đź“– Almas de Fera
CapĂtulo 93 – O Mensageiro
O rugido ecoou por todo o Reino das Raposas.
As janelas do palácio vibraram.
Nos corredores, guardas correram para as suas posições.
Os arqueiros ocuparam imediatamente as muralhas.
O som dos portões de ferro a fechar ecoou pelo castelo.
Arion levantou-se de um salto.
— Que ninguém ataque até receber a minha ordem!
— Sim, Majestade!
Os soldados partiram rapidamente.
Kael permaneceu imĂłvel.
Com uma das mĂŁos, segurava Zaira contra o peito.
Com a outra, pousava sobre o punho da espada.
A pequena raposa continuava na forma animal.
Ao ouvir o rugido, o corpo dela enrijeceu por um instante.
Mas, ao contrário do que acontecera semanas antes, ela não entrou em pânico.
Escondeu apenas o focinho na tĂşnica de Kael.
Kael acariciou-lhe o dorso.
— Está tudo bem...
Selene observou a filha atentamente.
— Ela ainda sente medo... mas está a conseguir controlá-lo.
Arion olhou para os dois.
— Venham.
Todos caminharam até à grande varanda do salão principal.
Dali era possĂvel ver os enormes portões do palácio.
Centenas de soldados formavam duas linhas.
Escudos erguidos.
Lanças apontadas.
No centro...
Estava um Ăşnico dragĂŁo.
Era muito menor do que Vharok.
As escamas eram prateadas com reflexos dourados.
As asas permaneciam fechadas junto ao corpo, num claro sinal de que nĂŁo pretendia atacar.
O dragão mantinha a cabeça baixa.
Esperava.
Um dos capitĂŁes aproximou-se de Arion.
— Majestade, ele não fez qualquer movimento hostil desde que chegou.
Kael nĂŁo desviava os olhos do visitante.
— Estranho...
Selene falou em voz baixa.
— Parece estar à espera de autorização.
Arion deu alguns passos Ă frente.
A sua voz ecoou pelos muros do castelo.
— Quem és tu?
O dragão ergueu lentamente a cabeça.
A voz dele era grave, mas calma.
— O meu nome é Aster.
Venho como mensageiro.
— Mensageiro de quem? — perguntou Kael.
— De Vharok.
Os soldados apertaram imediatamente as armas.
O prĂłprio Kael deu um passo em frente.
— Depois de tudo o que aconteceu... esperas que acreditemos nisso?
Aster permaneceu imĂłvel.
— Não espero confiança.
Espero apenas que oiçam a mensagem.
SilĂŞncio.
Arion trocou um olhar com Selene.
Ela fez um pequeno gesto com a cabeça.
— Deixem-no falar.
O dragĂŁo respirou fundo.
— O meu rei não deseja guerra.
Kael soltou uma pequena gargalhada sem humor.
— É uma forma curiosa de demonstrar isso.
Aster baixou novamente a cabeça.
— Compreendo a vossa desconfiança.
Mas Vharok pediu-me que transmitisse estas palavras exatamente como ele as disse.
O dragĂŁo fechou os olhos por um instante.
Depois falou.
— "Digam à Guardiã que o selo continua estável... mas não permanecerá assim para sempre."
Zaira levantou lentamente a cabeça.
As orelhas moveram-se.
Os olhos verdes ficaram presos no mensageiro.
Aster continuou.
— "Ela não precisa confiar em mim. Mas precisa preparar-se."
Kael apertou ainda mais Zaira.
— Preparar-se para quê?
Aster respondeu sem hesitar.
— Para aquilo que despertou no vazio.
O silĂŞncio tornou-se pesado.
Nem o vento parecia soprar.
Selene deu um passo Ă frente.
— Então existe realmente outra ameaça?
Aster assentiu.
— Sim.
Arion cruzou os braços.
— E por que razão Vharok não vem dizer isso pessoalmente?
Durante alguns segundos, o dragĂŁo nĂŁo respondeu.
Depois levantou lentamente o olhar.
— Porque está ferido.
Todos ficaram surpreendidos.
Kael franziu a testa.
— Ferido?
— O colapso do selo consumiu grande parte da energia dele.
Neste momento... está a recuperar.
Selene olhou discretamente para Zaira.
A pequena raposa continuava em silĂŞncio.
Observava Aster atentamente.
Sem rosnar.
Sem demonstrar agressividade.
Apenas curiosidade.
Aster voltou a falar.
— Há mais uma mensagem.
Kael permaneceu atento.
— Fala.
O dragĂŁo olhou diretamente para Zaira.
A voz tornou-se mais suave.
— "Pequena GuardiĂŁ... vive a tua vida. Descansa. Protege a tua famĂlia. Quando chegar o momento... eu prĂłprio irei procurar-te."
Zaira inclinou ligeiramente a cabeça.
Por um instante, recordou o vazio.
Recordou que, no fim, Vharok lhes abrira o caminho para regressarem a casa.
Kael percebeu que ela estava pensativa.
Acariciou-lhe delicadamente a cabeça.
— Não precisas decidir nada agora.
A pequena raposa olhou para ele.
Depois fechou os olhos por um breve instante.
A cauda enrolou-se lentamente à volta do braço dele.
Aster deu alguns passos para trás.
— A minha missão terminou.
Arion levantou uma sobrancelha.
— Vais simplesmente embora?
— Sim.
O dragĂŁo abriu lentamente as asas.
Antes de levantar voo, voltou-se uma Ăşltima vez.
— Espero que, quando nos voltarmos a encontrar... seja em tempos mais pacĂficos.
Com um poderoso bater de asas, Aster elevou-se no céu.
Os soldados acompanharam-no com o olhar até desaparecer entre as nuvens.
No terraço, ninguém falou durante vários minutos.
Cada um refletia sobre as palavras do mensageiro.
Kael apertou Zaira cuidadosamente contra o peito.
— Seja o que for que venha pela frente...
Ele olhou para Selene e Arion.
Depois voltou a olhar para Zaira.
— Vamos enfrentá-lo juntos.
A pequena raposa respondeu com um pequeno som tranquilo.
— Mrr.
Pela primeira vez desde o regresso do templo, ela nĂŁo sentia apenas medo do futuro.
Sentia que não teria de enfrentá-lo sozinha.
Continua...