dias de espera

850 Words
📖 Almas de Fera Capítulo 103 – Dias de Espera Os dias começaram a seguir um ritmo diferente. Sem Kael no palácio, Zaira precisou de reaprender a ocupar as horas. No início, tudo lhe parecia demasiado silencioso. Acordava ainda antes do nascer do sol e, por instinto, estendia a mão para o lado da cama. Encontrava apenas os lençóis frios. Durante alguns segundos, esquecia-se de que ele tinha regressado ao Reino dos Leões. Então a memória voltava. Ela suspirava baixinho. — Ainda falta um pouco... Mesmo assim, levantava-se devagar. A gravidez já mudara completamente a forma como caminhava. O ventre estava muito grande para a sua estrutura e obrigava-a a apoiar uma das mãos por baixo da barriga sempre que precisava de percorrer distâncias maiores. As criadas corriam para ajudá-la. — Princesa, deixe-nos... — Eu consigo caminhar — respondia ela com um sorriso cansado. — Só preciso de ir mais devagar. Selene observava tudo discretamente. Embora continuasse preocupada, sentia algum alívio. A filha já não se escondia. Já não passava o dia inteiro transformada em raposa debaixo da cama. Voltava a conversar. Voltava a sorrir. Ainda era um sorriso pequeno. Mas era verdadeiro. --- Todas as manhãs, o curandeiro fazia uma visita. — Dormiste bem? — Sim... mais ou menos. — Os pequenos mexeram muito durante a noite? Zaira ria. — Acho que decidiram fazer uma corrida. O velho curandeiro sorria. — Isso costuma ser um bom sinal. Ele verificava cuidadosamente o estado dela. Media-lhe a pulsação. Observava a energia mágica. Depois colocava uma das mãos sobre o ventre, usando uma magia muito suave apenas para confirmar que tudo continuava estável. Ao terminar, sorria sempre. — Estão fortes. Essas duas palavras eram suficientes para tranquilizar toda a família. --- As cartas de Kael começaram a chegar quase todos os dias. Algumas eram curtas. Outras mais longas. Ele contava como estavam as reuniões, descrevia os jardins do Reino dos Leões já preparados para receber Zaira e dizia que todos perguntavam por ela. Zaira guardava cada carta numa pequena caixa de madeira. À noite, antes de dormir, relia algumas. Selene entrou certa vez nos aposentos e encontrou a filha sorrindo sozinha. — Outra carta? Zaira assentiu. — Ele escreveu que já escolheu um bosque onde quer ensinar os nossos filhotes a correr quando crescerem. Selene sorriu. — Ele já está a fazer planos para eles. — Desde o primeiro dia. A rainha aproximou-se e abraçou a filha com cuidado. — Tiveste sorte em encontrá-lo. Zaira encostou a cabeça ao ombro da mãe. — Eu sei. --- Naquela tarde, o céu estava limpo. Arion sugeriu que todos almoçassem num pequeno terraço voltado para os jardins. Os criados prepararam uma mesa simples. Frutas. Pães. Queijos. Chá. E os pratos recomendados pelo curandeiro. Zaira caminhou lentamente até lá. Assim que se sentou, soltou um longo suspiro. — Ufa... Arion sorriu. — Muito pesado? Ela olhou para o próprio ventre e riu. — Acho que eles estão a crescer a cada hora. O rei das Raposas colocou uma taça de fruta mais perto da filha. — Então vais precisar de muita energia. Ela pegou numa fatia de fruta. Antes de dar a primeira dentada, porém... Parou. Inclinou ligeiramente a cabeça. — Esperem... Selene olhou para ela. — O que foi? Zaira levou as duas mãos ao ventre. Ficou completamente imóvel. Depois começou a rir. — Outra vez? Arion levantou-se imediatamente. — Está tudo bem? Ela assentiu, ainda rindo. — Sim... — Então por que estás a rir? — Porque parece que um deles acabou de empurrar o outro. Todos riram junto com ela. Poucos segundos depois, outro movimento. Mais forte. Zaira deixou escapar um pequeno "ai", mas continuou sorrindo. — São muito ativos. Selene aproximou-se. — Posso sentir? — Claro. A rainha colocou delicadamente a mão sobre o ventre da filha. Esperou. Durante alguns instantes, nada aconteceu. Então... Um pequeno movimento respondeu ao toque. Os olhos de Selene encheram-se de lágrimas. — Estão mesmo aí... Arion também colocou a mão, emocionado. — m*l posso esperar para conhecer os meus netos. Zaira observava os dois em silêncio. Nunca imaginara que aquele momento tão simples pudesse aquecer tanto o seu coração. --- Ao anoitecer, regressou aos aposentos. Tomou um banho quente preparado pelas criadas. Vestiu uma túnica confortável. Sentou-se junto à janela. A lua iluminava os jardins. O vento fazia balançar as árvores. Ela levou novamente as mãos ao ventre. — O vosso pai deve estar a trabalhar até tarde... Um pequeno movimento respondeu. Ela sorriu. — Também sentem saudades dele? Outro movimento. Mais um. Ela soltou uma gargalhada. — Está bem... quando ele voltar, vou dizer que passaram os dias todos a reclamar da demora. Recostou-se lentamente na poltrona. Fechou os olhos. Pela primeira vez desde que Kael partira, o vazio da distância parecia um pouco menor. Porque, mesmo sem ele ali, Zaira já não enfrentava os dias sozinha. Tinha a sua família. Tinha os pequenos que cresciam a cada dia. E tinha a promessa de que, muito em breve, Kael regressaria para estar ao lado dela quando chegasse o momento mais importante das suas vidas. Continua...
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