♦️ Lara
O envelope parecia pesar mais do que qualquer maleta de fichas que Lara já carregou na vida.
As mãos dela tremiam enquanto segurava o papel grosso, envelhecido nas bordas, como se aquilo viesse de um passado que ninguém deveria ter tocado.
Seu pai.
Seu próprio pai.
Dante estava a poucos passos dela, observando cada mudança em sua expressão.
O olhar dele não era de pena ou de raiva era de vigilância. De um homem que sabe que a próxima palavra pode quebrar alguém.
Lara se inspirou profundamente.
— Eu quero ver tudo — ela disse, a voz quase sem som.
Dante assentiu, mas parecia desconfortável.
Não por medo Dante não temia nada mas por saber que aquilo iria machucar.
Lara colocou o envelope sobre a mesa reforçada da sala secreta. Sentou-se. Suas pernas pareciam feitas de vidro.
Abriu o envelope.
O primeiro documento era uma folha amarelada, com anotações em caligrafia conhecida demais a do pai.
“50 mil no contra-aposta. A garota não passa da semifinal.”
Lara sentiu o estômago virar.
Outra folha.
Transações bancárias. Valores exorbitantes.
Datas que coincidiam com torneios importantes.
E o nome do pai dela vinculado diretamente ao de Rafael.
Uma sequência de fotos caiu sobre a mesa.
Lara reconheceu algumas festas, eventos privados, cassinos clandestinos.
Seu pai aparecia sorrindo ao lado de Rafael. Em algumas fotos… entregando envelopes.
O ar fugiu dos pulmões dela.
— Não pode ser… — sussurrou.
O nome do pai dela estava ali, repetido, documentado e assinado. Não havia dúvida.
Dante finalmente falou:
— Eu tentei esconder isso de você até ter certeza.
Lara engoliu as lágrimas, mas elas vieram mesmo assim.
— Por quê? — ela perguntou, a voz falhando.
— Por que ele faria isso? Por que… me venderia?
Dante se aproximou devagar, como se cada passo fosse calculado para não assustá-la.
— Lara… seu pai está afundado em dívidas há anos.
Não apenas financeiras , dívidas com gente perigosa, gente que não se importa com vidas. Rafael pagou essas dívidas.
Em troca ele quis favores. Informações. Resultados manipulados.
Lara levantou o rosto, os olhos ardendo.
— E eu era o pagamento.
Dante fechou os olhos por um instante, como se aquilo também o machucasse.
— Sim.
O mundo de Lara pareceu desabar.
A casa segura, antes silenciosa, agora parecia pequena demais para tanta dor.
Ela se levantou abruptamente.
— Isso é ridículo. Meu pai fez erros, sim, mas… me usar assim? Apostar contra mim? Ele sempre me disse que eu era o orgulho dele.
Dante segurou o braço dela quando ela tentou se afastar.
— Orgulho não paga dívidas, Lara.
E ele fez escolhas que colocaram você no centro de um dos jogos mais perigosos que existe.
— EU NÃO SOU UMA FICHA DE PÔQUER! — ela gritou.
A voz ecoou pela sala. Dante não recuou.
— Eu sei. — Ele se aproximou ainda mais, segurando o rosto dela entre as mãos com firmeza e cuidado.
— Eu sei que você é muito mais que isso. Melhor que todos nós.
As lágrimas rolaram agora sem controle.
— Então por que isso está acontecendo comigo? — ela sussurrou, a voz quebrada.
Dante aproximou a testa da dela, devagar.
— Porque você nasceu em uma mesa cheia de covardes — respondeu.
— Mas isso não define quem você vai ser.
Lara fechou os olhos. O toque dele queimava. Estabilizava. Protegia.
Por um segundo, ela só queria ficar ali. Nos braços dele. Onde tudo parecia suportável.
Mas ela ainda precisava entender.
— Você sabia que ele estava envolvido com Rafael? Por quanto tempo, Dante? — perguntou, a voz firme agora.
Dante respirou fundo.
— Eu suspeitava há semanas.
Tive certeza ontem quando Matteo conseguiu rastrear a origem das informações vazadas.
Eu só esperei ter as provas antes de te mostrar.
Eu não queria que você enfrentasse isso sem ter todas as cartas na mesa.
Lara sorriu com amargura.
— Irônico, não é?
Meu pai passando a vida dizendo para eu jogar certo.
E ele foi quem trapaceou o tempo todo.
Dante tocou a mão dela, leve.
— Não é culpa sua.
— Não é culpa minha — ela repetiu, como se precisasse ouvir aquilo em voz alta.
Ela respirou fundo e ergueu o rosto, agora com um brilho diferente nos olhos.
Não era só dor. Era determinação. Era raiva. Era foco.
O lado dela que o torneio nunca tinha visto.
O lado que o pai subestimou.
— Dante — ela disse, firme — o que Rafael quer agora?
Dante segurou o queixo dela, provocando um arrepio.
— Ele quer você fora do torneio.
Quer que você desista.
Ele acha que você é a peça mais fraca.
Lara sorriu. Mas não era um sorriso doce. Era afiado.
— Ele está prestes a descobrir que apostou errado.
Dante a observou por alguns segundos, antes de dizer:
— Então você não vai desistir.
Lara ergueu o queixo.
— Nunca.
Esse torneio agora não é só sobre salvar minha família.
É sobre desmascarar os dois.
Dante deu um passo à frente. Ela sentiu o ar ficar quente ao redor dela.
— Se você fizer isso, Lara você declara guerra. Contra Rafael. E contra seu pai.
Ela encarou Dante sem piscar.
— Então que seja guerra.
Um silêncio pesado se instalou.
Dante passou o polegar pelo rosto dela, secando uma lágrima que insistia em cair.
— Você não precisa enfrentar isso sozinha.
Lara sentiu o coração disparar — mas não por medo.
— Eu sei — ela disse. — Tenho você agora.
O olhar dele escureceu. A tensão entre os dois voltou a pulsar.
— Tem mesmo — ele murmurou, aproximando-se.
— E vou te proteger, mesmo que isso me custe tudo.
O ar entre eles ficou elétrico, e por um instante ela pensou que ele a beijaria novamente.
Mas Matteo entrou na sala, respirando rápido.
— Dante encontramos mais uma coisa.
E vocês dois precisam ver isso agora.
Lara se virou.
Dante franziu o cenho.
— O que foi?
Matteo estendeu um tablet.
— Rastreamos uma chamada feita do celular do pai da Lara para Rafael há menos de duas horas.
O chão pareceu sumir sob os pés dela.
— Meu pai… — Lara murmurou.
— Ele está falando com Rafael agora?
Matteo assentiu.
— E não só isso.
Parece que eles combinaram um encontro.
Dante ficou imóvel por um segundo.
E então disse a frase que mudaria tudo:
— Lara seu pai está vindo atrás de você.