📘 Almas de Fera
Capítulo 76 – A Dor de uma Mãe
O mundo inteiro de Selene desabou de uma só vez, estilhaçando‑se como vidro fino, no exato instante em que viu a sua menina ser engolida pela escuridão profunda e sem fundo daquela f***a n***a. Não houve aviso, não houve tempo, apenas o vazio que levava consigo a coisa mais preciosa que ela tinha na vida.
— ZAIRA!!
O grito rasgou‑lhe a garganta, ecoou pelas pedras em ruínas do templo e espalhou‑se como um lamento por todo o ar, quebrando o silêncio pesado e aterrador que se instalara. Foi um grito que vinha das profundezas do seu ser, cheio de amor, de medo e de uma dor que parecia capaz de m***r naquele mesmo instante.
Selene lançou‑se imediatamente em direção ao abismo, os pés a correr sem medo de nada, como se o seu próprio corpo tivesse decidido ignorar o perigo, a morte, tudo — só existia a necessidade de alcançar a filha.
Mas Arion foi mais rápido: agarrou‑a com toda a força que ainda lhe restava, envolvendo‑lhe os braços à volta da cintura e puxando‑a para trás com desespero.
— NÃO!! Não vás, por amor de tudo o que é sagrado, não vás!!
— Larga‑me! Larga‑me agora mesmo! — gritou ela, debatendo‑se com uma força desesperada que nunca ninguém vira nela, a voz partida e em lágrimas. — A minha filha está ali! A minha menina caiu para ali e eu tenho de a ir buscar! De a trazer de volta!
Os seus olhos encheram‑se de água de imediato, transbordando em lágrimas grossas e quentes que corriam sem parar pelas faces, molhando a pele e o vestido real. E naquele momento terrível, algo dentro do seu coração e da sua mente partiu‑se ao meio, como uma corrente antiga que finalmente cede sob o peso.
De repente, vieram‑lhe todas as memórias de uma vez só, avançando sobre ela como uma enchente violenta que não se pode deter:
O dia em que descobriu que trazia uma vida dentro de si — o susto, a alegria, o brilho nos olhos de Arion ao saber.
As noites em que falava baixinho com a barriga, contando histórias, prometendo amor e p******o eterna.
A primeira vez que sentiu aqueles pequenos movimentos suaves, como borboletas a baterem asas no seu interior — a certeza de que ali crescia algo maravilhoso.
O parto longo e doloroso, as mãos trémulas, o medo de não resistir… e depois o primeiro choro pequeno e forte da bebé, o momento em que a puseram nos seus braços pequenos, quente, frágil, perfeita, com aqueles mesmos olhos verdes que depois cresceram tão belos.
Os primeiros passos cambaleantes pelos corredores frios do palácio, até cair e levantar‑se sorrindo outra vez.
As risadas cristalinas a correr pelos jardins, perseguindo borboletas ou escondendo‑se atrás das árvores altas.
O dia em que, pela primeira vez, a vozinha doce e tímida chamou “Mãe”… e o coração de Selene quase parou de tanta felicidade.
Cada sorriso, cada abraço apertado, cada doença em que a segurou a noite toda, cada conselho dado, cada lágrima que secou, cada sonho que partilharam… toda a sua vida, toda a sua história, tudo passou‑lhe pela mente num relance, com uma clareza dolorosa e devastadora.
Ela levou as duas mãos ao rosto, cobrindo‑o, os dedos a tremerem violentamente.
— Não… não, não, não… por favor, não seja verdade… — murmurou, quase sem som, a voz a desaparecer‑lhe na garganta.
E depois ergueu‑se de novo, rasgando o ar com o seu brado de angústia:
— ZAIRA!! VOLTA PARA MIM, MINHA PEQUENA ESTRELA!!
Tentou soltar‑se de novo, puxando‑se com todas as forças contra o aperto do marido, os pés a escorregarem no chão cheio de poeira e pedras partidas.
— Eu vou buscá‑la! Não importa o que haja ali, eu vou e trago‑a de volta comigo!
Mas Arion segurava‑a firme, os braços cansados mas determinados, e até ele tinha os olhos cheios de lágrimas que teimavam em cair, rolando pelas suas barbas e faces marcadas pelo tempo.
