6 Uma Escolha a se Fazer

793 Words
Helena Dias Vasconcelos O silêncio pesa sobre mim como uma sentença. O que Thaís disse ainda ecoa na minha mente, cada palavra me sufoca, me prende em um labirinto de escolhas. Meu peito aperta, minhas mãos tremem, e uma onda de desespero me consome. Será que tenho coragem de voltar? Se eu voltar, poderei terminar minha faculdade. Mas e meu pai? Ele me aceitaria de volta? E Thiago... será que conseguiria olhar nos olhos dele de novo? Meu coração martela no peito só de pensar. Deito no sofá, as lágrimas quentes deslizam pelo meu rosto, trazendo consigo o peso da minha indecisão. O sono me vence, mas não me traz descanso. Acordo sobressaltada. O relógio marca seis da manhã. Thaís ainda dorme no outro sofá. O nó na minha garganta ainda está lá. Preciso sair, preciso respirar. Saio de casa sem rumo, deixando o vento frio da manhã secar meu rosto. Ando até encontrar um canto qualquer na grama e me deixo cair, abraçando meus próprios joelhos. As lágrimas voltam, teimosas, e com elas a certeza: se eu ficar, vou destruir a vida da minha melhor amiga. Vou fazê-la mentir para todos, para Thiago, para minha família. E se descobrirem? Thaís perderia tudo. Não posso fazer isso com ela. Uma decisão se forma em minha mente, pesada, amarga, mas inevitável. Vou embora. Para longe. Para um lugar onde ninguém possa me encontrar. Sei que Thiago jamais me perdoará por isso. Estou tirando dele o direito de conhecer seu próprio filho. Mas sou covarde demais para enfrentá-lo. Para enfrentar a todos. Se eu ficar, serei consumida pelo medo. Se eu partir, pelo menos posso tentar recomeçar. Volto para casa e encontro Thaís preparando o café da manhã. Seu olhar curioso me atravessa. — Onde você estava? — ela pergunta, a voz carregada de preocupação. — Precisei andar um pouco... pensar no que você disse ontem. — Minha voz soa distante, quase mecânica. — E então? O que decidiu? Desvio o olhar. A verdade lateja dentro de mim, mas não posso dizê-la. Não agora. — Ainda não sei... — minto. — Só sei que ninguém pode saber que estou aqui. E você... você não pode mentir por mim. Não quero que corra esse risco. Ela franze a testa. — Está me mandando embora, é isso? — Não! — n**o, mas minha voz sai fraca. — Só quero entender o que fazer. O café da manhã transcorre em silêncio, com olhares trocados e palavras não ditas. Depois, tomo um banho demorado, deixando a água quente tentar levar embora a culpa que me corrói. Quando volto para a sala, Thaís me encara com os braços cruzados. — Helena, você precisa decidir. Se vai ficar, se vai voltar, ou se vai desaparecer. Mas uma coisa eu te peço... — sua voz embarga. — Não me deixe no escuro. Me prometa que, qualquer decisão que tomar, eu serei a primeira a saber. Baixo os olhos. Não posso prometer isso. — Thaís, eu... — minha voz falha. — Eu te amo muito. Você é minha melhor amiga. Ela me puxa para um abraço apertado, e eu luto para conter as lágrimas. Sei que estou prestes a machucá-la como nunca. Horas depois, Thaís parte. A casa fica vazia, e eu sinto o peso do que estou prestes a fazer. Com os olhos marejados, começo a arrumar minha mala. Levo apenas o essencial, mas quando olho para o resto das minhas coisas, percebo que não posso deixar nada para trás. Isso tornaria minha fuga ainda mais óbvia. Suspiro, sento no sofá do quarto e fecho os olhos por um momento. Estou mesmo fazendo isso? Sim. Estou. Escrevo uma carta para Thaís, explicando, ou tentando explicar, o porquê da minha escolha. Não espero que ela entenda. Nem que me perdoe. Só quero que saiba que nunca a esqueci. Então, chamo um táxi e deixo a chave da casa sob o tapete. Antes de sair pelo portão, hesito. Se eu olhar para trás, sei que não conseguirei ir embora. Então, respiro fundo e sigo em frente. O táxi me deixa no aeroporto. Pago a corrida, e nesse instante, meu telefone toca. Olho para a tela. Meu coração para. Meu pai. Minha mão hesita sobre o aparelho. Atender? Não atender? Engulo em seco e, sem pensar duas vezes, desligo o telefone. Preciso seguir em frente. Antes de embarcar, compro um novo chip. Apago todas as mensagens. Todos os vestígios de quem eu fui. Adeus, Califórnia. Adeus, papai. Adeus, Thaís. Adeus, Thiago... Entro no avião com o coração apertado e o olhar perdido no horizonte. Será que um dia voltarei? Será que algum dia serei perdoada? Ou será que, lá no fundo, essa será uma ferida que nunca cicatrizará? E se... um dia eles me encontrarem?
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