📘 Almas de Fera
CapÃtulo 56 – As Suspeitas da Rainha
Zaira permaneceu na sua pequena forma de raposa durante todo o resto daquele dia e boa parte da noite seguinte. O seu pelo ruivo brilhava suavemente sob a luz das tochas e da lareira, e ela parecia encontrar ali uma paz e uma calma que ainda não conseguia sentir na sua forma maior.
Nem Kael, nem Arion, nem ninguém mais tentou pedir‑lhe ou insistir para que voltasse à forma hÃbrida ou humana. Depois do susto profundo e da dor antiga que ela revivera por causa da presença e do rugido aterrador de Vharok, todos compreendiam claramente que ela precisava de tempo, de descanso e de se sentir verdadeiramente segura para si mesma.
Kael passou a maior parte da jornada com ela aconchegada nos seus braços, tratando‑a com o maior cuidado e ternura, como se segurasse o bem mais precioso de todo o mundo. Sempre que precisava de participar em reuniões, conselhos ou conversas importantes sobre a segurança dos reinos, levava a pequena raposa consigo, aninhada confortavelmente contra o seu peito ou no colo — o que divertia bastante os velhos conselheiros e guerreiros mais sérios do reino dos Leões.
— Nunca em toda a minha vida esperei ver o nosso grande e forte rei a governar assuntos tão sérios com uma raposa pequena e fofa a dormir tranquilamente ao colo — comentou um conselheiro de cabelos brancos, sorrindo com doçura e admiração para ambos.
Kael apenas respondeu com calma, acariciando‑lhe devagar a cabeça com a ponta dos dedos:
— Ela fica muito mais calma, descansada e forte assim. E se ela está bem, então eu também estou.
Ainda meio adormecida, com os olhos fechados e o corpo todo quentinho, a cauda de Zaira abanou imediatamente e suavemente, confirmando que ouvira e concordava plenamente com cada palavra do seu amado.
Mas, por entre todos os sorrisos e conversas leves, Selene observava tudo em silêncio e com muita atenção. Quanto mais olhava para a filha, mais os seus olhos experientes notavam aqueles sinais subtis e quase secretos — e mais as suas suspeitas cresciam, transformando‑se numa certeza que lhe fazia bater o coração de alegria e surpresa.
Ao final da tarde, quando o sol já se punha e o fogo na grande lareira da sala real brilhava mais forte, Zaira adormeceu profundamente, roncando baixinho nos braços de Kael. Ele estava sentado numa poltrona larga e forte, imerso nos seus pensamentos, quando Selene aproximou‑se devagar e discretamente de Arion, que observava tudo de pé perto da janela.
— Precisamos conversar, a sós — disse ela em voz muito baixa, séria e cheia de importância.
O rei das Raposas virou‑se imediatamente para ela, percebendo logo pelo tom de voz da esposa que algo de muito peso e significado se passava.
— Aconteceu alguma coisa de grave? Algo que não sabemos ainda? — perguntou ele, ficando logo atento e preocupado.
Selene lançou um olhar longo e cuidadoso para Zaira e Kael ali perto, certificando‑se de que não eram ouvidos nem notados, e aproximou‑se mais ainda do marido.
— Ainda não tenho uma certeza absoluta, mas tudo o que vejo e conheço me diz que a nossa filha pode estar à espera de novos filhotes… de uma nova vida a crescer dentro dela — revelou ela, com os olhos brilhantes de emoção.
Arion ficou completamente imóvel, como se tivesse deixado de respirar por um instante, os olhos muito abertos de espanto e felicidade.
— O quê? É… tens a certeza disso, Selene? — ia dizer mais alto, mas ela colocou‑lhe rapidamente uma mão suave sobre a boca para o calar.
— Shhh! Fala baixo, por favor, não queremos acordar ninguém nem espalhar ainda o que talvez seja só o meu coração a ver coisas — avisou ela com calma.
Ele baixou a voz imediatamente, mas continuou com a expressão de quem acabara de ouvir a melhor notÃcia do mundo.
