📖 Almas de Fera
CapÃtulo 103 – Dias de Espera
Os dias começaram a seguir um ritmo diferente.
Sem Kael no palácio, Zaira precisou de reaprender a ocupar as horas.
No inÃcio, tudo lhe parecia demasiado silencioso.
Acordava ainda antes do nascer do sol e, por instinto, estendia a mão para o lado da cama.
Encontrava apenas os lençóis frios.
Durante alguns segundos, esquecia-se de que ele tinha regressado ao Reino dos Leões.
Então a memória voltava.
Ela suspirava baixinho.
— Ainda falta um pouco...
Mesmo assim, levantava-se devagar.
A gravidez já mudara completamente a forma como caminhava.
O ventre estava muito grande para a sua estrutura e obrigava-a a apoiar uma das mãos por baixo da barriga sempre que precisava de percorrer distâncias maiores.
As criadas corriam para ajudá-la.
— Princesa, deixe-nos...
— Eu consigo caminhar — respondia ela com um sorriso cansado. — Só preciso de ir mais devagar.
Selene observava tudo discretamente.
Embora continuasse preocupada, sentia algum alÃvio.
A filha já não se escondia.
Já não passava o dia inteiro transformada em raposa debaixo da cama.
Voltava a conversar.
Voltava a sorrir.
Ainda era um sorriso pequeno.
Mas era verdadeiro.
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Todas as manhãs, o curandeiro fazia uma visita.
— Dormiste bem?
— Sim... mais ou menos.
— Os pequenos mexeram muito durante a noite?
Zaira ria.
— Acho que decidiram fazer uma corrida.
O velho curandeiro sorria.
— Isso costuma ser um bom sinal.
Ele verificava cuidadosamente o estado dela.
Media-lhe a pulsação.
Observava a energia mágica.
Depois colocava uma das mãos sobre o ventre, usando uma magia muito suave apenas para confirmar que tudo continuava estável.
Ao terminar, sorria sempre.
— Estão fortes.
Essas duas palavras eram suficientes para tranquilizar toda a famÃlia.
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As cartas de Kael começaram a chegar quase todos os dias.
Algumas eram curtas.
Outras mais longas.
Ele contava como estavam as reuniões, descrevia os jardins do Reino dos Leões já preparados para receber Zaira e dizia que todos perguntavam por ela.
Zaira guardava cada carta numa pequena caixa de madeira.
À noite, antes de dormir, relia algumas.
Selene entrou certa vez nos aposentos e encontrou a filha sorrindo sozinha.
— Outra carta?
Zaira assentiu.
— Ele escreveu que já escolheu um bosque onde quer ensinar os nossos filhotes a correr quando crescerem.
Selene sorriu.
— Ele já está a fazer planos para eles.
— Desde o primeiro dia.
A rainha aproximou-se e abraçou a filha com cuidado.
— Tiveste sorte em encontrá-lo.
Zaira encostou a cabeça ao ombro da mãe.
— Eu sei.
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Naquela tarde, o céu estava limpo.
Arion sugeriu que todos almoçassem num pequeno terraço voltado para os jardins.
Os criados prepararam uma mesa simples.
Frutas.
Pães.
Queijos.
Chá.
E os pratos recomendados pelo curandeiro.
Zaira caminhou lentamente até lá.
Assim que se sentou, soltou um longo suspiro.
— Ufa...
Arion sorriu.
— Muito pesado?
Ela olhou para o próprio ventre e riu.
— Acho que eles estão a crescer a cada hora.
O rei das Raposas colocou uma taça de fruta mais perto da filha.
— Então vais precisar de muita energia.
Ela pegou numa fatia de fruta.
Antes de dar a primeira dentada, porém...
Parou.
Inclinou ligeiramente a cabeça.
— Esperem...
Selene olhou para ela.
— O que foi?
Zaira levou as duas mãos ao ventre.
Ficou completamente imóvel.
Depois começou a rir.
— Outra vez?
Arion levantou-se imediatamente.
— Está tudo bem?
Ela assentiu, ainda rindo.
— Sim...
— Então por que estás a rir?
— Porque parece que um deles acabou de empurrar o outro.
Todos riram junto com ela.
Poucos segundos depois, outro movimento.
Mais forte.
Zaira deixou escapar um pequeno "ai", mas continuou sorrindo.
— São muito ativos.
Selene aproximou-se.
— Posso sentir?
— Claro.
A rainha colocou delicadamente a mão sobre o ventre da filha.
Esperou.
Durante alguns instantes, nada aconteceu.
Então...
Um pequeno movimento respondeu ao toque.
Os olhos de Selene encheram-se de lágrimas.
— Estão mesmo aÃ...
Arion também colocou a mão, emocionado.
— m*l posso esperar para conhecer os meus netos.
Zaira observava os dois em silêncio.
Nunca imaginara que aquele momento tão simples pudesse aquecer tanto o seu coração.
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Ao anoitecer, regressou aos aposentos.
Tomou um banho quente preparado pelas criadas.
Vestiu uma túnica confortável.
Sentou-se junto à janela.
A lua iluminava os jardins.
O vento fazia balançar as árvores.
Ela levou novamente as mãos ao ventre.
— O vosso pai deve estar a trabalhar até tarde...
Um pequeno movimento respondeu.
Ela sorriu.
— Também sentem saudades dele?
Outro movimento.
Mais um.
Ela soltou uma gargalhada.
— Está bem... quando ele voltar, vou dizer que passaram os dias todos a reclamar da demora.
Recostou-se lentamente na poltrona.
Fechou os olhos.
Pela primeira vez desde que Kael partira, o vazio da distância parecia um pouco menor.
Porque, mesmo sem ele ali, Zaira já não enfrentava os dias sozinha.
Tinha a sua famÃlia.
Tinha os pequenos que cresciam a cada dia.
E tinha a promessa de que, muito em breve, Kael regressaria para estar ao lado dela quando chegasse o momento mais importante das suas vidas.
Continua...