Anjo Ensanguentado

1659 Words
Katherine narrando Saio do vestiário pronta para começar meu plantão, falo "bom dia" para quem vejo e busco as informações para iniciar. Sou enfermeira formada há dois anos e, desde então, trabalho neste hospital. Eu realmente gosto da profissão; amo o ato de cuidar de alguém. Normalmente fico encarregada das internações, e eu amo isso. É tão lindo ver a pessoa se recuperando e podendo seguir em frente. — Kate, você está responsável apenas pelo quarto 02 hoje — meu gerente diz, totalmente sério. — Tudo bem. É algum caso grave? — ele me entrega o prontuário, mas não desvio o olhar. Sempre tenho vários pacientes, não apenas um. — Não, mas é uma pessoa importante, então tratamento VIP. Estou te mandando porque recebo muitos elogios de antigos pacientes e de suas famílias. Então vá, você tem apenas uma missão: não falhe. — Sim, senhor — falo e, após ele virar as costas, leio sua ficha. Um ferimento a bala. Teve uma cirurgia cardíaca nesta madrugada e agora está em coma induzido. Só não entendo o nome do paciente; deve ser algum estrangeiro. Nem consigo pronunciar: Maksin Vasily Gorky. Nome difícil. Melhor chamá-lo de “senhor”. Caminho até seu quarto e me assusto com os dois gigantes de pé em frente à porta. Tento sorrir para eles, que me olham como se quisessem me matar. Um dos homens é careca, e não consigo deixar de notar sua enorme cicatriz — parece um r***o da testa até a bochecha. Mesmo com a marca, seu olho parece normal. Graças a Deus. Não sei o que aconteceu, mas pelo jeito foi grave. O outro homem é gigantesco; acho que um braço dele é quase metade de mim. — Bom dia, eu sou a enfermeira do senhor — olho rapidamente na ficha — Gorky. Provavelmente falei errado, porque o olhar deles diante da minha pronúncia foi horrível. Eles não dizem nada, mas me deixam passar. Abro a porta com vergonha e, quando penso em respirar, encontro mais três homens dentro do quarto. Meu Jesus… Como pode haver uma família só de gigantes? Eles se levantam com a minha presença, e me sinto imediatamente no bar “Patinho Feio” da Rapunzel. Fala sério, um deles até usa um tapa-olho. — Oi, sou a Kate, enfermeira dele — falo, e dois deles se sentam imediatamente, me ignorando. — Você só faz algo depois de me falar — um moço fala, e assinto com a cabeça. — Vocês são irmãos bem preocupados, né? Os três aqui dentro — falo, mas ele me ignora — Com licença. Me aproximo da cama, finalmente tendo uma visão do paciente, e puxa… ele é… Absolutamente lindo. Parece um deus repousando. Sinto um aperto no peito ao ver um homem tão bonito e forte deitado em uma cama de hospital. Espero que ele se recupere logo. Parece que saiu de um acidente feio; há sangue sobre seu rosto e cabelo. Me aproximo da beirada da cama e, ao tentar tocá-lo, seguram meu pulso. — Avisar antes — o moço fala, e assinto. — Vou fazer a checagem: pressão, batimentos, depois vou buscar sua medicação e um soro. — Ele precisa de banho antes; está com sangue — ele fala, com sotaque bem carregado, e assinto tentando soltar minha mão. — Farei isso — olho para sua mão prendendo a minha, e finalmente ele me solta, deixando que eu faça meu trabalho. [...] Chego com o carrinho de banho e desta vez trago um colega comigo; não terei força suficiente para fazer tudo sozinha. Tento sorrir amigavelmente para os seguranças da porta, que apenas olham feio para o outro enfermeiro. — Eu trouxe o Gilmar, ele vai me ajudar no banho. — Não, só você é a enfermeira do chefe — o careca fala pela primeira vez, mas sem me olhar. — Eu não consigo fazer sozinha; não tenho força. — Yuri ajuda — ele fala, abrindo para que apenas eu passe. — Obrigada, Gilmar. Me desculpa — falo para o enfermeiro, que assente e se retira. — Yuri? — pergunto ao entrar, e o moço que me segurou me olha — Barraram meu colega; preciso de ajuda para dar o banho. — Só falar, fazemos — ele assente com a cabeça, e respiro fundo. [...] Retiro o lençol com cuidado e minha garganta fecha. Ele é gigante também, mas muito bonito; seu corpo é todo tatuado. Poxa vida… Sinto um certo medo ao olhar tantas tatuagens sinistras, mas isso também faz dele um baita gostoso. Pego a esponja e molho na bacia de água morna que trouxe, passo com extremo cuidado sobre seu peito, mas o problema está nos braços e no rosto: está com sangue seco. Sangue esse que não parece ser dele. Não sei como a polícia não foi avisada; o protocolo de balística exige um oficial presente, mas não vi nenhum. Me mantenho quieta enquanto faço minha parte e apenas me comunico quando