Tento Gritar, Mas

1625 Words
Katherine narrando Entro com vergonha, e todos param de conversar com a minha presença. Percebo a ausência do médico. — Oi, o que precisam de mim? — meu anjo não me responde e apenas continua me olhando. — Alimente-o — o Yuri manda e logo volta a falar no celular. Vejo a sopa no descanso de mesa e, com vergonha, me aproximo dele. — Está com dor de garganta? — pergunto, curiosa por ele não falar, mas não recebo resposta; ele apenas me olha. Ele deve ser mudo, e eu não sei libras, apenas soletrar meu nome. Mas, como a língua de sinais muda para cada idioma, a chance de eu entender o que ele fala é ainda menor. Deixo meus ombros caírem e pego a colher, começando a servi-lo. [...] Limpo sua boca e afasto a embalagem vazia; ele comeu tudo. — Muito bem, agora você tem que descansar — falo e olho para o Yuri — ele precisa descansar agora. Vocês vão continuar aqui? — выходи и готовься к полету — ele fala para os outros dois, que rapidamente se retiram do quarto. Vejo o soro acabando e pego o band-aid pequeno nas gavetas. Espero finalizar e retiro com cuidado, colocando o mini band-aid em seguida. Me direciono para sair, mas Yuri balança a cabeça negativamente. — Você fica. — Quando vou responder, vejo o senhor Gorky do meu lado fazer um sinal para o amigo — ou irmão, não sei — você fica e fala com ele. — Mas falar o quê? — ele faz outro sinal direcionado ao Yuri, mas não desvia o olhar de mim. — Ele quer que você fale sobre você, sobre sua vida. E pode se sentar, se quiser — ele pega o negócio da minha mão e joga no lixo comum. Meu Deus. Resmungo mentalmente; isso é totalmente contra a ética. Olho meu relógio, mas me sento. Ainda tenho algumas horas antes de encerrar meu plantão. Mesmo que eu tentasse reclamar com meu chefe, ele está tão estranho hoje que ia acabar se oferecendo para falar sobre mim. — O meu nome é Katherine Castro. Nasci aqui mesmo, fiz faculdade de enfermagem, tenho 25 anos. Ele faz algum sinal, e o Yuri sai do celular para traduzir. — Você namora? — ruborizo de vergonha. Não tenho que responder isso, estou trabalhando, mas… será que ele se interessou por mim? Fico ainda mais vermelha pensando nisso. Vejo que ele começa a ficar com expressões raivosas e seus batimentos cardíacos se alteram no monitor. — Não namoro. Agora respire fundo, senhor, você precisa ficar relaxado — falo, e ele estica sua mão na minha direção. Me levanto para segurá-lo; ele tenta movimentar meus dedos e entendo que é para fazer carinho. — Você precisa dormir um pouco. Vou deixá-lo sozinho para relaxar. Ele n**a com a cabeça e, mesmo pouco, é a primeira vez que se comunica comigo. Mesmo não verbalmente, fico um pouco feliz com isso. — Você precisa dormir. Se eu ficar aqui, você vai fazer isso? — ele assente com a cabeça, e respiro fundo — Tudo bem. Tento soltar sua mão, mas a dele me prende com força. Ele pega a outra e leva até sua cabeça, mexendo meus dedos para que eu acaricie. Desvio seu olhar, não aguentando a tensão, mas continuo com o carinho. Após um tempo, seu aperto se afrouxa, e o vejo de olhos fechados. Depois de mais um tempinho, ele finalmente dorme e relaxa totalmente. Me desvencilho dele e me dirijo à porta. Me assusto com Yuri empurrando a cadeira para perto da cama dele: — Senta aí. — Eu preciso sair, rapidinho — falo, mas ele balança a cabeça negativamente. — Não vai. Você fica aqui. — Mas eu preciso ir ao banheiro — falo, e ele continua me olhando. — Segura. — Eu preciso fazer xixi, Yuri. — Ele aponta para o banheiro do quarto e n**o com a cabeça. — Não posso usar. É dos pacientes; o dos funcionários é em outro lugar. — Banheiro é banheiro. Estou mandando, vá. Tento responder, mas ele faz sinal de silêncio. Reviro os olhos, mas obedeço. Isso que dá ser boazinha e receber elogio de paciente. [...] Saio do banheiro e Yuri está de costas para mim, falando ao telefone. Essa ligação não tem fim. Ele olha pelo vão da persiana, mas, quando dou o primeiro passo, ele se vira para mim. Não diz nada e apenas aponta para a poltrona. Me sento educadamente e fico o observando, esperando que termine a ligação para eu falar. Sergey abre a porta, entra com um lanche natural e vem na minha direção me oferecendo: — Obrigada, mas eu não posso comer aqui. — Você vai passar o seu tempo todo aqui, come — ele manda, antes de sair. Relaxo na cadeira, desistindo. Homens difíceis… Como meu lanche devagar, aproveitando cada