Lara
A madrugada se arrastava lá fora, silenciosa e pesada, mas dentro de mim havia uma tempestade impossível de acalmar.
Eu caminhava de um lado para o outro do quarto de hóspedes da mansão, sentindo o peso de cada respiração, como se o ar ali fosse diferente , mais denso, mais carregado… mais perigoso.
Talvez porque Dante estivesse apenas alguns metros adiante, no andar de baixo, e isso era suficiente para acender cada nervo do meu corpo.
Eu já deveria ter dormido.
Mas desde o momento em que ele encostou a mão nas minhas costas algumas horas antes , firme, quente, possessiva , eu não consegui mais pensar direito.
Eu devia ter resistido. Devia ter ficado longe. Devia ter lembrado de todas as razões que me trouxeram aqui, a investigação, as ameaças, o nome da minha mãe aparecendo onde nunca deveria.
Mas como pensar quando o toque dele ainda queimava minha pele?
Eu me aproximei da janela e abri a cortina só o suficiente para olhar o jardim.
Na escuridão, a propriedade parecia maior, mais imponente. Como tudo que envolvia Dante.
Ele não era só poder — era presença. Era intensidade.
Era uma força que existia mesmo quando ele estava em silêncio.
E justamente agora, naquela noite estranhamente calma, eu o sentia mais do que nunca.
Eu passei a mão pelo cabelo, frustrada comigo mesma.
— Você está perdendo o controle, Lara… — murmurei.
Mas não houve tempo para recuperar qualquer controle. A porta do quarto se abriu sem aviso.
Meu coração congelou.
Porque era ele.
Dante entrou sem pedir permissão — como sempre , usando apenas uma camiseta preta justa e calça de moletom.
Mesmo assim, tinha um ar de perigo impossível de ignorar.
— Não está conseguindo dormir. — Não era uma pergunta.
Eu engoli seco, mantendo as mãos atrás do corpo para que ele não percebesse que estavam tremendo.
— Como você sabe?
— Porque eu também não estou. — Seus olhos correram por mim, lentos. — E porque escuto seus passos daqui.
Senti o estômago afundar.
Meu corpo reagia a ele de maneiras que eu evitava admitir até para mim mesma.
Dante se aproximou alguns passos, a luz fraca do quarto acentuando a linha dura de sua mandíbula.
— Você está agitada. — Ele inclinou levemente a cabeça.
— Aconteceu alguma coisa? Sonho r**m?
Eu desviei o olhar, tentando escapar daquela leitura profunda demais.
— Só… estou pensando em tudo. No caso. No nome da minha mãe.
Na pessoa que nos segue. É muita coisa.
— E tem eu no meio de tudo isso — ele completou, sem hesitar.
Levei um choque.
Era como se ele tivesse arrancado algo que eu tentava esconder até de mim.
— Eu não falei isso — murmurei.
— Não precisa. — Ele deu mais um passo. — Eu sinto.
Meu coração pulou uma batida.
O problema com Dante é que ele parecia ver além das máscaras , inclusive as que eu nem sabia que estava usando.
— Você está… perto demais — consegui dizer em voz baixa.
— Porque você não se afasta — ele retrucou, a voz grave, rouca, perigosa.
Eu respirei fundo, tentando organizar o caos na minha cabeça.
— Talvez seja você que não esteja me dando espaço.
Dante soltou um riso curto, quase sem humor.
— Lara, se eu decidisse realmente não te dar espaço, você saberia.
— Ele colocou a mão na parede ao meu lado, me prendendo sem me tocar.
— Eu estou tentando ser paciente.
Tentando respeitar seu limite, mesmo quando você me olha como se estivesse a um passo de se lançar sobre mim.
Meu corpo inteiro pegou fogo.
— Eu… não olho assim pra você.
— Não minta pra mim.
Nossos rostos estavam a centímetros.
A respiração dele batia na minha boca.
Meu coração estava completamente fora de ritmo.
— Dante… — minha voz saiu falha.
— Diga que eu estou errado — ele desafiou.
— Diga que não sente nada quando eu me aproximo.
Eu abri a boca para responder, mas nada saiu. Minha garganta travou, porque a verdade era dolorosa demais:
Eu sentia.
Sentia tudo.
Sentia demais.
Ele percebeu.
E seus olhos escureceram de um jeito que fez minhas pernas ficarem fracas.
— É isso que eu pensei — murmurou, aproximando o rosto ainda mais.
Eu respirei fundo, lutando contra o impulso de puxá-lo pela camisa.
— Dante… isso complica tudo.
— Não complica nada — ele corrigiu.
— Você está tentando racionalizar o que não é racional.
O que existe entre nós não é lógico, Lara. É inevitável.
A palavra inevitável vibrou dentro de mim.
— Eu não confio em você — soltei, a voz baixa, sincera.
Ele não recuou.
Pelo contrário.
— Mas você sente algo por mim — Dante respondeu.
— E isso te assusta mais do que qualquer inimigo lá fora.
Foi como uma facada — porque ele estava certo.
Eu desviei o rosto, respirando fundo.
— Eu preciso pensar.
— Não. — Seus dedos roçaram meu queixo, suaves, mas firmes.
— Você pensa demais. E sente de menos. Hoje, deixe-me te mostrar que não precisa ter medo de mim.
Meu corpo inteiro reagiu.
Mas antes que o momento explodisse…
Um barulho seco ecoou lá fora.
Vidro quebrando.
Dante virou para a porta imediatamente, o predador despertando.
O clima mudou num segundo.
— Fica atrás de mim — ele ordenou, voltando ao modo protetor, letal.
Meu sangue gelou.
— O que foi isso?
— Alguém entrou na propriedade.
O mundo pareceu girar.
Meu coração subiu para a garganta.
— Acha que é o mesmo homem que estava nos seguindo?
Dante olhou para a porta, os músculos tensos.
— Eu não acho. Eu tenho certeza.
Ele me puxou para trás dele e sacou a arma que mantinha escondida na cintura.
— Lara… não saia do meu lado. Por nada.
E, naquele instante, percebi.
A noite que começou com tensão entre nós…
Estava prestes a se transformar na noite mais perigosa , e definitiva , das nossas vidas.