Thaís
A verdade tem um jeito c***l de cair sobre nós quando menos esperamos. Como um golpe seco no estômago, nos deixando sem ar, sem saída. E agora, enquanto dirijo de volta para a casa de campo, sinto esse peso esmagando o meu peito. Meu coração bate rápido demais, minha mente está uma bagunça. O que diabos eu acabei de descobrir?
Thiago.
Meu primo, meu amigo, o homem com quem dividi risadas e histórias de infância.
O noivo de Helena.
A mulher que, nos últimos tempos, se tornou minha irmã de alma para mim.
Engulo em seco, apertando o volante com força. Meus dedos estão suados, minha respiração descompassada. Como isso aconteceu? Como fui capaz de olhar nos olhos dele, e mesmo após a nossa discussão naquela boate, dançar, beber, rir, após o nosso confronto e descobrir que ele era o homem que minha melhor amiga iria se casar, e ela acabou fugindo para nunca mais o ver?
O destino tem um senso de humor perverso.
Quando chego à casa de campo, já é madrugada. O silêncio pesa, apenas o som dos grilos corta a noite. Respiro fundo antes de entrar.
Helena está sentada no sofá, abraçando as próprias pernas, como se estivesse tentando se proteger do mundo. Seus olhos, cansados e aflitos, se voltam para mim no instante em que fecho a porta.
— E então? — Sua voz treme, e eu sei que ela sente o perigo no ar.
Tiro os sapatos e caminho até ela, sentindo o chão frio sob os pés. Como digo isso? Como destruo de vez qualquer esperança de que ela possa recomeçar longe do passado?
— Helena... — minha voz falha, e eu engulo o nó na garganta. — O seu noivo é o Thiago, o meu primo, o pai do seu bebê.
O tempo para.
Ela pisca uma, duas vezes, como se não tivesse entendido. Como se não quisesse entender. Então, lentamente, seus lábios se entreabre, e ela sussurra:
— O quê?
A dor na voz dela me atinge como uma lâmina afiada.
— Eu encontrei com ele essa noite. Na boate. Só percebi quem ele era depois que conversamos.
Helena se levanta, andando de um lado para o outro, os dedos puxando os fios soltos do cabelo. Ela está agitada, a sua respiração acelerada.
— Eu não posso… Eu não posso deixar que ele me encontre, Thais! Você sabe o que isso significa?
Sei. Sei muito bem. E é por isso que estou aqui, de mãos atadas, sem saber se fiz a coisa certa ao esconder sua fuga.
— Ele ainda te procura, Helena. E se ele souber que você está viva…
Ela aperta os olhos, segurando as lágrimas. Eu conheço essa expressão. É medo. É pavor.
— Ele não pode saber. Nunca.
O silêncio que se segue é cortante. Meus pensamentos se embaralham. Eu fiz certo ao ajudá-la a fugir? Ou deveria ter contado a verdade?
Uma coisa é certa: esse segredo não ficará enterrado para sempre.
E quando Thiago descobrir… nada mais será como antes.
Minha cabeça lateja. Meu peito pesa. Meu coração martela no peito como se quisesse sair e escapar dessa confusão que me sufoca.
Fiz a coisa certa?
Ou fui a maior traidora que Thiago já teve na vida?
Ele sempre foi mais do que meu primo. Era meu amigo, meu confidente, a pessoa com quem eu podia contar em qualquer momento da minha vida. Crescemos juntos, lado a lado, dividindo sonhos, medos, segredos. E agora… agora sou a responsável por esconder da vida dele a mulher que ele tanto procura.
E quando ele descobrir?
Porque ele vai descobrir.
A verdade sempre encontra um jeito de vir à tona, não importa o quanto tentemos enterrá-la.
Meu estômago revira, minhas mãos suam. Me vejo em um labirinto sem saída. Se eu contar a Thiago agora, perco Helena. Mas se continuar escondendo, o dia que ele souber… ele nunca mais vai olhar para mim da mesma forma.
Como eu poderia trair o homem que sempre me protegeu?
Mas como eu poderia trair minha melhor amiga, a mulher que confia em mim mais do que em qualquer outra pessoa no mundo?
— Thais?
A voz de Helena me puxa de volta. Olho para ela e vejo o mesmo medo refletido em seus olhos.
— Você acha que fizemos certo? — Ela murmura, e sua vulnerabilidade me atinge como um soco.
Não sei.
Eu queria dizer que sim. Queria ter certeza de que ajudá-la a fugir foi a melhor escolha. Mas, no fundo, uma sombra de dúvida me corrói.
— Eu só… eu só não quero perder ninguém. — Minha voz sai quase num sussurro.
Porque é isso que vai acontecer no final.
De um jeito ou de outro, alguém vai sair machucado.
E eu não sei se estou pronta para lidar com isso.
O céu lá fora começa a clarear, mas o peso no meu peito não diminui. Passo a noite em claro, virando de um lado para o outro, minha mente um caos.
Imagino a expressão de Thiago quando descobrir. O olhar de mágoa. O tom de voz carregado de traição. Ele vai me odiar?
A ideia me assusta mais do que qualquer coisa.
Ele sempre foi minha família. Meu porto seguro. A pessoa que segurava minha mão quando eu achava que tudo estava desmoronando.
E agora sou eu quem vai desmoronar a vida dele.
Talvez eu ainda tenha tempo de consertar as coisas. Talvez eu devesse contar tudo a ele antes que descubra sozinho. Mas então olho para Helena, dormindo no sofá, o rosto ainda marcado pela angústia, e percebo que não posso.
Porque, no final das contas, qualquer escolha que eu faça vai destruir alguém.
E eu não sei se estou pronta para lidar com isso.
Ainda.
Mas, quando Thiago descobrir…
Eu sei que o amor que ele sente por mim pode não ser suficiente para me perdoar.
E talvez essa seja a maior dor de todas.