📖 Almas de Fera
Capítulo 104 – Cartas para o Meu Leão
Na manhã seguinte, depois do pequeno-almoço, Zaira permaneceu algum tempo sentada junto à grande janela dos seus aposentos.
A luz do sol iluminava a mesa de madeira onde havia tinta, penas e folhas de pergaminho.
Ela observou tudo em silêncio.
Depois sorriu.
— Ele escreve para mim todos os dias...
Selene, que estava a bordar numa poltrona próxima, levantou o olhar.
— Então porque não lhe escreves também?
Zaira piscou os olhos.
— Eu...
Ela olhou novamente para a mesa.
Era verdade.
Recebia cartas dele constantemente.
Mas nunca tinha parado para pensar que também podia enviar as suas.
A rainha sorriu.
— Tenho a certeza de que ele vai ficar muito feliz.
Zaira levantou-se lentamente.
Uma das mãos apoiava a barriga já bastante grande, enquanto a outra se apoiava na mesa para manter o equilíbrio.
Sentou-se cuidadosamente na cadeira.
Pegou na pena.
Mas ficou parada.
— O que escrevo?
Selene riu baixinho.
— Escreve aquilo que estás a sentir.
Zaira respirou fundo.
Molhou a ponta da pena na tinta.
E começou.
As primeiras palavras saíram devagar.
Depois, quase sem perceber, a tinta foi preenchendo o pergaminho.
Ela contou que estava a descansar melhor.
Que os filhotes estavam cada vez mais ativos.
Que a mãe e o pai não a deixavam fazer praticamente nada sozinha.
Que sentia saudades dele em todos os momentos do dia.
Quando terminou, releu tudo.
Sorriu timidamente.
— Acho que ficou bom...
Selene aproximou-se.
— Posso ver?
Zaira entregou-lhe a carta.
A rainha leu atentamente.
No final, sorriu com os olhos brilhantes.
— Está linda.
Zaira corou ligeiramente.
— Achas mesmo?
— Tenho a certeza de que ele vai guardá-la para sempre.
Pouco depois, uma águia mensageira foi preparada.
Zaira aproximou-se da varanda.
Segurava cuidadosamente o pergaminho enrolado.
Acariciou a cabeça da ave.
— Leva-a até ele.
A águia abriu as asas.
Com um forte bater de asas, desapareceu no céu.
Zaira acompanhou-a com o olhar até deixar de a conseguir ver.
Depois colocou uma mão sobre o ventre.
— Agora é esperar...
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Dois dias mais tarde...
No Reino dos Leões.
Kael encontrava-se na sala do conselho.
Vários nobres discutiam mapas e tratados comerciais.
Um conselheiro falava sem parar sobre colheitas.
Outro discutia patrulhas.
Foi então que alguém bateu à porta.
— Majestade.
Um guarda entrou sorrindo.
— Chegou uma carta.
Kael levantou imediatamente a cabeça.
— De quem?
O guarda entregou-lhe o pergaminho.
Assim que viu a pequena fita vermelha que Selene costumava usar nas mensagens da família, um enorme sorriso apareceu-lhe no rosto.
— É dela...
Os conselheiros trocaram olhares divertidos.
Um deles sorriu.
— Majestade... pode ler. Nós esperamos.
Kael nem tentou esconder a felicidade.
Abriu rapidamente a carta.
À medida que lia, o sorriso tornava-se cada vez maior.
Chegou mesmo a rir baixinho ao ler a parte em que Zaira dizia que os pequenos pareciam querer transformar a barriga dela num campo de corridas.
Um dos generais aproximou-se.
— Boas notícias?
Kael dobrou cuidadosamente a carta.
— As melhores possíveis.
Levantou-se.
Olhou novamente para o pergaminho.
Depois levou-o cuidadosamente ao peito.
— Ela escreveu-me.
O velho conselheiro sorriu.
— Então hoje será impossível tirar esse sorriso do vosso rosto.
Kael riu.
— Provavelmente.
Naquela noite, já sozinho nos seus aposentos, voltou a ler a carta.
Uma vez.
Duas.
Três.
No final, colocou-a cuidadosamente dentro de uma pequena caixa de madeira onde guardava apenas os objetos mais importantes da sua vida.
Ao lado da primeira flor que Zaira lhe oferecera.
E do lenço bordado por ela meses antes.
Sentou-se junto à janela e começou imediatamente a escrever outra resposta.
Porque, enquanto a distância os separava, aquelas cartas eram a forma de continuarem juntos, um pouco todos os dias.
Continua...