Lara
O silêncio do apartamento de Dante nunca pareceu tão pesado.
A madrugada se arrasta lá fora, mas aqui dentro tudo está suspenso, como se o tempo tivesse medo de avançar.
Ando de um lado para o outro, abraçando meus próprios braços, tentando não deixar minha mente cair naquele abismo que ameaça me engolir desde que a verdade começou a se revelar em pedaços.
Dante ainda não voltou.
E isso me sufoca.
Depois da revelação da gravação comprometida, aquela em que o nome do meu pai aparece ligado a decisões que destruíram vidas e favoreceram os mesmos homens que agora querem destruir Dante, nada mais parece firme, confiável ou certo.
Eu mesma me sinto dividida ao meio.
A Lara que conhecia a bondade exemplar de seu pai.
E a Lara que agora precisa lidar com a sombra dele, que talvez nunca tenha sido tão clara quanto pensei.
Empurro a janela, respirando o ar frio, tentando acalmar o tremor no peito.
Mas tudo piora, porque o frio me lembra Dante, suas mãos quentes, o jeito dele envolver minha cintura como se pudesse me reconstruir.
E agora, está lidando com tudo sozinho.
Talvez por minha causa.
Talvez eu seja parte da dor dele.
Uma batida forte na porta faz meu coração saltar.
Por um segundo penso que é a polícia, ou algum inimigo, mas quando abro.
Dante entra.
Cansado, tenso, com o semblante marcado por horas de guerra.
A energia dele preenche o apartamento como sempre faz, mas desta vez há algo quebrado, algo que tento entender sem saber se tenho força para isso.
— Você demorou — digo, minha voz mais fraca do que queria.
— Era importante — ele responde simplesmente, tirando o casaco.
O tom é frio, objetivo.
O Dante que fala apenas quando está um passo antes de explodir.
Ele passa por mim, mas eu o seguro pelo braço.
— Dante fala comigo.
Ele fecha os olhos por um momento, inspirando devagar, como se contasse até dez antes de destruir alguma coisa.
— Lara — ele diz enfim, virando-se para mim hoje eu ouvi coisas sobre sua família que você não tinha ideia.
Eu vi documentos, Provas, Isso muda tudo.
Meu estômago afunda.
— Eu sei que muda — respondo.
— Mas não muda o que sinto por você.
Dante ri sem humor.
— Não é sobre nós dois. É maior. Eles querem me derrubar usando tudo e todos ao meu redor.
Qualquer ligação, qualquer nome, qualquer passado. Inclusive o seu.
Eu me aproximo.
— Então deixa que usem. Estou aqui. Não vou fugir.
Ele segura meu rosto entre as mãos, apertando mais forte do que o normal, como se tentasse se ancorar.
— É isso que me mata — ele murmura.
— Você não tem noção do quanto isso te coloca em perigo.
Meu corpo estremece, mas não pelo medo.
Pelo impacto da preocupação dele.
Pelo amor que tenta esconder atrás de raiva e controle.
— Dante — sussurro — você não precisa me afastar para me proteger.
— Eu preciso. — Ele respira fundo.
— Descobrimos hoje uma nova ligação entre o grupo que comandava seu pai e a organização que está me caçando.
Uma ligação direta.
Eles podem usar você como ponte.
Meu coração congela.
— Uma ponte? Como assim?
Ele me solta e começa a andar, nervoso.
— Seu pai tinha registros de contato com um dos financiadores da operação.
E agora você entrou na mira deles.
Não porque fez algo ele olha para mim mas porque é importante pra mim.
E eles sabem.
Tudo dentro de mim se agita.
— Dante isso só significa que temos que ficar ainda mais unidos. Não o contrário.
Ele para. Me encara. E finalmente deixa a máscara cair por um segundo.
— Você não entende — sua voz é baixa, desesperada eu não tenho mais nada a perder, Lara.
Mas você, você é a única coisa que me resta.
O impacto das palavras quase me derruba.
— Então me deixa ficar — suplico em um fio de voz.
Ele dá dois passos até mim, a respiração pesada.
Suas mãos voltam à minha cintura, puxando-me para perto.
Seu corpo está quente, tenso, como um animal encurralado.
— Eu quero você — ele murmura contra meu pescoço mas quero viva.
Quero segura. Quero inteira.
Sinto as mãos dele subirem pelas minhas costas, tremendo de adrenalina e frustração.
A tensão entre nós pulsa como corrente elétrica forte, perigosa, inevitável.
— Dante — minha voz falha — eu não suporto mais quando você tenta decidir sozinho o que é melhor pra mim.
Ele fecha os olhos, encostando a testa na minha.
— Eu sei, Mas ainda assim tento.
Por um momento só existe isso, sua respiração, a minha, o toque firme, quase possessivo, dizendo mais que qualquer palavra.
Até que ele fala
— Amanhã vamos atrás do contato que interceptou a gravação. Ele tem outra informação. Uma pista nova.
— E você quer que eu vá com você? — pergunto, sem acreditar.
Dante segura meu queixo, me obrigando a olhar em seus olhos escuros.
— Quero.
Porque agora você faz parte disso, Da verdade, De mim.
Meu coração dispara.
Ele me beija. Não é um beijo suave nem calmo.
É faminto, desesperado, cheio de tudo o que ele tenta esconder.
Eu correspondo na mesma intensidade, porque preciso dele como nunca.
Quando ele me puxa ainda mais contra seu corpo, sinto a verdade.
Nossa aliança não está apenas mais forte.
Ela está selada.
Pelo perigo.
Pela dor.
Pelo amor que nenhum de nós ousa admitir em voz alta.
Ainda não.
Mas ambos sabemos.
A guerra começou de verdade.
E agora vamos enfrentá-la juntos.