CAPÍTULO 36

1039 Words
Lara A madrugada ainda pesava sobre a cidade quando acordei com o coração batendo rápido demais, como se meu corpo estivesse tentando me avisar algo antes mesmo que minha mente entendesse. O quarto estava mergulhado em penumbra, apenas o brilho suave de um poste atravessando a janela. Minhas mãos procuraram automaticamente o espaço ao lado frio, vazio, silencioso. Dante não estava ali. Por alguns segundos fiquei imóvel, a respiração presa entre as costelas. Parte de mim sabia que ele não tinha simplesmente saído para tomar ar. Outra parte rezava para que fosse justamente isso. Desde que havíamos voltado da casa antiga e das cartas que nos jogaram em um abismo de verdades, Dante estava diferente. Mais sombrio. Mais inquieto. Como se cada sombra se movesse contra ele. Levantei devagar, usando a luz do celular para procurar sinais. A camisa dele jogada no chão. O casaco que ele sempre levava faltando. A arma desaparecida do criado‑mudo. Meu estômago afundou. Dante estava indo atrás de alguém. Ou de algo. E eu já sabia exatamente o quê, o nome riscado na última carta. Aquele que Dante não deixou eu terminar de ler. O nome que fez sua expressão mudar como se tivesse levado um tiro. Eu me vesti no escuro, o corpo quente de ansiedade. Enquanto calçava os sapatos, um estrondo abafado ecoou ao longe como algo pesado batendo contra metal. Meu coração disparou. Peguei meu casaco e desci as escadas quase correndo. A casa estava silenciosa demais. Um silêncio que gritava. Lá fora — a noite se partindo O vento gelado cortou meu rosto quando saí para o quintal, seguindo a trilha até o portão lateral. Foi ali que ouvi — passos. Pesados. Acelerasos. E vozes. — Ele entrou para o lado da fábrica — alguém sussurrou, apressado. — O chefe disse para atirar se ele não parar. Minha pele congelou. Eles estavam atrás dele. E Dante, Dante estava sozinho. Me esgueirei pela parede, sem ousar respirar fundo, até ver a silhueta da antiga fábrica, um lugar abandonado, cheio de corredores onde qualquer movimento era tido como ameaça. E então eu o vi. A sombra larga. Os ombros tensos. A postura de fera prestes a atacar. Dante estava armado. E completamente entregue ao lado mais escuro dele. — Dante… — sussurrei, mas o vento levou minha voz. Quando tentei me aproximar, um braço me puxou com brutalidade. — Não devia estar aqui, moça. Meu grito morreu na garganta quando reconheci o rosto: um dos homens que antes trabalhavam para o pai de Dante. Não um aliado um cão que se afeiçoou à violência. Ele tentou me imobilizar, mas lutei com todas as forças. Chutei sua canela, arranhei seu rosto. Ele xingou, me jogando contra a parede. Senti a dor irradiar da costela ao quadril. — Para de lutar! — ele rosnou. — Você vai ver aquilo morrer lá dentro, e não tem nada que possa fazer! Aquilo? Aquilo. Como se Dante não fosse humano. E então, algo aconteceu rápido demais para que meu cérebro conseguisse acompanhar. O inferno abre as portas Um estampido. Outro. Um grito. O homem que me segurava caiu para o lado, a mão pressionando o ombro. Sangue escorreu entre seus dedos. E alguns metros atrás Dante. Respiração pesada. Olhar assassino. Arma ainda apontada. — Tira a mão dela — ele rosnou, cada palavra cuspida como veneno. O homem tentou se levantar, mas Dante o chutou com força suficiente para fazê‑lo cair novamente. — Levanta outra vez e eu quebro seu pescoço — Dante murmurou, a voz baixa e letal. Eu tremia — não de medo dele, mas do que ele era capaz de fazer quando se tratava de mim. Ele se virou, e por um segundo não o reconheci. Havia algo quebrado em seu olhar. Algo que atravessava a pele, a alma, a memória. — Lara… — O nome saiu como um pedido e como um aviso ao mesmo tempo. — O que você está fazendo aqui? — perguntei, engolindo o nó na garganta. Dante respirou fundo, a mão livre tremendo como se segurasse mais do que uma arma como se segurasse o próprio passado. — Eu vim atrás da verdade — ele disse, aproximando-se. — Daquela última carta. Da pessoa que escreveu o nome. Da única que sabia o que meu pai realmente fez. Engoli seco. Então ele realmente estava atrás dela. — Sozinho? — sussurrei, quase sem voz. — Dante, eles querem te matar… — Eles que tentem. — O olhar dele queimou no escuro. — Eu não vou parar até saber quem mentiu para mim a vida inteira e quem tentou destruir você junto. A dor dele era um incêndio silencioso. Um que eu reconhecia porque queimava em mim também. Quando ele se aproximou mais, meu corpo reagiu antes da mente. Eu toquei seu rosto quente, tenso, duro demais. — Você não é seu pai — murmurei. — Você não precisa fazer isso sozinho. Os dedos dele seguraram meu pulso, não para me afastar, mas como se precisasse de algo real para não despencar no abismo. — Lara… — Ele se inclinou, a testa encostando na minha. — Eu quase te perdi hoje. — E eu quase perdi você. O momento era tenso demais, emocional demais, profundo demais — até que ele se rompeu de outro jeito. O momento explosivo Dante me puxou pela nuca, me beijando com uma urgência que quase tirou meu ar. Um beijo de desespero. De raiva. De proteção. De medo daquilo tudo virar pó. Eu agarrei sua camisa, puxando ele mais para perto, porque eu precisava sentir que ele estava ali, inteiro, vivo. As armas, o sangue, a dor tudo pareceu se afastar por alguns segundos. No meio do caos, éramos só nós dois. Fogo contra fogo. Sombras contra sombras. Quando ele me encostou na parede para aprofundar o beijo, um som metálico ecoou dentro da fábrica. Ambos congelamos. — Eles ainda estão aí dentro — Dante murmurou, a voz agora controlada de novo. — E eu vou acabar com isso hoje. Ele entrelaçou seus dedos aos meus. — Mas você vai comigo. — Sempre — respondi, sem hesitar. E então entramos juntos na escuridão onde o resto das verdades estava esperando para ser revelado.
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