Dante
A decisão, o plano, e a sombra que começa a se revelar.
A decisão de ir até a casa da família de Lara pesa no ar como um prenúncio.
E embora eu mantenha o rosto frio, impassível, minha mente está rodando a mil por hora.
Eu sei reconhecer uma armadilha quando vejo uma.
E essa
Essa é a mais pessoal que já enfrentamos.
E a mais perigosa.
Lara está na sala, conversando com Marcelo e tentando controlar a respiração.
Posso ver os dedos dela tremendo levemente um sinal mínimo que ninguém além de mim perceberia.
Eu me aproximo devagar.
— Preciso te falar — digo, baixinho.
Ela me olha como se procurasse algo, segurança, resposta, coragem.
E isso me fere de formas que eu nunca admitiria.
Levo-a até o quarto, fecho a porta e ativo o bloqueador de frequência.
Não dá para confiar em nada agora.
— Dante — ela começa, mas ergo a mão.
— Primeiro me ouça.
Ela fica em silêncio.
Os olhos castanhos quentes, ansiosos, teimosos.
— O lugar para onde vamos — digo, mantendo a voz controlada , não é só uma lembrança.
Não é só parte da investigação.
Dou um passo para mais perto.
— É onde o inimigo quer você vulnerável. Onde quer me provocar. Onde quer ver até onde você aguenta.
Ela respira fundo.
— Eu aguento.
— Eu sei que aguenta — digo, aproximando meu rosto do dela.
— Mas quero que entenda a diferença entre força e coragem estúpida.
O olhar dela endurece.
— Você acha que estou sendo estúpida?
— Não — respondo, tocando seu queixo.
— Eu acho que você está sendo corajosa demais com alguém que não tem limites.
Ela aproxima o rosto do meu, e por um segundo, quase esqueço o perigo.
— Dante, eu preciso ir, Preciso ver, Preciso saber.
Eu seguro sua cintura, trazendo-a para perto, porque ela precisa sentir o que há por trás das minhas palavras.
— E eu vou com você.
Meu tom sai mais baixo, mais rouco.
— Mas se algo acontecer com você lá eu nunca vou me perdoar.
Ela fecha os olhos.
E quando abre, há algo queimando ali.
— Eu confio em você — sussurra.
E essa frase.
Essa frase é a arma mais poderosa que já colocaram na minha mão.
****
Voltamos para a sala.
Marcelo nos observa com nervosismo, como se estivesse prestes a confessar uma traição.
— Fala logo — digo, cruzando os braços.
— Antes de vocês irem, tem algo que preciso contar.
Marcelo limpa a garganta.
— Esse “Sombra” que mandou a carta eu acho que o conheço.
Lara arregala os olhos.
Eu fico imóvel.
Mas dentro, tudo trava.
— Como assim conhece? — pergunto, cada palavra carregada de gelo.
— Ele era parte da nossa equipe — Marcelo responde, a voz falhando.
— Um infiltrado. Um analista de risco que trabalhava escondido entre os diretores das redes de jogos ilegais.
Engole seco.
— E ele desapareceu dois anos atrás, logo depois de um acidente envolvendo o pai da Lara.
O ar parece sumir da sala.
Lara coloca a mão na boca.
Eu sinto a raiva subir como fumaça.
— E você só fala isso agora? — rosno.
— Porque só agora consegui confirmar que as assinaturas batem! — Marcelo rebate, tremendo.
— Ele tinha uma fascinação perigosa pela família Cardoso.
E um interesse pessoal na Lara.
Meu corpo inteiro fica rígido.
Interesse pessoal.
Na Lara.
— Ele observava ela — Marcelo continua, hesitando.
— Colecionava informações, Fotos. Movimentos, Há anos.
Sinto meu sangue gelar primeiro.
Depois ferver.
Eu dou um passo na direção dele.
— Dante — Lara sussurra, segurando meu braço, me trazendo de volta.
Respiro fundo.
Só por ela.
— Onde ele está? — pergunto.
— Ninguém sabe. Ele sumiu. Deixou só rastros falsos. Era obcecado em não ser encontrado.
Mas uma coisa é certa, Marcelo olha direto para mim
— Ele quer que vocês dois vão até aquela casa.
Lara respira fundo.
— Então é lá que vamos encontrá-lo — diz ela, com uma firmeza que me faz admirá-la ainda mais.
Eu balanço a cabeça.
— Não necessariamente. Ele pode observar de longe.
Pode usar a casa para ativar memórias nela. Pode tentar manipular.
— Eu sei — diz ela. — Mas estou pronta.
Eu seguro o rosto dela com as duas mãos.
— Eu vou estar com você em cada passo, Lara.
Minha voz é uma promessa.
Uma ameaça.
— Se esse homem tocar em você, se ele ousar tentar se aproximar, eu vou acabar com ele.
Ela não recua.
Não teme.
Pelo contrário.
— Dante — seus dedos tocam os meus na mandíbula — ele não vai me tirar de você.
As palavras me atingem como uma bala quente.
****
Passamos as próximas horas planejando.
Entradas.
Rotas de fuga.
Possíveis armadilhas.
Códigos de emergência.
E o mais importante, manter Lara ao meu alcance físico o tempo inteiro.
— Você parece um general preparando um ataque — ela diz, cruzando os braços.
— Porque é isso que é — respondo.
Ela sorri de um jeito suave, perigoso para mim.
— Eu gosto quando você fica assim.
Meu corpo tenso, alerta, pronto para mat…
— Protetor.
Eu desvio o olhar.
— Não sou protetor. Sou estratégico.
— E extremamente possessivo — ela acrescenta, com um sorriso que me desmonta por dentro.
— Você prefere assim? — pergunto, a voz baixa.
Ela se aproxima devagar, até ficar diante de mim, o rosto erguido.
— Eu prefiro você — ela diz.
E isso me destrói por dentro, porque é a única coisa que eu não posso perder.
*****
Quando estamos prontos para ir, o céu já começa a escurecer.
Lara coloca a jaqueta, concentração absoluta no rosto.
Eu coloco minha arma no coldre e prendo a faca na bota.
Vejo ela observar o movimento e engolir em seco.
Marcelo se aproxima:
— Vocês têm certeza?
— Absoluta — diz Lara antes de mim.
Eu a encaro.
E percebo uma mudança.
Ela não é mais a jogadora brilhante que entrou no torneio.
Nem a mulher que fugia das próprias sombras.
Ela está se tornando outra coisa:
uma força.
E fico orgulhoso.
E apavorado.
— Lara — digo, antes de abrirmos a porta.
— A partir daqui, nada de heroísmo. Se eu mandar recuar, você recua. Se eu mandar correr, você corre.
— E se eu mandar você confiar em mim? — ela rebate.
Eu chego perto, minha boca quase tocando a dela.
— Eu confio.
Respiro fundo.
— Mas eu não arrisco você. Nunca.
E, antes que eu pense, beijo sua testa.
Um gesto que não é meu.
Um gesto que significa mais do que deveria.
Ela fecha os olhos.
Respira como se aquele toque fosse um escudo.
— Vamos, Dante — ela diz, abrindo a porta.
E juntos, entramos na noite.
A caminho da casa.
A caminho da sombra.
A caminho da verdade.
E do inimigo que finalmente está mostrando o rosto.