Cada quilómetro mas perto

729 Words
📖 Almas de Fera Capítulo 110 – Cada Quilómetro Mais Perto O sol já começava a descer lentamente quando Kael e a sua escolta atravessaram a antiga Ponte de Pedra, a fronteira natural entre o Reino dos Leões e as terras neutras. O capitão da guarda aproximou-se do rei. — Majestade, se mantivermos este ritmo, chegaremos ao Reino das Raposas amanhã ao fim da manhã. Kael olhou para o horizonte. Parecia uma eternidade. — Não podemos reduzir as paragens? O capitão sorriu. — Ansioso? Kael soltou uma pequena gargalhada. — Muito. O capitão olhou para os outros cavaleiros. — Podemos descansar apenas o tempo necessário para os cavalos beberem água. Kael assentiu. — Obrigado. A viagem recomeçou. Os cavalos galopavam pelas antigas estradas que atravessavam as florestas. As árvores altas formavam um túnel verde por cima da comitiva. De vez em quando, pequenos animais atravessavam o caminho. Coelhos. Veados. Raposas selvagens. Kael observava tudo, mas o pensamento continuava preso numa única pessoa. Imaginava Zaira. Perguntava-se se ela estaria a descansar. Se continuava a escrever cartas. Se os filhotes ainda mexiam tanto. Sem perceber, levou a mão ao bolso interior do casaco. Retirou uma das cartas dela. Era a primeira que recebera. Já a tinha lido tantas vezes que conhecia quase todas as palavras de memória. Mesmo assim... Voltou a lê-la. Sorriu sozinho. Um dos jovens guardas, cavalgando um pouco atrás, comentou baixinho para outro: — Acho que o rei já leu essa carta umas cem vezes. O outro riu. — Se fosse da minha companheira, eu fazia o mesmo. Kael ouviu o comentário. Em vez de se sentir embaraçado, apenas sorriu. — Ainda não são cem. Os dois guardas riram. O ambiente ficou mais leve. --- Enquanto isso... No Reino das Raposas... A noite aproximava-se. Os corredores do palácio estavam iluminados por lanternas douradas. Zaira encontrava-se nos seus aposentos. As criadas ajudavam-na a vestir uma túnica larga e confortável. A barriga estava agora tão volumosa que algumas das roupas que usava semanas antes já não serviam. Uma das criadas sorriu. — Esta ficou perfeita. Zaira observou-se no enorme espelho. Passou as mãos pelo ventre. — Vocês cresceram muito... Nesse momento... Sentiu um pequeno pontapé. Depois outro. Ela riu. — Eu sei... também estão a olhar. As criadas riram discretamente. Uma delas perguntou: — Princesa... já pensou em nomes? Zaira sorriu. — Ainda não. — Nem um? Ela abanou a cabeça. — Quero escolher com o Kael. A criada sorriu. — Tenho a certeza de que ele vai gostar. --- Mais tarde... Depois do jantar, Selene entrou nos aposentos. Encontrou a filha sentada na varanda. A lua iluminava os jardins. — Não consegues dormir? Zaira abanou a cabeça. — Hoje não. A rainha sentou-se ao lado dela. — Estás preocupada? — Não... Fez uma pequena pausa. — Apenas sinto que alguma coisa boa está para acontecer. Selene sorriu. — Também tenho esse pressentimento. As duas ficaram alguns minutos em silêncio. O vento fazia dançar os cabelos ruivos de Zaira. Ela fechou os olhos. Respirou profundamente. Subitamente... Sentiu os filhotes moverem-se ao mesmo tempo. Levou imediatamente as mãos ao ventre. Sorriu. — Outra vez? Selene inclinou-se. — Muito fortes? — Bastante. Depois olhou para a estrada principal que conduzia ao palácio. Mesmo estando completamente vazia... O coração dela bateu mais depressa. — Tenho quase a certeza de que ele já está a caminho. --- Na mesma hora... Kael e a escolta faziam a última paragem da viagem. Acenderam uma pequena fogueira. Os cavalos descansavam. Os soldados preparavam uma refeição simples. Mas Kael quase não conseguia ficar parado. O capitão aproximou-se. — Majestade... — Sim? — Ainda faltam algumas horas até amanhecer. Deveria descansar. Kael olhou para o céu cheio de estrelas. Sorriu. — Sabes... Há semanas que sonho com este momento. — Qual? — O momento em que volto a vê-la. O capitão sorriu. — Então amanhã será um grande dia. Kael assentiu. — O maior de todos. Antes de se deitar, retirou novamente do bolso uma das cartas de Zaira. Leu apenas a última frase. "Volta quando puderes... mas volta em segurança." Ele levou o pergaminho ao peito. Olhou para a lua. A mesma lua que, naquele instante, iluminava o Reino das Raposas. — Estou quase aí, pequena raposa... Muito perto. Sem que nenhum dos dois soubesse, o destino preparava finalmente o reencontro que ambos esperavam havia tantas semanas. Continua...
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