Capítulo 24

1001 Words
Lara A madrugada se arrastava lá fora, silenciosa e pesada, mas dentro de mim havia uma tempestade impossível de acalmar. Eu caminhava de um lado para o outro do quarto de hóspedes da mansão, sentindo o peso de cada respiração, como se o ar ali fosse diferente , mais denso, mais carregado… mais perigoso. Talvez porque Dante estivesse apenas alguns metros adiante, no andar de baixo, e isso era suficiente para acender cada nervo do meu corpo. Eu já deveria ter dormido. Mas desde o momento em que ele encostou a mão nas minhas costas algumas horas antes , firme, quente, possessiva , eu não consegui mais pensar direito. Eu devia ter resistido. Devia ter ficado longe. Devia ter lembrado de todas as razões que me trouxeram aqui, a investigação, as ameaças, o nome da minha mãe aparecendo onde nunca deveria. Mas como pensar quando o toque dele ainda queimava minha pele? Eu me aproximei da janela e abri a cortina só o suficiente para olhar o jardim. Na escuridão, a propriedade parecia maior, mais imponente. Como tudo que envolvia Dante. Ele não era só poder — era presença. Era intensidade. Era uma força que existia mesmo quando ele estava em silêncio. E justamente agora, naquela noite estranhamente calma, eu o sentia mais do que nunca. Eu passei a mão pelo cabelo, frustrada comigo mesma. — Você está perdendo o controle, Lara… — murmurei. Mas não houve tempo para recuperar qualquer controle. A porta do quarto se abriu sem aviso. Meu coração congelou. Porque era ele. Dante entrou sem pedir permissão — como sempre , usando apenas uma camiseta preta justa e calça de moletom. Mesmo assim, tinha um ar de perigo impossível de ignorar. — Não está conseguindo dormir. — Não era uma pergunta. Eu engoli seco, mantendo as mãos atrás do corpo para que ele não percebesse que estavam tremendo. — Como você sabe? — Porque eu também não estou. — Seus olhos correram por mim, lentos. — E porque escuto seus passos daqui. Senti o estômago afundar. Meu corpo reagia a ele de maneiras que eu evitava admitir até para mim mesma. Dante se aproximou alguns passos, a luz fraca do quarto acentuando a linha dura de sua mandíbula. — Você está agitada. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Aconteceu alguma coisa? Sonho r**m? Eu desviei o olhar, tentando escapar daquela leitura profunda demais. — Só… estou pensando em tudo. No caso. No nome da minha mãe. Na pessoa que nos segue. É muita coisa. — E tem eu no meio de tudo isso — ele completou, sem hesitar. Levei um choque. Era como se ele tivesse arrancado algo que eu tentava esconder até de mim. — Eu não falei isso — murmurei. — Não precisa. — Ele deu mais um passo. — Eu sinto. Meu coração pulou uma batida. O problema com Dante é que ele parecia ver além das máscaras , inclusive as que eu nem sabia que estava usando. — Você está… perto demais — consegui dizer em voz baixa. — Porque você não se afasta — ele retrucou, a voz grave, rouca, perigosa. Eu respirei fundo, tentando organizar o caos na minha cabeça. — Talvez seja você que não esteja me dando espaço. Dante soltou um riso curto, quase sem humor. — Lara, se eu decidisse realmente não te dar espaço, você saberia. — Ele colocou a mão na parede ao meu lado, me prendendo sem me tocar. — Eu estou tentando ser paciente. Tentando respeitar seu limite, mesmo quando você me olha como se estivesse a um passo de se lançar sobre mim. Meu corpo inteiro pegou fogo. — Eu… não olho assim pra você. — Não minta pra mim. Nossos rostos estavam a centímetros. A respiração dele batia na minha boca. Meu coração estava completamente fora de ritmo. — Dante… — minha voz saiu falha. — Diga que eu estou errado — ele desafiou. — Diga que não sente nada quando eu me aproximo. Eu abri a boca para responder, mas nada saiu. Minha garganta travou, porque a verdade era dolorosa demais: Eu sentia. Sentia tudo. Sentia demais. Ele percebeu. E seus olhos escureceram de um jeito que fez minhas pernas ficarem fracas. — É isso que eu pensei — murmurou, aproximando o rosto ainda mais. Eu respirei fundo, lutando contra o impulso de puxá-lo pela camisa. — Dante… isso complica tudo. — Não complica nada — ele corrigiu. — Você está tentando racionalizar o que não é racional. O que existe entre nós não é lógico, Lara. É inevitável. A palavra inevitável vibrou dentro de mim. — Eu não confio em você — soltei, a voz baixa, sincera. Ele não recuou. Pelo contrário. — Mas você sente algo por mim — Dante respondeu. — E isso te assusta mais do que qualquer inimigo lá fora. Foi como uma facada — porque ele estava certo. Eu desviei o rosto, respirando fundo. — Eu preciso pensar. — Não. — Seus dedos roçaram meu queixo, suaves, mas firmes. — Você pensa demais. E sente de menos. Hoje, deixe-me te mostrar que não precisa ter medo de mim. Meu corpo inteiro reagiu. Mas antes que o momento explodisse… Um barulho seco ecoou lá fora. Vidro quebrando. Dante virou para a porta imediatamente, o predador despertando. O clima mudou num segundo. — Fica atrás de mim — ele ordenou, voltando ao modo protetor, letal. Meu sangue gelou. — O que foi isso? — Alguém entrou na propriedade. O mundo pareceu girar. Meu coração subiu para a garganta. — Acha que é o mesmo homem que estava nos seguindo? Dante olhou para a porta, os músculos tensos. — Eu não acho. Eu tenho certeza. Ele me puxou para trás dele e sacou a arma que mantinha escondida na cintura. — Lara… não saia do meu lado. Por nada. E, naquele instante, percebi. A noite que começou com tensão entre nós… Estava prestes a se transformar na noite mais perigosa , e definitiva , das nossas vidas.
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