Últimos Momentos Consciente

1658 Words
Katherine narrando Retomo minha consciência e a primeira coisa que sinto é que estou amarrada. Abro os olhos e vejo minhas mãos e pernas presas com cordas. Olho em volta, não reconhecendo o espaço branco. Batem na porta, me assustando, e vejo a peste do Yuri. Olho primeiro para seus braços, os vendo enfaixados. Pelo menos fiz algo. — Me solta agora, seu grandíssimo filho da p**a, sequestrador de enfermeiras, ladrão! — Shiu — ele fala, e apenas fico quieta conforme ele se aproxima me intimidando — Eu vou te soltar, e você vai ficar bem quietinha, vai me seguir e ir até o senhor Gorky, entendeu? Assinto com a cabeça e o vejo soltar tudo com facilidade. Espero ele se afastar e me levanto, sinto um balançar e olho assustada para ele: — Em que merda estamos? — Em um jato. — Sinto o suor começar e minha visão escurecer. — Um jato? No ar? Longe da terra? — pergunto, sentindo meu estômago queimar e minha garganta doer. — Isso. — Ele abre um negócio e, pela pequena janela, vejo. Cambaleio para trás e me apoio à parede: — A gente precisa voltar, para a terra, agora! — falo baixo, perdendo a força da voz, e sinto o ar me faltar. — Você tá bem? — ele pergunta, chegando perto. Mais nervosa ainda, não aguento. Sentindo todo o meu corpo mais leve, sinto medo nos meus últimos momentos conscientes. [...] Desperto assustada, abro os olhos e quase grito com o estranho que mexe em meu pulso: — Socorro! Eu fui sequestrada! — falo e percebo minha voz rouca. O médico me olha e, quando se vira para outra pessoa, percebo que ele está aqui. O d***o… porque de anjo ele passou longe. O médico se afasta de mim e fala algo para ele, que assente e abre a porta para o doutor. Sinto dor em todo meu corpo ao me mover. Olho o ambiente e, dessa vez, estou sentada em uma cama enorme, com lençóis de seda, e todo o lugar é em preto. Passo a mão no meu corpo e me sinto aliviada por ainda estar com minhas roupas de trabalho, tirando meus sapatos. Estou descalça. Meu senhor, o que será que fizeram com meu pé? Me descubro imediatamente e conto cada dedinho, com medo de terem cortado. Escuto passos e volto minha atenção para o homem que mandou me sequestrar, sua peste… péssimo momento para te achar bonito. Vejo traços de diversão em seu rosto, me irritando. Ele está me achando engraçada? Pego um dos travesseiros, jogando em sua direção: — Eu quero ir embora! — ele n**a com a cabeça — Você pode pelo menos escrever? Eu sei que você é mudo, mas estou cansada de falar sozinha. Quero respostas e garantia de que volto para minha casa. Ele anda pelo quarto e volta com um notebook, digitando algo. — E eu quero voltar por um meio terrestre! Você é doido? Além de me sequestrar, ainda me joga em um negócio no céu. E se aquele troço cai? — falo irritada e escuto sua risada, que me faz paralisar. Ele percebe minha expressão e me olha, ainda risonho: — Você fez barulho… e não barulho r**m, uma risada normal. Você não é mudo, seu anjo mentiroso! — falo, jogando um segundo travesseiro em sua direção. Estou furiosa, só não bato nele porque tenho medo de apanhar no momento. Esse tempo todo ele me ignorou por querer, filho de uma quenga*. Ele abre a boca, mas não fala nada. Mudando seu humor para irritado, ele se retira, batendo a porta. Eu, que estou irritada, me levanto e escuto todo o meu corpo estralar. Penso em brigar, mas a vontade de fazer xixi me atinge de repente. Olho em volta e, antes de eu sair, uma senhora entra no quarto segurando uma bandeja de coisas gostosas: — Você é Kate? — ela fala, e assinto. — O banheiro, por favor. — peço, e ela aponta uma das portas, por onde saio correndo. [...] Seco minhas mãos antes de sair do banheiro. Encontro o quarto agora vazio, mas com a comida em cima da cama; a senhora ainda colocou os travesseiros no lugar. Pego primeiro o copo de água e viro de uma vez. Como apenas algumas uvas e um pãozinho enquanto penso: e agora? Eu fui sequestrada. Eu nunca achei que isso fosse acontecer comigo; foi uma reviravolta assustadora. Estava tudo tão bem. A gente sente medo vendo essas coisas no jornal, mas nunca pensamos que de fato podemos ser sequestradas. Formada, com um emprego e salário bom, apartamento bonitinho… Eu ia dar entrada em um carro, começar academia, minha família longe, mas nossa relação muito boa. Eu ia viajar e vê-los daqui dois meses. E agora... Tento segurar o choro, mas é impossível. Eu vou morrer agora… ou pior, ser obrigada a ser prostituta. Eu já vi