Lara
Eu ainda sinto o gosto dele.
Cada passo até o quarto parece acontecer em outra realidade, como se meu corpo estivesse aqui mas minha mente ainda estivesse presa no momento em que Dante me puxou, me beijou, me prendeu contra ele como se eu fosse algo precioso demais para ser perdido.
E perigoso demais para ser permitido.
Fecho a porta do quarto devagar. É estranho como a escuridão não me assusta mais.
Não depois das sombras de verdade que caminham ao redor de Dante.
As sombras dentro dele.
E as que agora também caminham ao meu redor.
Seguro a beirada da cama e solto um longo suspiro.
Meu coração bate rápido demais , não por medo, mas pela intensidade dele, pela sensação de que algo dentro de mim mudou de lugar.
Como se uma engrenagem tivesse destravado e começado a girar.
Ele não fugiu.
Dessa vez, ele ficou.
E isso muda tudo.
A maçaneta se mexe. Eu susto, mas não grito. Não há ameaça, não há dúvida. Só há ele.
Dante entra, devagar, como se estivesse pisando em um território desconhecido.
E ele está.
—Posso? — ele pergunta, parado na soleira, mesmo já tendo passado por cada canto desse apartamento como se fosse feito para ele.
—Claro que pode — respondo, tentando controlar o tremor leve na minha voz.
— Você mora aqui.
Ele fecha a porta atrás de si. A luz amarelada do corredor corta a meia-escuridão e por um segundo eu vejo o rosto dele e algo no meu peito se aperta.
Ele não parece o implacável, o dono da cidade, o homem que todos temem.
Ele parece… vulnerável.
E isso me toca mais do que qualquer beijo.
Dante não se aproxima de imediato.
Ele para ao lado da cama, olhando para mim como se tentasse decifrar um enigma que nunca conseguiu resolver.
—Lara — ele diz, baixo, rouco, quase hesitante — eu não costumo fazer isso.
Inclinar a cabeça?
Ficar?
Sentir?
Ele continua,
—Eu nunca fui bom em proximidade. Em deixar alguém entrar. Em, ele respira fundo, frustrado consigo mesmo , em não controlar tudo.
Eu seguro o impulso de avançar nele e segurar o rosto dele. Quero, mas não faço.
As barreiras de Dante não caem com força, elas desabam devagar, no ritmo dele.
—Eu sei — digo, suave.
— E eu não quero te mudar, Dante. Não quero que você seja outra pessoa.
Ele levanta os olhos para mim. O jeito como ele olha.
Meu coração dispara.
—Então o que você quer? — ele pergunta, a voz firme, mas os olhos eles carregam um medo que poucas pessoas no mundo provavelmente viram.
Eu dou um passo.
Depois outro.
Paro bem na frente dele.
—Eu quero você — digo, sem desviar o olhar.
— Mas quero o você que sente. Que tenta, Que fica, Não quero a sombra. Não quero o silêncio, Não quero a fuga.
A respiração dele falha.
Física, Real.
Como se eu tivesse acertado exatamente onde ele não esperava.
Coloco minha mão sobre o peito dele, bem onde o coração bate forte , rápido , como se ele estivesse lutando contra si mesmo.
—Eu não vou embora, Dante.
Ele fecha os olhos por um momento. E quando abre algo mudou.
—Lara… — ele sussurra — eu não sei fazer isso sem te machucar.
—Então vamos aprender juntos.
Aquela frase quebra alguma coisa.
Eu vejo nos olhos dele.
Ele ergue minha mão devagar e aperta seus dedos entre os meus.
A força dele me envolve, mas não me prende , me ancora.
—Você tem ideia do que está pedindo? — a voz é baixa, perigosa, mas não para mim. Para ele mesmo.
— Eu não sei amar da maneira certa.
Eu sorrio, Um sorriso pequeno, Dolorido, Verdadeiro.
—Talvez amar da maneira certa seja exatamente isso — falo.
— Tentar, mesmo com medo.
Os dedos dele se apertam ainda mais nos meus.
E então…
—Lara — ele chama, um aviso, uma confissão, um desmoronar.
— Quando eu digo que não divido eu falo sério.
—Eu também — respondo, sem hesitar.
Um músculo salta na mandíbula dele.
O olhar escurece , não de raiva, mas de posse.
Daquela intensidade dele que me puxa como um imã.
E eu não resisto.
Eu não quero resistir.
Ele finalmente dá o passo que faltava e me puxa para ele, as mãos deslizando para minha cintura, meus quadris, minhas costas.
Meu corpo se encaixa ao dele como se tivesse sido feito para isso.
O toque dele é quente.
Firme.
Segurando, mas sem machucar.
—Eu fico — ele murmura contra meu cabelo.
— Por você. Só por você.
Fecha os olhos, como se estivesse dizendo algo que nunca disse na vida.
—Mas se eu ficar… — ele continua, a boca roçando meu ouvido, o tom grave e lento , você precisa estar preparada para o que isso significa.
Meu coração dispara.
—E o que significa?
Ele desliza os dedos pela minha nuca, puxando meu rosto para encontrar o dele.
Os olhos dele estão em chamas.
—Significa que você é minha.
Minha respiração para.
Ele toca meu queixo, me guiando para mais perto, como se estivesse me marcando sem precisar de nada além do olhar.
—E eu sou seu — ele completa, rouco, como se as palavras rasgassem algo dentro dele.
—Inteiro.
—Sem volta.
Meu peito se expande, como se algo dentro de mim finalmente tivesse se encaixado.
Eu toco o rosto dele, as pontas dos dedos deslizando pela barba, pela linha forte da mandíbula, pelo lugar exato onde ele esconde o medo.
—Então fica — digo, suave, firme, verdadeira.
— Fica comigo, Dante.
Ele fecha o espaço entre nós.
E pela primeira vez desde que tudo começou ele não foge.
Ele fica.
Comigo.
Por mim.
Inteiro.