📘 Almas de Fera
Capítulo 58 – O Despertar das Sombras
Uma rajada de vento cortante e gelado, mais fria e pesada do que qualquer outra que já tivesse soprado por ali, atravessou as fendas e cumes das Montanhas Sombrias, uivando como um lamento antigo.
No pico mais alto e inacessível, coberto de neve eterna e rocha escura, Vharok abriu lentamente e por completo as suas enormes asas negras, tão compridas que pareciam capazes de cobrir o próprio céu. As escamas da sua pele eram profundas como a noite sem estrelas, brilhando pouco sob a luz fraca do entardecer, e os seus imensos olhos dourados brilhavam intensamente, como duas chamas vivas que arderam por milénios na escuridão.
O temido Dragão das Sombras ergueu a cabeça altiva para o céu, inalou profundamente o ar livre e soltou uma voz grave, profunda e cheia de orgulho antigo que ecoou por vales inteiros:
— Finalmente… depois de tanto tempo fechado e esquecido… estou livre de novo.
Com um único, forte e pesado bater de asas, levantou‑se no ar, e uma onda invisível de poder e energia sombria espalhou‑se em todas as direções, atravessando florestas, rios e fronteiras, fazendo tremer árvores e pedras por onde passava.
Ao mesmo tempo, milhas e milhas mais ao sul, no Palácio Real dos Leões, Zaira despertou de repente, sobressaltada e com o coração a bater‑lhe descontroladamente no peito.
Ainda mantida na sua pequena forma de raposa, abriu os olhos de um salto e ergueu imediatamente a cabeça, os sentidos todos alerta e tensos. As suas orelhas pontiagudas ficaram completamente eretas e imóveis, captando algo que ninguém mais parecia ouvir ou sentir.
Kael, que estava sentado perto da lareira a analisar mapas e planos de defesa com atenção, notou logo a mudança nela e aproximou‑se devagar e depressa, preocupado:
— Zaira? O que foi, minha querida? O que sentes?
A pequena raposa tremia por todo o corpo, o pelo eriçado, e olhava fixamente para a janela aberta, na direção das montanhas muito distantes, como se conseguisse ver através de tudo o que havia no meio.
— É ele… Vharok… — sussurrou numa voz muito fina e trémula, quase um sopro.
Kael franziu a testa, os olhos a encherem‑se de seriedade e alerta:
— Consegues senti‑lo, mesmo tão longe daqui?
A raposa abanou a cabeça lentamente, confirmando, e soltou um pequeno som de aflição.
Nesse instante, trombetas de aviso e alerta soaram forte e gravemente por todo o palácio, repetidas em cada torre e cada porta, fazendo todos pararem o que estavam a fazer.
Um guarda entrou a correr nos aposentos reais, ofegante e sério, curvando‑se rapidamente diante do rei:
— Majestade! Chegaram mensageiros a galope da fronteira norte! Trazem notícias urgentes!
Kael levantou‑se de um salto, direito e firme como uma montanha:
— Fala. Diz‑me tudo o que sabes.
— As nossas patrulhas avistaram uma criatura imensa, de asas negras e brilhantes, a deslocar‑se lentamente mas com força para leste — relatou o homem com voz firme. — Já passaram perto de algumas povoações pequenas; os habitantes estão todos a evacuar com medo, ninguém sabe o que ele quer ou onde vai parar.
Mal ouviu isto, Zaira fechou os olhos por um instante, e uma luz suave envolveu‑a mais uma vez — voltou a assumir a sua forma híbrida, de pé ali diante de todos. Embora ainda estivesse um pouco pálida e com os olhos a mostrarem o quanto ainda receava aquela presença, havia neles também uma luz nova, brilhante e cheia de determinação.
— Não podemos ficar aqui parados à espera — disse ela com voz calma mas segura. — Temos de ir ajudar, temos de proteger o nosso povo.
Kael aproximou‑se dela imediatamente, pousando‑lhe uma mão forte e quente sobre o ombro, olhando‑a com carinho e receio:
— Tens a certeza de que queres ir, Zaira? Sabes o quanto isto te assusta.
Ela hesitou por um breve momento, baixou o olhar e respirou fundo, depois ergueu‑o de novo para ele:
— Tenho medo sim, Kael… muito medo, não te vou mentir. Mas não quero fugir outra vez, nem esconder‑me como se não fosse nada minha a responsabilidade. Se alguém pode entender ou enfrentar isto, tenho de estar lá.
Antes que Kael pudesse responder ou dizer mais alguma coisa, a porta abriu‑se de novo e entraram Selene e Arion, ambos com expressões sérias e preocupadas, mas também cheias de força.
— Já ouvimos tudo o que se passou — disse Arion logo ao entrar, com a voz forte de um rei experiente. — Todos os chefes das tribos e povos aliados estão a reunir‑se outra vez no grande salão principal para decidirmos o que fazer.
Selene aproximou‑se devagar da filha, acariciou‑lhe suavemente o rosto com a ponta dos dedos, olhando‑a com amor e compreensão:
— Lembra‑te sempre, minha princesa: não precisas de provar coragem, força ou nada mais a ninguém. És valente só por seres quem és. Se precisares de ficar, ninguém te julgará.
Zaira sorriu‑lhe de forma suave e grata, tocando a mão da sua própria mãe:
— Eu sei disso, mãe… e obrigada por dizeres. Mas o meu coração diz‑me que devo estar presente. Quero estar ao lado de todos vós.
Pouco tempo depois, todos se encontravam novamente reunidos no grande salão do conselho, iluminado por tochas altas e cheio de vozes baixas e inquietas.
Elyra já ali estava, de pé diante de um mapa enorme estendido sobre uma mesa, com uma expressão extremamente séria e pensativa, mais preocupada do que alguma vez a tinham visto. Ao ver que todos estavam atentos, ergueu a voz para que a ouvissem bem:
— Tenho notícias e informações muito preocupantes para vos contar sobre Vharok — anunciou ela, fazendo com que até o último som desaparecesse da sala. — Ele não está apenas a mover‑se sem rumo ou a destruir por destruir, como muitos pensam.
Fez uma pausa, olhando para cada um ali presente antes de continuar, deixando o silêncio pesar sobre todos:
— Tudo o que aprendi sobre ele, todas as lendas antigas que ainda restam entre o meu povo, dizem a mesma coisa: ele parece estar à procura de alguma coisa. Algo muito específico, muito antigo e muito poderoso.
Um silêncio pesado, cheio de receio e interrogações, caiu sobre todo o salão. Ninguém se mexeu, ninguém falou, até que Kael perguntou com voz calma e forte:
— À procura de quê? De quê coisa se trata?
Elyra virou‑se lentamente e olhou diretamente nos olhos de Zaira, com uma expressão que misturava compaixão, receio e confusão.
— Ainda não sabemos ao certo o que é… nem porquê. Mas há algo que nos diz que ele não vai parar até o encontrar.
Naquele instante, algures nas profundezas da memória de Zaira, um sentimento estranho e antigo despertou‑lhe de repente. Um arrepio forte percorreu‑lhe todo o corpo, e sentiu como se… de alguma forma que não conseguia explicar, já tivesse visto aqueles mesmos olhos dourados e terríveis, muito antes do dia em que foi atacada ainda pequena. Como se algo ou alguém lhe tivesse mostrado isso em sonhos ou visões que ela nunca chegou a compreender.
E lá muito longe, no ar frio e alto, Vharok sorriu de novo, sabendo que o seu caminho o levava exatamente aonde precisava de chegar.