CAPÍTULO 44

1164 Words
Dante A decisão, o plano, e a sombra que começa a se revelar. A decisão de ir até a casa da família de Lara pesa no ar como um prenúncio. E embora eu mantenha o rosto frio, impassível, minha mente está rodando a mil por hora. Eu sei reconhecer uma armadilha quando vejo uma. E essa Essa é a mais pessoal que já enfrentamos. E a mais perigosa. Lara está na sala, conversando com Marcelo e tentando controlar a respiração. Posso ver os dedos dela tremendo levemente um sinal mínimo que ninguém além de mim perceberia. Eu me aproximo devagar. — Preciso te falar — digo, baixinho. Ela me olha como se procurasse algo, segurança, resposta, coragem. E isso me fere de formas que eu nunca admitiria. Levo-a até o quarto, fecho a porta e ativo o bloqueador de frequência. Não dá para confiar em nada agora. — Dante — ela começa, mas ergo a mão. — Primeiro me ouça. Ela fica em silêncio. Os olhos castanhos quentes, ansiosos, teimosos. — O lugar para onde vamos — digo, mantendo a voz controlada , não é só uma lembrança. Não é só parte da investigação. Dou um passo para mais perto. — É onde o inimigo quer você vulnerável. Onde quer me provocar. Onde quer ver até onde você aguenta. Ela respira fundo. — Eu aguento. — Eu sei que aguenta — digo, aproximando meu rosto do dela. — Mas quero que entenda a diferença entre força e coragem estúpida. O olhar dela endurece. — Você acha que estou sendo estúpida? — Não — respondo, tocando seu queixo. — Eu acho que você está sendo corajosa demais com alguém que não tem limites. Ela aproxima o rosto do meu, e por um segundo, quase esqueço o perigo. — Dante, eu preciso ir, Preciso ver, Preciso saber. Eu seguro sua cintura, trazendo-a para perto, porque ela precisa sentir o que há por trás das minhas palavras. — E eu vou com você. Meu tom sai mais baixo, mais rouco. — Mas se algo acontecer com você lá eu nunca vou me perdoar. Ela fecha os olhos. E quando abre, há algo queimando ali. — Eu confio em você — sussurra. E essa frase. Essa frase é a arma mais poderosa que já colocaram na minha mão. **** Voltamos para a sala. Marcelo nos observa com nervosismo, como se estivesse prestes a confessar uma traição. — Fala logo — digo, cruzando os braços. — Antes de vocês irem, tem algo que preciso contar. Marcelo limpa a garganta. — Esse “Sombra” que mandou a carta eu acho que o conheço. Lara arregala os olhos. Eu fico imóvel. Mas dentro, tudo trava. — Como assim conhece? — pergunto, cada palavra carregada de gelo. — Ele era parte da nossa equipe — Marcelo responde, a voz falhando. — Um infiltrado. Um analista de risco que trabalhava escondido entre os diretores das redes de jogos ilegais. Engole seco. — E ele desapareceu dois anos atrás, logo depois de um acidente envolvendo o pai da Lara. O ar parece sumir da sala. Lara coloca a mão na boca. Eu sinto a raiva subir como fumaça. — E você só fala isso agora? — rosno. — Porque só agora consegui confirmar que as assinaturas batem! — Marcelo rebate, tremendo. — Ele tinha uma fascinação perigosa pela família Cardoso. E um interesse pessoal na Lara. Meu corpo inteiro fica rígido. Interesse pessoal. Na Lara. — Ele observava ela — Marcelo continua, hesitando. — Colecionava informações, Fotos. Movimentos, Há anos. Sinto meu sangue gelar primeiro. Depois ferver. Eu dou um passo na direção dele. — Dante — Lara sussurra, segurando meu braço, me trazendo de volta. Respiro fundo. Só por ela. — Onde ele está? — pergunto. — Ninguém sabe. Ele sumiu. Deixou só rastros falsos. Era obcecado em não ser encontrado. Mas uma coisa é certa, Marcelo olha direto para mim — Ele quer que vocês dois vão até aquela casa. Lara respira fundo. — Então é lá que vamos encontrá-lo — diz ela, com uma firmeza que me faz admirá-la ainda mais. Eu balanço a cabeça. — Não necessariamente. Ele pode observar de longe. Pode usar a casa para ativar memórias nela. Pode tentar manipular. — Eu sei — diz ela. — Mas estou pronta. Eu seguro o rosto dela com as duas mãos. — Eu vou estar com você em cada passo, Lara. Minha voz é uma promessa. Uma ameaça. — Se esse homem tocar em você, se ele ousar tentar se aproximar, eu vou acabar com ele. Ela não recua. Não teme. Pelo contrário. — Dante — seus dedos tocam os meus na mandíbula — ele não vai me tirar de você. As palavras me atingem como uma bala quente. **** Passamos as próximas horas planejando. Entradas. Rotas de fuga. Possíveis armadilhas. Códigos de emergência. E o mais importante, manter Lara ao meu alcance físico o tempo inteiro. — Você parece um general preparando um ataque — ela diz, cruzando os braços. — Porque é isso que é — respondo. Ela sorri de um jeito suave, perigoso para mim. — Eu gosto quando você fica assim. Meu corpo tenso, alerta, pronto para mat… — Protetor. Eu desvio o olhar. — Não sou protetor. Sou estratégico. — E extremamente possessivo — ela acrescenta, com um sorriso que me desmonta por dentro. — Você prefere assim? — pergunto, a voz baixa. Ela se aproxima devagar, até ficar diante de mim, o rosto erguido. — Eu prefiro você — ela diz. E isso me destrói por dentro, porque é a única coisa que eu não posso perder. ***** Quando estamos prontos para ir, o céu já começa a escurecer. Lara coloca a jaqueta, concentração absoluta no rosto. Eu coloco minha arma no coldre e prendo a faca na bota. Vejo ela observar o movimento e engolir em seco. Marcelo se aproxima: — Vocês têm certeza? — Absoluta — diz Lara antes de mim. Eu a encaro. E percebo uma mudança. Ela não é mais a jogadora brilhante que entrou no torneio. Nem a mulher que fugia das próprias sombras. Ela está se tornando outra coisa: uma força. E fico orgulhoso. E apavorado. — Lara — digo, antes de abrirmos a porta. — A partir daqui, nada de heroísmo. Se eu mandar recuar, você recua. Se eu mandar correr, você corre. — E se eu mandar você confiar em mim? — ela rebate. Eu chego perto, minha boca quase tocando a dela. — Eu confio. Respiro fundo. — Mas eu não arrisco você. Nunca. E, antes que eu pense, beijo sua testa. Um gesto que não é meu. Um gesto que significa mais do que deveria. Ela fecha os olhos. Respira como se aquele toque fosse um escudo. — Vamos, Dante — ela diz, abrindo a porta. E juntos, entramos na noite. A caminho da casa. A caminho da sombra. A caminho da verdade. E do inimigo que finalmente está mostrando o rosto.
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