📖 Almas de Fera
CapÃtulo 110 – Cada Quilómetro Mais Perto
O sol já começava a descer lentamente quando Kael e a sua escolta atravessaram a antiga Ponte de Pedra, a fronteira natural entre o Reino dos Leões e as terras neutras.
O capitão da guarda aproximou-se do rei.
— Majestade, se mantivermos este ritmo, chegaremos ao Reino das Raposas amanhã ao fim da manhã.
Kael olhou para o horizonte.
Parecia uma eternidade.
— Não podemos reduzir as paragens?
O capitão sorriu.
— Ansioso?
Kael soltou uma pequena gargalhada.
— Muito.
O capitão olhou para os outros cavaleiros.
— Podemos descansar apenas o tempo necessário para os cavalos beberem água.
Kael assentiu.
— Obrigado.
A viagem recomeçou.
Os cavalos galopavam pelas antigas estradas que atravessavam as florestas.
As árvores altas formavam um túnel verde por cima da comitiva.
De vez em quando, pequenos animais atravessavam o caminho.
Coelhos.
Veados.
Raposas selvagens.
Kael observava tudo, mas o pensamento continuava preso numa única pessoa.
Imaginava Zaira.
Perguntava-se se ela estaria a descansar.
Se continuava a escrever cartas.
Se os filhotes ainda mexiam tanto.
Sem perceber, levou a mão ao bolso interior do casaco.
Retirou uma das cartas dela.
Era a primeira que recebera.
Já a tinha lido tantas vezes que conhecia quase todas as palavras de memória.
Mesmo assim...
Voltou a lê-la.
Sorriu sozinho.
Um dos jovens guardas, cavalgando um pouco atrás, comentou baixinho para outro:
— Acho que o rei já leu essa carta umas cem vezes.
O outro riu.
— Se fosse da minha companheira, eu fazia o mesmo.
Kael ouviu o comentário.
Em vez de se sentir embaraçado, apenas sorriu.
— Ainda não são cem.
Os dois guardas riram.
O ambiente ficou mais leve.
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Enquanto isso...
No Reino das Raposas...
A noite aproximava-se.
Os corredores do palácio estavam iluminados por lanternas douradas.
Zaira encontrava-se nos seus aposentos.
As criadas ajudavam-na a vestir uma túnica larga e confortável.
A barriga estava agora tão volumosa que algumas das roupas que usava semanas antes já não serviam.
Uma das criadas sorriu.
— Esta ficou perfeita.
Zaira observou-se no enorme espelho.
Passou as mãos pelo ventre.
— Vocês cresceram muito...
Nesse momento...
Sentiu um pequeno pontapé.
Depois outro.
Ela riu.
— Eu sei... também estão a olhar.
As criadas riram discretamente.
Uma delas perguntou:
— Princesa... já pensou em nomes?
Zaira sorriu.
— Ainda não.
— Nem um?
Ela abanou a cabeça.
— Quero escolher com o Kael.
A criada sorriu.
— Tenho a certeza de que ele vai gostar.
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Mais tarde...
Depois do jantar, Selene entrou nos aposentos.
Encontrou a filha sentada na varanda.
A lua iluminava os jardins.
— Não consegues dormir?
Zaira abanou a cabeça.
— Hoje não.
A rainha sentou-se ao lado dela.
— Estás preocupada?
— Não...
Fez uma pequena pausa.
— Apenas sinto que alguma coisa boa está para acontecer.
Selene sorriu.
— Também tenho esse pressentimento.
As duas ficaram alguns minutos em silêncio.
O vento fazia dançar os cabelos ruivos de Zaira.
Ela fechou os olhos.
Respirou profundamente.
Subitamente...
Sentiu os filhotes moverem-se ao mesmo tempo.
Levou imediatamente as mãos ao ventre.
Sorriu.
— Outra vez?
Selene inclinou-se.
— Muito fortes?
— Bastante.
Depois olhou para a estrada principal que conduzia ao palácio.
Mesmo estando completamente vazia...
O coração dela bateu mais depressa.
— Tenho quase a certeza de que ele já está a caminho.
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Na mesma hora...
Kael e a escolta faziam a última paragem da viagem.
Acenderam uma pequena fogueira.
Os cavalos descansavam.
Os soldados preparavam uma refeição simples.
Mas Kael quase não conseguia ficar parado.
O capitão aproximou-se.
— Majestade...
— Sim?
— Ainda faltam algumas horas até amanhecer.
Deveria descansar.
Kael olhou para o céu cheio de estrelas.
Sorriu.
— Sabes...
Há semanas que sonho com este momento.
— Qual?
— O momento em que volto a vê-la.
O capitão sorriu.
— Então amanhã será um grande dia.
Kael assentiu.
— O maior de todos.
Antes de se deitar, retirou novamente do bolso uma das cartas de Zaira.
Leu apenas a última frase.
"Volta quando puderes... mas volta em segurança."
Ele levou o pergaminho ao peito.
Olhou para a lua.
A mesma lua que, naquele instante, iluminava o Reino das Raposas.
— Estou quase aÃ, pequena raposa...
Muito perto.
Sem que nenhum dos dois soubesse, o destino preparava finalmente o reencontro que ambos esperavam havia tantas semanas.
Continua...