novela de tráfico humano; é sempre assim: Sequestram uma mulher, levam para outro continente, jogam-na em uma boate do crime com um vestidinho, e esse vai ser o resto da vida dela. Ou pior… e se quiserem meus órgãos? Choro mais ainda com as opções de destino que me restam. Eu deveria ter sido fumante e tatuada; nunca sequestram esse tipo de pessoa. Eu vi no jornal. Escuto a porta abrir, mas ignoro. Eu já sei meu fim mesmo: — Para de chorar, mulher! — escuto a voz do Yuri e jogo o copo de vidro em sua direção. — Eu não vou ser prostituta de vocês! Muito menos fonte de órgãos! — falo alto, e ele me olha sem entender. — Ye-bat* (pessoa sendo irritante), quem te falou isso? — Você acha que eu não sei o que acontece quando pessoas são sequestradas? EU VEJO NOVELA! — Vai tomar banho, depois te falo. — Eu não vou tomar banho, aí vocês já vão me cortar! — falo, e ele se irrita, quase arrancando seus cabelos. — SENTA AÍ! — ele fala tão grosso que obedeço — Engole esse choro! Ninguém aqui vai fazer essas coisas com você. Você está aqui porque o chefe te quis. — O chefe? — É… o senhor Vasily. Ele quer você. — Por que ele me sequestrou então? Eu teria ficado muito feliz de ter ficado com ele na minha casa até… depois tchau. Ele é um gostoso, mas agora um gostoso doido, sequestrador e mentiroso. Ele revira os olhos, odiando nossa conversa: — Ele te quis e te pegou. Pronto. O chefe que decide isso. — Por que o chefe se finge de mudo? Ele não fala, mas escutei ele rir… bonitinho, não tem defeito ali não. — Ele parece se surpreender por isso. — O senhor Vasily nunca ri. — Mas eu escutei. — Deve ter imaginado, porque sorte sua não ter ouvido. As únicas pessoas que escutaram ele falar ou se comunicar morreram. — Ele diz, e arregalo os olhos — É, sua família morreu, e ele só falou depois, antes de torturar seus inimigos e matá-los. Arregalo os olhos, me encolhendo. p**a merda… ele é traficante internacional. — O que o Maksin é? Traficante de drogas? — Não sei por que, mas o Yuri acha isso engraçado e acaba gargalhando. — Não. Ele é um dos homens importantes da Solsnetskaya, máfia russa, chefe da nossa cidade e responsável pelas melhores torturas dela. Engulo em seco e volto a chorar; ele vai me matar. — Te dou um conselho: seja boazinha, fica com ele aí, e quando ele cansar te envio para sua terra novamente. — Eu não quero morrer! — falo, chorando, e ele n**a com a cabeça. — Seja boazinha e não chora. Você vai viver se não irritar ele. Agora vai tomar um banho; vai ter roupa para você em cima da cama, e eu trouxe remédio para dor. Ele me entrega o analgésico e se retira do quarto. Me levanto sem muita vontade e sigo para o banheiro. Eu só quero voltar para casa. Se eu tiver que apenas ficar com ele e voltar, vai ser um pequeno preço pela minha vida. Me ajuda a ser forte, Deus. [...] Coloco o vestido e a calcinha que me deixaram e busco no banheiro desodorante, perfume e até creme de cabelo; até acho, mas é tudo masculino. Passo apenas o desodorante, não querendo ter mais do seu cheiro; só o do sabonete já está me fazendo passar m*l. Penteio meus fios molhados e tiro um pouco do excesso de água com a toalha. Procuro um secador nos armários e xingo ao não encontrar. Eu preciso fazer algo; sem fazer, fico pensando, e se fico pensando, eu choro. Batem na porta, me assustando, e vejo a senhora novamente: — Vem — ela chama, e, quando me aproximo, ela sai andando — me segue. Obedeço e saímos do quarto, me deixando surpresa. A casa é bem mais gelada do que seu quarto, que estava quentinho. Tremo um pouco, mas a senhora parece nem sentir. Passamos em frente a uma grande janela e paro: está nevando. Puta que pariu, eu realmente estou na Rússia. Abro com dificuldade a janela e enfio a mão do lado de fora. Flocos de neve caem em minha pele, me fazendo sorrir e chorar. É tão bonito… eu ia adorar ver isso em uma situação normal. — Kate — a senhora chama. Rapidamente fecho a janela, corro na direção que ela tinha ido e a encontro, me procurando. Dessa vez, ela pega minha mão, me levando pelo lugar até uma sala de jantar. Paraliso ao ver o Maksin já sentado à mesa. Me protejo atrás da senhorinha, que olha apenas para seu chefe, esperando uma ordem. Ele aponta a saída para ela, que rapidamente obedece e bate a porta, me deixando a sós com ele. * No sentido figurado, refere-se a uma pessoa sendo irritante, enroscada ou simplesmente desagradável. É usado na expressão comum
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD