📖 Almas de Fera
Capítulo 3 – Segredos e Confiança
Os dias passaram lentamente no palácio da Tribo dos Leões.
A pequena raposa, agora chamada de Faísca por Kael, recuperava-se pouco a pouco. As feridas já não eram tão graves, mas Zaira continuava incapaz de voltar à sua forma híbrida.
Ela não entendia completamente o motivo. Talvez tivesse gasto energia demais no acidente. Talvez o seu corpo ainda estivesse demasiado fraco.
Por enquanto, só podia esperar.
Enquanto isso, Kael continuava sem suspeitar de nada.
Todas as manhãs, antes mesmo das reuniões reais, o rei passava nos seus aposentos para verificar como a pequena raposa estava.
— Vejo que já consegues andar melhor — comentou Kael numa manhã.
Zaira, que caminhava cuidadosamente pelo quarto, ergueu imediatamente a cabeça.
Ela já conseguia andar sem mancar, embora ainda sentisse algumas dores.
Kael aproximou-se.
— Isso é bom. Significa que em breve poderás regressar à natureza.
Ao ouvir aquelas palavras, Zaira congelou.
Voltar?
Ela não podia voltar naquele estado. Além disso, ainda não sabia se o seu povo a estava a procurar ou sequer se a fronteira continuava segura.
Sem pensar, aproximou-se rapidamente e agarrou a roupa de Kael com as pequenas patas.
Kael olhou para ela, surpreso.
— Não queres ir?
Zaira abanou a cabeça energicamente.
O rei permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
— Muito bem. Podes ficar até recuperares totalmente.
A pequena raposa soltou imediatamente a roupa dele.
Kael quase sorriu.
Quase.
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Pouco depois, durante uma reunião no salão principal, um dos conselheiros aproximou-se do trono.
— Majestade, vários nobres estão preocupados.
Kael ergueu o olhar.
— Preocupados com quê?
— Com a raposa.
O salão mergulhou num silêncio absoluto.
— O que há com ela? — perguntou Kael calmamente.
Um nobre deu um passo à frente.
— Não é apropriado que uma simples raposa viva nos aposentos reais.
— Além disso, ninguém sabe de onde veio — acrescentou outro.
— Pode ser perigosa.
Kael permaneceu alguns segundos sem dizer nada.
Então falou:
— Ela está sob a minha p******o.
Ninguém ousou interrompê-lo.
— Enquanto permanecer no meu reino, ninguém lhe fará m*l. Isso é uma ordem.
O assunto morreu ali.
Ou pelo menos foi o que todos pensaram.
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Mais tarde, Kael regressou aos seus aposentos.
Encontrou Faísca sentada junto à enorme janela, observando o horizonte.
Ela parecia triste.
Kael aproximou-se lentamente.
— Estás a pensar na tua família?
Zaira baixou as orelhas.
Sim.
Estava.
Pensava constantemente no seu pai, na sua tribo e nos guardas que provavelmente a procuravam desesperadamente.
Kael sentou-se ao lado dela.
— Também perdi a minha mãe quando era jovem.
Zaira voltou imediatamente a atenção para ele.
Era a primeira vez que Kael falava sobre si mesmo.
— Desde então, aprendi que um rei nem sempre pode demonstrar as suas emoções.
O silêncio instalou-se.
Sem perceber, Zaira aproximou-se e encostou a cabeça ao braço dele.
Kael olhou para a pequena raposa.
Muito lentamente, acariciou-lhe a cabeça.
— Obrigado.
Zaira fechou os olhos.
Pela primeira vez desde o acidente, sentiu-se verdadeiramente segura.
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Naquela mesma noite, porém, longe dali, no território das Raposas, o ambiente era completamente diferente.
No grande palácio de madeira vermelha, guardas corriam de um lado para o outro.
No trono encontrava-se o rei Arion, pai de Zaira.
O seu rosto estava sombrio.
— Ainda não encontraram a princesa?
— Não, Majestade — respondeu um guarda, ajoelhado.
O rei fechou os punhos.
Já tinham passado vários dias.
Nenhum sinal.
Nenhum rasto.
Nada.
Ao lado dele, a rainha Selene tentava manter a calma, mas os seus olhos demonstravam preocupação.
— Ela está viva — disse a rainha firmemente. — Eu consigo sentir.
Arion levantou-se.
— Enviem mais patrulhas. Procurem em todas as fronteiras. Não regressam sem notícias da minha filha.
— Sim, Majestade!
Enquanto isso, sem saber de toda a preocupação da sua família, a princesa Zaira dormia tranquilamente no palácio dos leões.
Mas o destino estava prestes a colocar os dois reinos frente a frente.
Continua...