📘 Almas de Fera
Capítulo 55 – Um Pequeno Segredo
Depois de todas as palavras, confissões e abraços na estufa, Zaira continuava visivelmente abalada por dentro. Apesar de já não tremer como antes, ainda sentia o coração pesado e a mente cansada, como se tivesse carregado uma pedra muito grande por muito tempo.
Sem dizer uma única palavra, sem fazer qualquer movimento brusco, uma suave luz branca e avermelhada começou a brilhar suavemente à volta do seu corpo, tornando‑a quase invisível por instantes. O tecido das suas vestes ajustou‑se e encolheu com ela, protegendo‑a ainda na nova forma.
No instante seguinte, ali já não estava a princesa de olhos verdes e cabelos de fogo — transformara‑se novamente na sua pequena e fofa forma de raposa, de pelo ruivo brilhante e olhos grandes e doces.
Deu alguns passinhos lentos e silenciosos até junto de Kael, que se ajoelhara para ficar à sua altura, e ergueu as patas dianteiras para ele a levantar. Assim que ele a segurou nos braços grandes e quentes, aninhou‑se ali mesmo, enroscando‑se perto do seu coração, recusando‑se a voltar à forma híbrida ou humana por agora.
Kael sorriu com muita doçura, passando‑lhe devagar a ponta dos dedos por cima da cabeça e por detrás das orelhas macias e pontiagudas.
— Ainda não queres voltar a ser quem eras há pouco? Não te preocupes… aqui estás bem.
A pequena raposa abanou a cabeça rapidamente e escondeu o pequeno focinho contra o peito forte dele, como se ali encontrasse todo o refúgio de que precisava.
Selene observava a cena de pé, um pouco afastada, em silêncio e com um brilho suave nos olhos. Arion sorriu levemente, lembrando‑se de coisas antigas, e falou baixo para Kael:
— Ela fazia exatamente isso quando era muito pequena. Sempre que ficava assustada, triste ou profundamente cansada, refugiava‑se nesta forma e passava horas, ou até dias inteiros, assim — calma, quieta, protegida pelo seu próprio pelo. É a sua maneira de se curar por dentro.
Kael continuou a fazer‑lhe festas lentas e carinhosas, sentindo o calor do corpo pequeno dela contra si.
— Então ela pode ficar assim o tempo que precisar. Não me importo de a carregar para onde formos; será um prazer ter‑me como abrigo dela.
Ao ouvir isso, a cauda ruiva e fofa de Zaira abanou suavemente, devagar, mostrando que ouvira e que estava feliz por ouvir tais palavras.
Mas enquanto todos estavam distraídos ou sorrindo com a ternura daquele momento, Selene continuou a observar com mais atenção. Havia algo no ar, algo que lhe chamara a atenção logo no primeiro instante em que a filha se transformara. Algo que parecia… diferente. Muito diferente do que alguma vez vira antes nela.
Quando Zaira se mexeu ligeiramente para se aninhar ainda melhor nos braços do seu amado, a rainha das Raposas conseguiu ver claramente certas mudanças subtis no pequeno corpo: uma forma mais arredondada na zona do ventre, um brilho especial e novo nos fios do pelo, uma suavidade e calor que pareciam irradiar de dentro para fora — sinais quase invisíveis para quem não nascesse nem crescesse entre a sua espécie, mas extremamente evidentes e conhecidos para uma mãe experiente e sábia como ela.
Os olhos de Selene arregalaram‑se ligeiramente de surpresa, e levou uma mão devagar até à própria boca para abafar qualquer som de espanto.
“n******e ser… será mesmo?”, pensou ela, o coração a disparar‑lhe de alegria e admiração.
Observou mais uma vez, com muito cuidado, fixando o olhar em cada detalhe que conhecia tão bem. Não havia dúvidas, nem enganos. As raposas reais tinham marcas e sinais únicos que apareciam logo nas primeiras semanas de uma nova vida a crescer dentro delas — sinais antigos, guardados só para a sua realeza, que só outra raposa real saberia reconhecer e interpretar.
Selene sentiu o coração bater‑lhe tão forte que quase parecia saltar‑lhe do peito.
“Ela ainda não percebeu nada… nem imagina o que está a acontecer com ela…”
Olhou discretamente para o seu marido Arion: ele continuava ali, distraído e sério, conversando com Kael sobre planos de defesa, exércitos e perigos que se aproximavam, sem notar ainda aquela maravilhosa verdade que brilhava diante de todos.
“Ainda não vou dizer nada a ninguém”, decidiu a rainha com calma e sabedoria. “Primeiro preciso de ter a certeza absoluta, de confirmar tudo com calma, para não dar falsas esperanças. Mas se estiver certa… ah, se estiver certa… esta notícia vai mudar para sempre o destino, a força e o futuro de ambos os nossos grandes reinos.”
Enquanto os pensamentos corriam na mente de Selene, Zaira permanecia completamente calma e tranquila nos braços fortes e quentes do seu rei. Fechou os olhos pequenos e brilhantes, e sentiu‑se, pela primeira vez desde que ouvira aquele rugido terrível lá no alto, verdadeiramente em paz e segura — como se nada de mau no mundo a pudesse alcançar ali.
Kael olhou para a pequena criatura que agora dormia profundamente contra o seu peito, com a respiração suave e calma, e deixou escapar um sorriso doce e orgulhoso.
— Parece que alguém decidiu que eu sou uma almofada muito confortável e segura — sussurrou ele baixinho, acariciando‑lhe a cabeça mais uma vez.
Mesmo já completamente adormecida, a cauda fofa e ruiva de Zaira mexeu‑se devagar, abanando levemente, como se tivesse ouvido e concordado com cada palavra sua.
Todos ali presentes riram muito baixinho, para não a acordar, sentindo uma ternura imensa. Mas Selene continuou calada, pensativa e com um sorriso secreto e cheio de esperança a crescer‑lhe nos lábios. Se as suas suspeitas estivessem corretas, e tinha quase a certeza de que sim, em breve Kael e Zaira iriam receber a mais bela, preciosa e surpreendente notícia que nenhum dos dois alguma vez ousara esperar. E com ela, talvez também uma força nova e poderosa para enfrentar o m*l que despertava nas montanhas distantes.