Não Fale

1573 Words
Katherine narrando Ele puxa a cadeira para mim com uma precisão quase calculada, o gesto silencioso e firme, e indica que eu devo me aproximar. Sinto meu coração acelerar, um tamborilar descompassado que ecoa nos meus ouvidos. Dou um passo para trás, mas a lembrança do que Yuri me disse ecoa na minha mente: “Seja boazinha, Kate. Faça o que ele quiser, e você volta viva.” Respiro fundo, tentando ignorar o nó de medo na garganta, e avanço devagar, cada passo carregado de hesitação e apreensão. Chego perto dele e imediatamente sinto um arrepio percorrer minha espinha. Sento-me devagar, quase tentando desaparecer na cadeira, e ele empurra o assento com uma delicadeza que me deixa ainda mais nervosa — como se todo o cuidado fosse calculado para me prender sem que eu percebesse. Paraliso quando suas mãos alcançam meus cabelos. Ele escolhe uma mecha e enrola suavemente em seu dedo, e meu corpo reage automaticamente, cada músculo se tensionando, enquanto uma mistura de medo e confusão me deixa sem fôlego. Mal consigo respirar quando ele se curva, aproximando o rosto do meu pescoço, inalando meu perfume natural, o cheiro que me é tão íntimo e, ao mesmo tempo, aterrorizante naquela situação. Suas mãos deslizam até minha clavícula, alisando a pele com um cuidado perturbador, e um pequeno som satisfeito escapa de seus lábios. Sinto minhas pernas falharem, meu coração querer sair do peito, e tudo que consigo pensar é: Por favor, não fale. Por favor, não faça nada que me faça morrer agora. — Estou com fome — consigo dizer, a voz trêmula, tentando criar uma barreira entre nós, tentando afastá-lo sem provocar sua raiva. Quando ele não reage agressivamente, sinto como se tivesse acabado de respirar pela primeira vez em horas. Quase desmaio de alívio, apoiando a testa na mesa. Ele retira as tampas da refeição com movimentos precisos, finalmente se sentando, e meu olhar desvia para o prato à minha frente. Não faço a menor ideia do que é, mas o aroma é tentador. Começo a experimentar, pegando mini- garfadas de cada item, testando sabores, tentando me concentrar na comida para não encarar os olhos dele. O creme verde, com aspecto de espinafre, me provoca uma careta imediata; é amargo e indigesto. Mas os outros itens… são surpreendentemente deliciosos. Sinto uma pequena faísca de alegria ao comer, feliz por não precisar olhar para ele ou falar nada — pelo menos por alguns segundos. Bebo toda a água à minha frente, tentando acalmar o nervosismo que ainda me percorre o corpo. Ele observa cada movimento e aponta para o creme verde. — Eu não gostei dessa coisa não, achei bem amarga — digo, a voz traindo meu constrangimento, fazendo uma careta só de lembrar o gosto — desculpa. Percebo que falei demais. Sempre fui direta, mas agora sinto que qualquer palavra pode desencadear algo imprevisível. Eu não sei como me comportar boazinha; não sou o tipo de pessoa que fica quieta o tempo todo. Pelo contrário, manter a boca fechada me parece uma tortura quase física. Ele faz um gesto sutil, mas suficiente para que eu entenda: é hora de falar. Meu estômago se contorce. Aí, merda… ele que pediu. — Eu gostaria de perguntar… se puder fazer um joinha, até negativo se for não… eu queria saber: você me quer, é isso? — a intensidade de seu olhar me prende, como se cada palavra não dita estivesse queimando minha mente. Ele apenas assente, confirmando, e eu quase sinto meu corpo tremer de tensão. A sensação é avassaladora; é intimidador demais para ser ignorado. Aí, Jesus… — Você não poderia ter me tido por lá mesmo, sem me sequestrar e trazer para cá? — minha voz sai quase em sussurro, misturando raiva e medo. Ele n**a com a cabeça, e bato os dedos nervosamente na mesa, um gesto de frustração e impotência — certo… — E você quer uma vez só e posso ir, né? — meu corpo congela enquanto ele me encara feio. Sua testa se contrai, a veia pulsando com força, quase saltando em meu rosto, transmitindo um aviso silencioso — isso é um não? Eu poderia, ao menos, comer sobremesa? Ele se levanta, quase derrubando a cadeira, e sai da sala rapidamente. Aí eu tenho que aprender a calar a boca… é muito difícil estar de frente com o fator decisor do meu futuro e não poder falar nada. Mas ele que mandou eu falar. A senhora entra novamente junto com o Maksin e coloca um bolinho na minha frente: — É