— Selene… minha querida… por favor… tenta ser forte… — pediu ele, a voz a tremer tanto quanto a dela, cheia de uma dor igualmente grande.
Não era uma ordem de rei. Era o pedido desesperado de um pai que também acabava de ver o seu mundo ruir.
Ela virou‑se para ele de repente, os olhos vermelhos e rasos de água, a desolação estampada em cada linha do seu rosto.
— Como é que queres que eu seja forte?! — perguntou ela, magoada e revoltada. — Como é possível pedires‑me isso quando a minha própria carne e sangue desaparece diante dos meus olhos?! É a minha filha! A menina que eu carreguei, que criei, que amei mais do que a própria vida!
Puxou‑lhe o braço outra vez, tentando afastá‑lo.
— Deixa‑me ir, Arion… deixa‑me ir ter com ela…
Ele fechou os olhos por um instante, respirou fundo com imensa dificuldade, como se o ar já não chegasse aos pulmões. Quando os abriu, o olhar estava pesado e sofrido, mas a voz saiu baixa, doce e firme ao mesmo tempo:
— Eu sei… eu sei melhor do que ninguém o que estás a sentir… — disse ele, apertando‑a contra o peito, sentindo‑a tremer toda, soluçar e quase desfazer‑se nos seus braços. — Eu também estou a perder tudo aqui dentro… o meu coração também caiu ali com ela… mas se formos atrás dela assim, sem saber o que nos espera… nós também desaparecemos para sempre. E quem restará para a lembrar? Quem restará para um dia a tentar salvar verdadeiramente?
Selene caiu de joelhos no chão áspero, o corpo todo a ceder‑lhe sob o peso da perda, os soluços a sacudirem‑lhe o peito forte e dolorosamente. Ainda assim, os seus olhos permaneciam pregados àquela escuridão sem fim, como se esperasse ver a silhueta da filha aparecer a qualquer momento, voltando para ela.
— Zaira… minha menina… — sussurrou muito baixinho, quase sem voz, estendendo uma mão vazia na direção do abismo. — Por favor… volta para mim… não deixes a tua mãe aqui sozinha…
Alguns metros mais à frente, Kael estava parado, imóvel como uma estátua de pedra. Os punhos cerrados com tanta força que as unhas lhe perfuravam a pele e o sangue escorria devagar pelas palmas abertas. Todo o seu corpo tremia, sacudido por uma mistura terrível de raiva cega, desespero profundo e uma saudade que ainda nem começara mas já doía mais do que qualquer ferida mortal.
Ele não chorava ainda — estava demasiado atordoado, demasiado vazio dentro de si para conseguir derramar uma lágrima. Mas os seus olhos estavam perdidos, vidrados naquela mesma escuridão n***a que lhe roubara tudo o que ele amava.
— Zaira… — saiu‑lhe uma voz muito baixa, quebrada, quase um sussurro de quem fala com uma sombra. — Não te deixei… não te defendi o suficiente… perdoa‑me…
E então, devagar, com um movimento pesado e determinado, ele deu um passo em frente. Depois outro. Caminhava direto para a beira do abismo, sem hesitar, sem olhar para mais ninguém — pronto a seguir‑lhe, a cair também, a enfrentar o que houvesse, só para estar ao lado dela outra vez.
Selene viu‑o por entre a sua própria dor e levantou‑se num impulso, estendendo‑lhe a mão num último grito de alerta:
— Kael, não! Não vás também, por favor!
Mas o jovem rei não respondeu, nem virou a cabeça. O seu olhar continuava preso à escuridão, vendo apenas o rosto da sua amada ali perdida. E pela primeira vez desde que tudo começara, ele não temia nada — nem a morte, nem o desconhecido — parecia pronto a mergulhar naquela noite eterna se fosse preciso para a encontrar.
O chão continuava a tremer suavemente à volta de todos, como se o mundo inteiro estivesse de luto. E ali, diante daquela ferida aberta na terra, restavam apenas a dor de uma mãe, o silêncio de um pai desfeito e o amor de um homem disposto a tudo perder por quem amava.
continua😭....