peço e oriento como levantar seu braço, perna… A parte mais vergonhosa é o olhar atento dos três a cada movimento. Quando descubro a parte íntima, eles viram o rosto, e sinto vontade de rir. Homens são homens. Após estar quase todo limpo, me apoio na beirada da cama. Tive que trocar a água com sangue umas seis vezes; agora posso passar o soro com medicação e lavar seu cabelo. Informo Yuri sobre meus próximos passos e me retiro do quarto mais uma vez, faço uma pausa para beber água e encontro meu chefe andando nervoso. — Kate — ele me chama se aproximando — Está tudo certo? — Sim, paciente estável. Fiz o banho de leito e vou passar a medicação com soro agora. O médico deixou na ficha certinho o que injetar. — Certo, tratamento VIP. — Senhor, se me permite perguntar… — Agora não — ele fala e sai apressado. Nossa, nem me deixou falar. Reviro os olhos e volto para meu anjo ensanguentado. Injeto o soro nele e me estico para deixá-lo no suporte. — Você é pequena — Yuri fala ao ver minha dificuldade, e o encaro feio sem responder. Se quer falar, pelo menos ajuda. Ajeito tudo e solto o cabelo dele do coque. Nunca tinha cuidado de pertinho de um homem com cabelo grande; parece o Thor dos filmes. Limpo com muito cuidado, tão concentrada que até esqueço dos outros ao nosso redor. Massageio seu couro cabeludo e me assusto com Yuri me afastando dele com pressa. — O quê? Sou quase arrastada para o lado da cama e o vejo acordado. Fico hipnotizada por seu olhar; ele é tão… duro e sério. Dormindo parecia um anjo; acordado, parece o próprio d***o. Mas ele deveria acordar só daqui a umas três horas. Ainda não; os medicamentos eram fortes. Dou um tapinha na mão de Yuri para ele me soltar e vejo meu… senhor ferido estreitar o olhar para ele. Sou liberada e arrumo minha postura. — Oi, sou a Kate, sua enfermeira. Vou chamar um médico, tudo bem? Você passou por uma cirurgia, então tem que ficar quietinho na cama — falo como se fosse uma criança, mas ele não me responde. Ele faz algum sinal, e Yuri assente com a cabeça. — Ele quer que você termine com o cabelo dele. — Eu termino, mas antes tenho que falar com o médico. Ele precisa ser examinado novamente. — Chamamos o médico; você faz a limpeza. Abro a boca para protestar, mas me calo ao ver meu anjo me olhando, apenas estreito o olhar para Yuri. Espero que um deles saia e me contento em terminar meu cuidado. — Licença — digo, e quando toco na sua cabeça novamente, o sinto relaxar. Tento não ficar animada com isso e volto ao foco. [...] O doutor me julga no início por eu não ter ido chamá-lo, mas logo parece entender a situação ao também ficar intimidado. Termino de limpar seus cabelos e alcanço a toalha. Tentei parar quando o médico pediu, mas Yuri parece um despertador sem fim, repetindo até eu fazer. Fora que esses homens me dão certo medo. Penteio seus fios e deixo soltos para secar. Em mulheres, normalmente faço uma trança, mas quero terminar antes com eles; estou ficando sem ar nesse quarto. Saio de trás da cama, e o doutor fala algo para meu anjo. Empurro o carrinho do banho, mas me barram na porta, todos me olhando de uma vez. — Onde vai? — Levar isso embora, Yuri — falo normalmente, mas na minha cabeça o tom de raiva está presente. — Volta logo. Assinto com a cabeça e olho rapidamente para meu anjo, que me encara intensamente. Ignoro o arrepio que sinto e apenas me concentro em andar normalmente sem cair. Quando viro o primeiro corredor, consigo voltar a respirar novamente. Jesus, que situação intensa. Deixo o carrinho no lugar certo e sinto meu relógio apitar: hora do meu almoço. O tempo passou voando; para mim, parecia que eu tinha acabado de chegar. [...] Pulo da cadeira com a porta do refeitório sendo quase arrombada. A outra funcionária olha com medo, e vejo o segurança careca na porta. — Kate — ele fala, e levanto a mão. — Era para voltar — ele diz. — Mas é minha hora de almoço — digo e mostro minha marmitinha. — Senhorita Kate, depois você almoça, vá — me assusto com meu gerente aparecendo e levanto a mão pedindo tempo. Enfio duas garfadas cheias na boca e fecho meu potinho. Tento guardar as coisas, mas meu chefe se aproxima, pegando de mim. Ele me entrega um suco de laranja, que rapidamente pego antes de ir até o carequinha. — Qual seu nome? — não posso só pensar em “carequinha”; é falta de respeito com ele. — Sergey. Ele diz e sai andando apressado. Tenho que correr para alcançá-lo. Bebo meu suco rapidamente e jogo fora antes de chegar no quarto.
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