Lara
O amanhecer chega sem pedir permissão.
E eu ainda sinto Dante.
Sinto o gosto dele na minha boca, o calor dele preso na minha pele, o peso da promessa que fizemos buscar a verdade juntos.
Mas, acima de tudo, sinto a estranha paz que encontrei ao dormir por poucas horas encostada no peito dele.
Eu acordo antes dele.
Dante está sentado na poltrona ao lado da cama, a cabeça reclinada para trás, como se tivesse lutado contra o sono a noite inteira.
Ele sempre vigia.
Sempre guarda.
Sempre controla.
Mas, pela primeira vez, vejo um Dante vulnerável, humano, cansado, destruído por dentro de maneiras que ele nunca admite.
E isso me atinge com força.
Eu me levanto devagar, tentando não acordá-lo. Mas assim que dou dois passos, sua voz grave surge no ar.
— Vai aonde?
Meu coração dispara.
Ele abre os olhos lentamente, mas eles já estão alertas, atentos, me analisando como se o universo dependesse disso.
— Só queria beber água — digo, sentindo o rosto corar pelo jeito como ele me olha.
Como se ele ainda me sentisse.
Como se lembrasse de cada segundo do que aconteceu.
Ele se levanta em silêncio.
Seu corpo enorme parece ocupar todo o quarto, e sua presença é tão intensa que me engole.
— Eu te acompanho — diz, como se fosse inevitável.
— Dante, eu não preciso que você me acompanhe para beber água.
— Eu preciso — ele corrige.
Não há ironia, nem exagero.
Há verdade.
Cravada.
Engulo seco e vou até a porta.
Ele fica ao meu lado, não tocando, mas perto o suficiente para me lembrar do que fizemos.
O corredor está silencioso, mas há algo diferente.
Uma sensação na pele.
Como se alguém tivesse estado ali.
Como se alguém ainda estivesse.
Eu olho para Dante.
Ele já sentiu.
— O que houve? — pergunto.
— Nada — ele responde.
Mas seu “nada” é mentira.
Eu entro na cozinha pequena da casa segura e pego o copo.
Quando viro para beber, Dante está parado atrás de mim.
Muito perto.
— Você ficou acordado a noite inteira? — pergunto, baixinho.
Ele segura meu queixo e me faz olhar para ele.
— Eu não durmo enquanto você está vulnerável.
Meu coração quase erra um compasso.
Eu quero saber mais.
Quero saber o que ele descobriu, o que ele está escondendo, o que realmente viu no corredor.
Mas, antes que eu pergunte, alguém bate na porta principal.
Três batidas.
Firmes.
Ritmo estranho.
Dante me puxa para trás de si no mesmo instante, sacando a arma que estava na cintura, escondida sob a camisa preta.
— Não faz nenhum som — ele diz.
Sinto o ar preso na garganta.
Ele caminha silencioso até a porta e olha pelo visor.
Seus ombros tensionam.
— Quem é? — pergunto num sussurro.
Ele demora dois segundos para responder… tempo demais para ser normal.
— É o Marcelo — diz, finalmente. — Um dos contatos que eu tinha na época em que investigava o grupo por fora. Não confie nele.
— Se não confia, por que abrir?
— Porque ele não viria até aqui, se algo muito grande não tivesse acontecido.
Dante abre uma fresta da porta.
Marcelo entra.
Ele está pálido, suado, segurando um envelope, o mesmo tipo de envelope que encontramos nos arquivos do meu pai.
— Dante — ele diz, olhando diretamente para mim depois.
— Precisamos conversar. Agora.
Dante fica entre nós.
— Fala.
— Não aqui.
— Vai falar aqui — Dante retruca.
— Se foi até a p***a da minha casa segura, vai abrir a boca.
Marcelo engole seco.
— Vocês dois, estão sendo observados.
Minha pele arrepia.
— Observados como? — pergunto.
Marcelo olha para Dante, hesitando.
— Eu encontrei isso. Estava no sistema interno da rede que vocês hackearam ontem.
Alguém deixou um rastro proposital, para mim.
Ele entrega o envelope para Dante.
Dante abre.
Eu me aproximo.
E o mundo gira.
Dentro há.
— uma foto minha, tirada ontem na janela,
— outra de Dante me segurando pela cintura, após o ataque no armazém,
— e uma página escrita à mão.
A mesma caligrafia da carta que pensávamos ser da minha mãe.
Mas agora eu sei, é a pessoa que está nos manipulando.
Dante lê primeiro.
Os músculos dele endurecem.
Vejo a raiva subindo como uma fumaça escura.
— O que diz? — pergunto, antes que ele esconda de mim.
Ele respira fundo, como se estivesse lutando com algo interno.
E então me entrega a carta.
“Ela está onde quero.
Você também.
Continuem juntos.
É mais divertido assim.
Assinado: A Sombra que você procura.”
Meu estômago se revira.
— Esse desgraçado — murmuro, tremendo.
Dante pega a carta de volta, amassa e joga na mesa.
— Isso não é uma ameaça, É um jogo.
Ele olha direto para mim.
— E agora a pessoa sabe exatamente como mexer com você, Com a gente.
Eu sinto uma mistura de medo e culpa.
— Dante se eles estão fazendo isso por minha causa, então...
Ele me corta.
— Não. Não faça isso.
A voz dele é baixa, mas firme.
— Essa pessoa quer te isolar. Quer que você duvide de mim. Quer que você ache que é o peso disso tudo.
Ele se aproxima.
Muito.
— Mas você não é o peso.
Ele segura meu rosto com as duas mãos.
— Você é o motivo pelo qual eu não vou parar até arrancar essa sombra da toca.
Meu peito se aperta.
Marcelo pigarreia.
Nós nos afastamos, mas Dante ainda segura minha mão sem perceber.
— Tem mais — Marcelo diz.
— A carta veio com um arquivo digital.
Dante aperta a minha mão.
— Abre.
— Dante, não é só um arquivo. É uma localização.
Ele coloca o celular na mesa.
Um mapa aparece.
E meu coração quase para.
É a localização da casa onde cresci.
Onde meu pai foi visto pela última vez.
Onde minha mãe desapareceu.
— Isso é uma armadilha — Dante diz imediatamente.
— Pode ser — Marcelo responde.
— Mas é também um convite.
Eu sinto meu corpo inteiro estremecer.
Dante olha para mim.
Eu olho para ele.
E, pela primeira vez, não há só tensão ou necessidade entre nós.
Há uma decisão compartilhada.
Algo que vai mudar tudo.
— Lara — ele diz, devagar — se formos até lá, talvez encontremos o que falta.
Ele respira fundo.
— Mas talvez encontremos exatamente quem quer nos destruir.
Eu respiro fundo.
Minha voz sai firme.
— Eu quero ir.
Ele fecha os olhos, como se minha resposta fosse ao mesmo tempo a coisa que ele mais esperava, e mais temia.
— Então vamos — Dante murmura, abrindo os olhos devagar.
— Mas dessa vez, você não sai do meu lado nem por um segundo.
E o jeito como ele diz isso.
Não é só proteção.
Não é só estratégia.
É possessividade, bruta e visceral.
Toda voltada pra mim.
E, mesmo com o medo crescendo dentro de mim, uma certeza se forma.
Não estamos mais lidando com pistas.
Estamos lidando com alguém que conhece nosso jogo.
E está pronto para apertar as peças.