Dante
O elevador sobe devagar demais.
Ou talvez seja minha própria impaciência queimando cada segundo.
O metal refletido na porta mostra meu rosto tenso, mandíbula cerrada, a camisa amarrotada por ter passado a mão nela dezenas de vezes desde que saí do galpão.
Eu deveria estar satisfeito. Resolvi um problema. Disse o que precisava ser dito. Fiz o que precisava ser feito.
Mas nada disso importa.
Porque tudo o que sinto é a falta dela.
A falta absurda, irritante, sufocante… de Lara.
A porta se abre, finalmente, revelando o corredor silencioso do meu andar privativo.
Meu peito aperta de um jeito que nem meus inimigos, nem tiros, nem negócios sujos jamais conseguiram provocar.
Eu a deixei sozinha.
E apesar de todas as minhas justificativas, de toda a minha frieza treinada, sei que fiz isso porque estava apavorado demais para admitir. Porque sentir por ela… é perigoso demais.
Eu giro a chave. O apartamento está escuro, exceto pelo abajur fraco na sala. Passo a mão no interruptor, e paro.
Ela está ali.
Sentada no sofá. Pernas cruzadas. Cabelo caindo em ondas soltas sobre o ombro. Olhos fixos em mim.
Não parece brava. Não parece triste. Não parece frágil.
Ela parece… decidida.
E isso me desarma completamente.
—Lara… — minha voz sai mais baixa do que eu gostaria.
Ela respira fundo, apoiando as mãos nos joelhos.
—Podemos conversar?
Podemos conversar.
Palavras simples. Mas que me atingem como um soco.
—Claro — respondo, tentando não demonstrar o caos interno.
Caminho até ela. Não me sento ao lado — seria fácil demais.
Nem de frente — seria confronto demais.
Me coloco em pé, a uma distância segura que me impede de tocá-la, mas não impede o cheiro dela de atravessar meu peito como uma lâmina quente.
Lara ergue os olhos para mim.
—Por que você fugiu?
A pergunta é simples. Mas a resposta… não.
Eu passo a mão pelo cabelo, frustrado comigo mesmo.
—Não fugi.
Ela franze o cenho.
—Dante… você saiu sem se despedir. Sem olhar pra mim. Sem sequer dizer pra onde ia. Isso é fugir.
Eu suspiro, derrotado. Ela está certa.
O problema é que admitir isso é perigoso demais.
—Eu precisava resolver um assunto importante — digo, sabendo que não basta.
—E não podia me dizer? — a voz dela treme, mas não de fraqueza. De indignação.
— Não podia confiar em mim?
Esse é o ponto.
Confiar nela.
Confiar nela significa deixá-la entrar. Significa deixá-la ver o lado mais podre, mais obscuro, mais c***l de mim. Significa arriscar tudo.
E eu nunca arrisquei nada por ninguém.
Mas por ela…
Por ela, eu já estou arriscando sem perceber.
—Lara, eu não queria te colocar no meio de algo que pode te machucar.
Ela se levanta. Devagar. Sem tirar os olhos dos meus.
—Você já me colocou — ela diz. — No segundo em que me envolveu nisso tudo, no segundo em que começou a me olhar como se eu fosse sua, como se—
Ela engole as palavras, mas eu as sinto queimando.
—Como se fosse minha — termino por ela, a voz rouca, baixa, perigosa.
Ela desvia os olhos por um segundo. Só um. Mas isso é suficiente para minha respiração acelerar.
—Dante… — ela murmura.
— Eu não sou algo que você pode simplesmente proteger quando quer e afastar quando não aguenta lidar comigo.
O impacto dessas palavras atravessa minha pele.
Porque ela está descrevendo exatamente o que estou fazendo.
Exatamente o que estou tentando evitar admitir.
Dou um passo à frente.
Ela recua um.
Merda.
—Lara — digo, mais firme — eu nunca tentei te afastar porque não queria você perto.
Eu tentei porque… porque você mexe com tudo que eu controlo a vida inteira.
Porque quando você olha pra mim assim, eu não consigo ser o homem que eu preciso ser pra manter você segura.
Ela respira fundo.
—E qual homem você acha que eu quero?
Eu congelo.
Ela ergue o queixo.
—Aquele que sente tanto que tem medo.
—Aquele que protege, mas que sofre quando não está comigo.
—Aquele que me toca como se fosse perder a sanidade.
—Aquele que tenta parecer frio, mas que treme quando eu me aproximo.
Minhas mãos fecham em punho. Não pela raiva — pela intensidade.
Ela sabe.
Ela vê.
E ainda assim… fica.
—Lara… — minha voz quase falha.
Ela dá um passo na minha direção. Dessa vez, sou eu quem fica imóvel.
—Dante, eu não quero o seu distanciamento. Eu quero você, Com suas sombras. Com seus medos, Com sua raiva, Com tudo.
Eu inspiro fundo. Como se estivesse à beira de um precipício.
E estou.
—Isso não é seguro — digo. Um aviso. Uma última chance dela fugir.
— Eu não sou seguro.
Ela ergue a mão, e toca meu peito exatamente onde o coração bate mais forte e mais rápido do que deveria.
—Eu nunca quis seguro — ela murmura. — Eu quis você.
O meu autocontrole estilhaça.
Puxo-a pela cintura, sem pensar, sem medir, sem frear.
Meu corpo cola ao dela com uma fome que venho reprimindo há dias.
Ela ofega, mas não recua — pelo contrário, agarra a camisa na altura do meu peito, puxando-me ainda mais.
—Lara… — rosnado, confissão, súplica.
—Fica — ela pede, a voz baixa, o olhar incendiado.
— Fica comigo. Para de fugir.
É o fim, e o começo.
Eu a beijo.
É urgente. É desesperado. É raivoso. É rendido.
É tudo o que tentei esconder explodindo ao mesmo tempo.
Minhas mãos sobem, seguram seu rosto, descem pela nuca, pela coluna, puxam-na contra mim como se eu pudesse fundi-la ao meu corpo.
Ela geme contra minha boca e meu controle desaparece.
A boca dela é minha ruína.
Quando nos afastamos, os dois respirando forte, encostando a testa um no outro, eu finalmente digo o que venho evitando.
—Eu não consigo ficar longe de você.
—Eu não quero.
Ela sorri de um jeito que me destrói.
—Então não fique.
Eu passo a mão pela cintura dela, puxando-a para mim mais uma vez.
—Mas você precisa entender, Lara… — minha voz fica grave, sombria, verdadeira.
— Quando eu fico… eu fico de verdade. E eu não divido.
O olhar dela mergulha no meu.
Profundo, Seguro, Aceitando o monstro que eu tento esconder.
—Eu também não — ela sussurra.
E então, pela primeira vez em muito tempo, eu não sinto medo.
Sinto posse, Sinto desejo, Sinto algo que nunca admiti sentir por ninguém.
E sei que estou perdido.
Totalmente dela.