📖 Almas de Fera
CapÃtulo 95 – Um Ventre Cheio de Esperança
O quarto permanecia mergulhado num silêncio tranquilo.
Kael continuava deitado no chão, junto à cama, sem tentar forçar Zaira a sair.
A pequena raposa mantinha a cabeça apoiada na mão dele.
Pela primeira vez em muitos dias, parecia sentir-se um pouco mais segura.
Foi então que o velho curandeiro se ajoelhou a alguns passos de distância.
Observou Zaira atentamente, sem fazer movimentos bruscos.
Os seus olhos demoraram-se sobre o ventre arredondado da princesa.
A expressão dele mudou.
Selene reparou imediatamente.
— O que foi?
O curandeiro permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
Depois respondeu com calma:
— A barriga dela... está muito maior do que seria esperado nesta fase.
Kael olhou imediatamente para Zaira.
Agora que ela estava um pouco mais estendida debaixo da cama, conseguia ver melhor.
O ventre dela estava realmente muito grande para a pequena forma de raposa.
Mesmo encolhida, era impossÃvel não notar.
Kael sentiu um aperto no coração.
— Isso significa que há algum problema?
O curandeiro abanou a cabeça.
— Ainda não podemos concluir isso.
Selene aproximou-se mais.
— Então por que está tão grande?
O curandeiro respondeu com serenidade.
— Existem várias possibilidades. Pode ser simplesmente uma gestação mais adiantada do que imaginávamos, ou os filhotes podem estar a desenvolver-se muito bem. Precisamos examiná-la antes de tirar conclusões.
Kael voltou a olhar para Zaira.
Ela respirava lentamente.
Parecia muito cansada.
O ventre subia e descia a cada respiração.
Ele acariciou-lhe delicadamente a cabeça.
— Pequena raposa... precisamos cuidar de ti.
Zaira abriu os olhos devagar.
Olhou para Kael.
Depois para o curandeiro.
As orelhas baixaram um pouco.
Ela não parecia querer afastar-se, mas também não queria que ninguém se aproximasse demasiado.
Selene falou com toda a doçura que conseguiu.
— Meu amor... ninguém te vai magoar.
A pequena raposa soltou um som baixo.
— Mrr...
O curandeiro sorriu.
— Não vou fazer nada sem a confiança dela.
Ele retirou-se um pouco, dando-lhe espaço.
Passaram-se alguns minutos.
Kael permaneceu imóvel.
Não insistia.
Não fazia perguntas.
Apenas estava presente.
Lentamente, Zaira começou a sair de debaixo da cama.
Primeiro apareceu o focinho.
Depois as patas dianteiras.
E, por fim, todo o corpo.
Quando ficou completamente visÃvel, todos prenderam a respiração.
O ventre dela estava muito arredondado.
Ao caminhar devagar até Kael, os movimentos eram mais lentos e cuidadosos do que antes, como se o peso a obrigasse a avançar com calma.
Selene levou uma mão ao peito.
— Ela está tão cansada...
Kael inclinou-se e apoiou delicadamente uma mão sob o peito da pequena raposa para ajudá-la a subir para a cama.
Zaira aceitou a ajuda sem resistir.
Assim que se deitou sobre os lençóis macios, suspirou baixinho e fechou os olhos por um instante.
O curandeiro aproximou-se apenas o suficiente para observá-la.
Depois sorriu com tranquilidade.
— O mais importante agora é que ela volte a alimentar-se e descanse. Vamos acompanhá-la de perto todos os dias.
Kael assentiu.
— Não vou sair do lado dela.
Selene sorriu, emocionada.
— Nem nós.
Zaira abriu lentamente os olhos ao ouvir aquelas palavras.
Olhou para a mãe.
Depois para o pai.
Por fim, para Kael.
A cauda moveu-se devagar sobre o colchão.
Como se, finalmente, acreditasse que não precisava mais esconder-se.
E, pela primeira vez em duas semanas, voltou a adormecer num lugar onde podia sentir a presença da sua famÃlia ao seu redor.
Continua...