pedaço, sinto sede, mas não falo nada. Tento escutar o que Yuri fala para tentar entender algo, mas não consigo. Dá até um pouquinho de sono esse idioma dele. Bocejo uma vez e o observo; ele começa a andar de um lado para o outro do quarto. É hipnotizante de certa forma. Apoio minha cabeça e tento resistir, mas o sono me leva. [...] Acordo com vozes raivosas e demoro a entender onde estou e o que aconteceu. Arregalo os olhos ao ver Yuri brigando com seus amigos, e um toque contra minha pele me faz pular. Olho para meu anjo relaxando um pouco; ele toca minha cabeça e acaricia meu rosto. — Desculpa, eu dormi no trabalho. Precisa de algo? Está se sentindo bem? — pergunto, e ao vê-lo negar com a cabeça, olho meu relógio. Meu Deus, dormi uma hora de serviço. Yuri para de gritar e se vira, falando um monte de coisa para o senhor Gorky, que responde em sinais novamente. Me levanto devagar e, com vergonha, atraio todos os olhares para mim: — Senta — Yuri manda. — Preciso ir ao meu vestiário e tomar um café — falo, e o anjinho n**a com a cabeça. Sua frequência cardíaca aumenta, e vejo uma veia de estresse pulsar em sua testa. Meu senhor, esse anjo é muito estressado. — Se Sergey me acompanhar, posso ir? Eu realmente preciso, é coisa de mulher — falo, e o anjinho estressadinho assente com a cabeça. — Volta logo — Yuri manda, e, assim que abro a porta, ele fala alto: — Sergey, idi i beregis', ona iz avtoriteta. Sergey assente e, sem eu falar nada, me segue. Todos meus conhecidos me olham curiosos, me fazendo morrer de vergonha. Entro no vestiário e tento bloquear o segurança, mas ele me segue literalmente em todo lugar. Abro meu armário e pego meu celular, colocando-o no bolso. Pego um pouco de café da sala e finalmente suspiro aliviada. Solto meu cabelo do coque apertado e penteio com calma. Vejo pelo espelhinho Sergey olhando todo o espaço. Pego minha embalagem de doce da bolsa e me sento no banquinho. Ofereço o saquinho para ele, que n**a com a cabeça, deixando as jujubas só para mim. Quando começo a ficar feliz com o silêncio, seu celular toca. Ele fala que só vim soltar o cabelo e comer doce. O encaro feio, e ele fica de costas para mim. Aproveito para pegar meu celular e mandar mensagem para meu chefe, perguntando o que fazer quando for meu horário e dizendo que me sinto igual a uma prisioneira. Ele apenas diz que vai resolver e para eu esperar por ele e pela nova enfermeira. — Precisamos ir — resmungo, deitando no banco. Sergey bufa: — Vamos, senhora Kate. — Dois minutos só. — Ele está passando m*l — ele diz, me levando na hora, saindo apressada. No caminho, prendo meu cabelo em um coque do melhor jeito que consigo. Abrem a porta para mim, e olho alarmada: — Você está bem? O que está sentindo? — olho o monitor, que está normal; ele só aproveita para segurar minha mão e me prender — Era mentira? Eles me ignoram, e sinto a raiva dentro de mim. Eu vim correndo. Sergey mentiroso. — Ele quer saber por que você está irritada — olho para o senhor Gorky, mas não respondo — O responda. — Não estou irritada, não tenho motivos. Estou apenas cumprindo minha função de enfermeira, dando toda atenção e cuidado para o senhor Gorky, até o fim do meu horário — falo formalmente. Olho apenas para a porta e decido comigo mesma que, no instante que der meu horário, sairei por ali. O próximo enfermeiro que se vire com esses homens. Ele puxa minha mão, e vejo seu olhar. Não entendo o que ele tenta falar e nem tento. — Você está bem? — ele n**a com a cabeça — O que você tem? Dor? Cansaço? Vou chamar um médico. Ele não me deixa ir e fica apenas me encarando. Ninguém me respondeu até agora, mas já entendi que ele é mudo. Queria saber libras para conversar com ele. Queria xingar ele pela situação que me colocou… mentira, mas seria minha vontade. Batem na porta, e Sergey conversa alguma coisa com o povo. Todos olham para nós. Seu olhar se desvia para Yuri, fazendo apenas um sinal. Vejo seu amigo se aproximar: — Com licença, senhor — ele pede. Quando o anjo assente, minha mão é solta. Antes que eu pergunte se posso ir, me assusto com Yuri me prendendo. Tento gritar, mas ele coloca um pano molhado no meu rosto. Me debato contra ele e consigo arranhá-lo, a ponto de sentir seu sangue. Tento dar uma cabeçada, mas percebo minhas forças diminuindo. Ele vai me soltando, e a última coisa que escuto é ele me xingando.
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