Medovik, Kate. — Muito obrigada, senhora. — Ela espera ansiosa, e entendo que é para eu provar. Me sirvo com uma pequena garfada e vejo como o bolinho é fofinho. É um doce de mel. — É muito gostoso, obrigada. — Ela sorri para mim. — Kate gosta de doce? — Assinto com a cabeça, e ela se retira animada. Meu antigo anjo e atual sequestrador se senta novamente e pega um pedaço do meu bolinho, me fazendo olhá-lo feio: — É meu bolinho! — falo, puxando meu pratinho e vendo sua cara feia. A porta se abre com pressa e vejo o Sergey carregando uma maleta. Fui salva por agora: — Oi, Sergey — digo, aliviada. — Senhora Kate — ele fala e coloca a maleta na mesa, abrindo. Vejo diversos remédios e materiais para curativo — tudo para você cuidar dos pontos da cirurgia. — Sergey, você entende quando ele fala nesses sinais, né? — ele concorda com a cabeça — eu vou falar algo e peço que você traduza a resposta dele, por favor. Vejo o olhar interessado do Maksin, que me olha atento: — Eu gostaria de propor um acordo com você: um momento juntos, uma ficada, e eu ainda arrumo seu curativo antes de ir embora. Aí você me libera. — Ele apenas n**a com a cabeça, me irritando — Por quê? Eu não quero ficar aqui, em outro continente, outro país… eu tenho uma vida, senhor “eu posso fazer tudo”. Ele faz diversos sinais sem desviar de mim, e vejo o Sergey suspirar, tendo que traduzir tantos gestos que ele faz rapidamente em sua raiva: — Ele disse que, bem, ele não aceita nada disso porque você já é dele e você sabe que é verdade. Você também sente essa atração que ele sente por você e quer isso tanto quanto ele; apenas resiste pela mudança repentina de lugar, mas é só você se soltar e aproveitar. — Ele traduz tudo falando rápido, apenas sentindo mais frustração. Respiro fundo, me irritando com ele, cruzo os braços, mas me arrependo ao vê-lo descaradamente encarar meus s***s: — O que você chama de mudança repentina de lugar é um sequestro. É tirar tudo o que eu chamo de vida e me roubar para você. Eu não sou um objeto. — Você que vê dessa forma — o Sergey traduz. — Ah, claro… você acha que é só mostrar sua gostosura que eu vou arrancar a roupa e pular no seu colo? Largando toda minha vida no caminho e esquecendo de como vim parar aqui? Nenhum sinal para mim é feito, e ele apenas dispensa o Sergey, que se retira sem falar nada. Ele bate na própria perna, e eu olho feio: — Não espere que eu vá sentar no seu colo, Maksin Vasily Gorky! — falo seu nome todo, e mesmo com a pronúncia errada, ele mexe a cabeça parecendo gostar. Devagar, ele se ergue e vem até mim, colocando as mãos sobre minha cadeira. Fico presa, tento me abaixar, mas ele se curva, ficando a centímetros do meu rosto. Por favor, não fale… eu quero viver. Fecho os olhos com medo e me arrependo um pouco de ter começado a falar desde o início. Sua mão caminha da minha nuca até meu ombro, ele acaricia e brinca com a alça do meu vestido. Abro os olhos apenas para ver o instante em que seu rosto encosta no meu. Ele beija o canto da minha boca e, quando tento recuar, ele ataca meus lábios de uma vez. Recuso, mas lembrando do que o Yuri falou, eu paro. Libero sua passagem e retribuo levemente o beijo, em que ele tenta me devorar. Sua mão vai para minha nuca, puxando meus cabelos. Coloco minhas duas mãos contra seu peito e, com toda minha força, nos separo alguns milímetros: — Será apenas essa vez. Em troca, eu quero a liberdade. Ele não responde nada, mas com um movimento me tira da cadeira e me segura contra ele. Engancho minhas pernas contra sua cintura e o beijo novamente, dessa vez na mesma intensidade. — Uma vez só — repito, descendo os beijos para seu pescoço. Desgraçado gostoso! Puxo sua barba, querendo machucá-lo, mas ele não parece perceber. Retorno para sua boca, beijando e mordendo fortemente seus lábios. Ele sorri levemente, gostando. Percebo que saímos da sala de jantar apenas quando ele bate a porta do quarto. Abro os botões de sua camisa e vejo o enorme curativo: — Você tinha que repousar, não fazer esforços — falo, contornando a parte enfaixada. Ele rosna, e sinto vontade de rir, mas me controlo. Seguro seu pescoço e o faço me olhar: — Eu sei que você não vai me responder, e sou grata por isso. Mas depois disso, eu vou me sentir livre. — Ele n**a com a cabeça e volta a me beijar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD