que me viu entrar, os olhos semicerrados e a voz arrastada de sono.
Alessandra - Ué, cê demorou, hein? Aconteceu o quê? – perguntou, se ajeitando na cama como quem já sabia que vinha história.
Tentei dar uma disfarçada, mas o sorriso veio no rosto antes de qualquer desculpa.
Isabelly - Nada demais... o Sombra só me deixou aqui.
Alessandra - Aham, "só me deixou". Tu tá com a cara de quem quase perdeu o juízo e foi por pouco. – ela riu, jogando a almofada em mim. – Se não rolou hoje, vai rolar, e cê sabe.
Fiquei parada no meio do quarto por uns segundos, lembrando da mão dele na minha cintura, da respiração dele no meu pescoço, do quanto meu corpo respondeu ao dele como se já se conhecessem. Mordi o lábio, tentando conter o sorriso.
Isabelly - Amiga... eu juro que por pouco. Muito pouco.
Alessandra - E por que tu não foi até o fim? Medo?
Isabelly - Não é medo. É só que... eu não sei. O jeito que ele me olha... parece que ele não tá só querendo pegar, sabe? É diferente.
Alessandra - Ih... cê já tá ficando molinha por ele.
Isabelly - Cala a boca, Alessandra. – falei, rindo e indo direto pro banheiro.
Tomei um banho rápido, tentando esfriar o corpo, mas a mente tava pegando fogo. Quando voltei pro quarto, ainda enrolada na toalha, meu celular vibrou em cima da cômoda.
Era ele, o Sombra.
Mensagem on
Sombra: Chegou bem?
Eu: Cheguei sim. Obrigada pela carona. e por tudo
Uns segundos depois ele respondeu
Sombra: Por tudo? Isso inclui o beijo ou ainda tá pensando?
Eu sorri sozinha, largada na cama, com a Alessandra do meu lado de olho fechado mas com a orelha ligada.
Eu: Inclui. E já pensei demais
Mensagem off
Fechei os olhos, o celular ainda na mão, o coração dando voltas dentro do peito. Era aquilo. Eu não tava pronta, mas já tava envolvida. E se fosse pra me perder, que fosse naquele olhar dele, naquela voz rouca, naquele jeito que me bagunçava por dentro sem nem precisar fazer muito.
E o pior ou melhor é que eu tava gostando dessa bagunça.