📖 Almas de Fera
Capítulo 88 – Instintos e Cuidado
A manhã seguia calma no quarto real, com a luz dourada a atravessar as cortinas e a cair suavemente sobre a cama onde Zaira descansava.
Kael continuava sentado, com a pequena raposa aninhada no seu colo, como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo.
Selene observava em silêncio, satisfeita por finalmente ver a filha em paz.
Foi então que a porta se abriu novamente.
Uma das servas entrou com passos cuidadosos, segurando uma bandeja coberta.
— Majestade… — disse ela, inclinando-se. — O curandeiro preparou isto.
O ambiente mudou ligeiramente.
Zaira ergueu imediatamente as orelhas.
Kael também ficou atento.
— O que é? — perguntou ele.
A serva hesitou por um segundo, depois aproximou-se e colocou a bandeja sobre a mesa.
Ao retirar a cobertura, revelou-se carne fresca e crua, cuidadosamente preparada em pedaços pequenos e limpos.
Selene franziu ligeiramente a testa.
— Carne crua?
A serva assentiu.
— O curandeiro disse que é para a princesa. Para ajudar na nutrição e na recuperação da energia.
Kael olhou para Selene.
— Isso é normal?
Selene pensou por um momento.
— Para raposas reais… especialmente em forma instintiva… pode ser.
Nesse instante, Zaira já tinha mudado completamente de comportamento.
O seu corpo ficou mais atento.
As orelhas estavam erguidas.
A cauda mexia lentamente.
Kael percebeu imediatamente.
— Estás com fome?
Zaira não respondeu com palavras.
Ela apenas se levantou no colo dele… e inclinou-se na direção da bandeja.
Selene sorriu levemente.
— O instinto dela está a assumir o controlo.
Kael colocou-a cuidadosamente na cama.
— Devagar.
A pequena raposa saltou para a mesa com leveza.
Durante alguns segundos, apenas cheirou a carne.
Depois começou a comer.
Rápido.
Mas não de forma descontrolada — mais como alguém que finalmente está a repor algo que faltava há muito tempo.
Kael observava em silêncio.
— Nunca a vi assim…
Selene aproximou-se.
— É a forma mais pura dela. Sem preocupações, sem responsabilidades… apenas instinto e sobrevivência.
Zaira parou por um segundo, olhou para eles… e voltou a comer.
Arion entrou nesse momento no quarto.
— Desculpem interromper.
Todos olharam para ele.
— Recebemos um relatório das fronteiras do norte.
Kael limpou as mãos e levantou-se imediatamente.
— Fala.
Arion entregou-lhe o documento.
— Pequenos sinais de atividade mágica estranha. Nada confirmado, mas os guardas dizem que a energia parece… instável.
Selene ficou séria.
— Ainda há consequências do que aconteceu no templo.
Kael apertou o papel.
— Vharok.
O nome caiu pesado no quarto.
Zaira parou de comer por um segundo.
As orelhas dela baixaram ligeiramente.
Kael olhou para ela.
— Não te preocupes.
Zaira desviou o olhar, mas aproximou-se lentamente dele outra vez, como se quisesse garantir que ele continuava ali.
Selene suspirou.
— Ela sente tudo.
Arion cruzou os braços.
— E isso pode ser perigoso.
Kael respondeu firme:
— Não enquanto eu estiver aqui.
Zaira voltou a comer, mais calma desta vez.
Mas agora, ocasionalmente, olhava para Kael entre cada pedaço, como se precisasse confirmar constantemente que ele não ia desaparecer.
Selene reparou nisso e baixou o olhar, emocionada.
— Ela não está apenas a recuperar o corpo…
Kael olhou para ela.
— O que queres dizer?
Selene respondeu suavemente:
— Ela ainda está a recuperar a confiança.
Silêncio.
Kael aproximou-se da mesa, colocou a mão suavemente sobre o pelo dela.
— Então vamos dar-lhe isso… um dia de cada vez.
Zaira encostou-se à mão dele.
E continuou a comer em silêncio.
Lá fora, o mundo continuava instável.
Mas naquele quarto…
Havia apenas família.
E um começo de cura.
Continua...