— Mas tens mesmo indÃcios fortes? Como podes ter tanta confiança?
— Não completamente ainda, mas conheço a nossa espécie, conheço os sinais antigos e secretos das raposas reais, e conheço a minha filha melhor do que ninguém — explicou ela com firmeza. — Tudo nela mudou de forma muito suave, quase invisÃvel, mas que só uma mãe reconhece logo. O brilho do pelo, o calor que emana, a forma como se mexe e descansa… tudo coincide com os primeiros tempos de uma nova vida.
Arion olhou com muito carinho e espanto para a pequena forma ruiva que repousava nos braços do jovem rei.
— E ela própria sabe disto? Será que ela já percebeu o que está a acontecer com o seu corpo?
Selene abanou lentamente a cabeça, olhando também para a filha.
— Não creio de forma nenhuma. É tudo muito novo, muito cedo, e com tantas preocupações e perigos à volta dela, provavelmente só sente cansaço ou estranheza, sem imaginar a razão verdadeira.
Arion soltou um longo e profundo suspiro, misto de surpresa, alegria e responsabilidade.
— Então o melhor a fazer é esperar com calma até termos toda a certeza absoluta, não é? Não queremos dar‑lhe esperanças ou preocupações desnecessárias, principalmente agora, com Vharok acordado e à solta nas terras altas.
Selene assentiu devagar, concordando plenamente com ele.
— Exatamente assim. Guardaremos este segredo só para nós dois por enquanto.
Naquele exato momento, Kael levantou‑se devagar da poltrona, aproximando‑se deles com passos silenciosos, segurando a pequena raposa com todo o cuidado do mundo para não a acordar.
— Está tudo bem convosco? Parecem muito sérios e pensativos — perguntou ele com respeito e atenção.
Selene sorriu‑lhe de forma suave, calorosa e cheia de um afeto novo e profundo.
— Está tudo muito bem, não te preocupes. Apenas estávamos a falar um pouco sobre a nossa querida Zaira, sobre como ela tem crescido e mudado tanto nestes tempos.
Kael olhou com imenso amor para a sua princesa adormecida nos seus braços.
— Ela passou por tanta coisa difÃcil nestes últimos dias… e ainda vai ter de enfrentar muito mais, infelizmente — disse ele com voz doce mas preocupada.
— Sim, é verdade — concordou Selene, observando‑o com um olhar cheio de sabedoria e carinho. — E por isso precisamos de a proteger com ainda mais força, amor e cuidado do que alguma vez pensámos precisar.
Kael assentiu de imediato, com toda a lealdade e coragem que existia nele.
— Farei tudo o que for necessário, darei a própria vida se for preciso, para a manter sempre sã, salva e feliz. Podem ter a certeza disso.
Selene observou‑o durante alguns segundos, sentindo‑se cada vez mais grata por ele ser quem era. Se as suas suspeitas estivessem corretas — e acreditava profundamente que sim — em breve Kael não teria apenas de proteger Zaira, a sua amada e a sua rainha. Teria a responsabilidade e a bênção de proteger também toda a sua futura famÃlia, uma nova vida que ligaria para sempre os dois grandes reinos com um laço ainda mais forte e indestrutÃvel.
Mas, muito longe dali, nas profundezas escuras, frias e esquecidas das Montanhas Sombrias, algo imenso e antigo mexeu‑se lentamente. Vharok abriu devagar as suas enormes asas negras, cobertas de escamas antigas e feridas de eras passadas, esticando‑as até tocarem nas paredes da sua caverna imensa. Um som pesado e aterrador ecoou por toda a montanha, fazendo‑a tremer nas suas fundações. E pela primeira vez em séculos e séculos, o temido Dragão das Sombras bateu as asas com força e ergueu‑se no ar, deixando para trás a prisão onde estivera escondido e adormecido. Agora estava livre, poderoso e cheio de planos sombrios para todos os que viviam abaixo dele.
continua.....