Memórias perdidas

1175 Words
📘 Almas de Fera Capítulo 58– Memórias Perdidas Um silêncio pesado, denso e carregado de interrogações instalou‑se de imediato por todo o grande salão do conselho. Ninguém se mexeu, ninguém falou; só se ouvia o crepitar suave das tochas nas paredes altas. Zaira permanecia imóvel no seu lugar, como se tivesse ficado de pedra. As palavras de Elyra ecoavam repetidamente na sua mente, girando sem parar e ganhando um novo sentido aterrador: “Vharok parece estar à procura de alguma coisa…” Ou de alguém. Um arrepio frio e profundo percorreu‑lhe toda a espinha desde a nuca até à ponta dos pés, fazendo‑a estremecer ligeiramente. Kael percebeu imediatamente aquela pequena mudança nela, aproximou‑se um passo e falou baixo, só para ela: — Zaira? Estás aí? O que sentes? Ela piscou os olhos devagar, como se estivesse a acordar de um sonho estranho ou a regressar de muito longe para a realidade ali presente. — E‑eu estou bem… — tentou dizer, mas a voz saiu‑lhe fraca e incerta. Mas não estava bem de todo. Uma sensação estranha, apertada e dolorosa enchia‑lhe o peito, como se uma mão invisível o estivesse a apertar com força. Elyra continuou a explicar, com a voz calma mas séria: — Os nossos batedores e exploradores percorreram já grande parte do caminho por onde ele passou e encontraram vestígios claros: ruínas de templos antigos, monumentos esquecidos e pedras sagradas todas destruídas ou reviradas. Ele não está a atacar pessoas nem povoações por maldade ou fome, nem destrói tudo o que vê à toa. Parece seguir uma rota muito antiga, precisa e planeada há muito tempo. Arion franziu a testa, olhando para o mapa com profunda atenção: — Uma rota que leva para onde exatamente? Qual é o seu destino final? A princesa dragão desdobrou com cuidado um pergaminho muito velho, cheio de riscos e sinais quase apagados pelo tempo, e pousou‑o sobre a grande mesa de madeira. Todos se aproximaram devagar, curiosos e receosos. Ela apontou com o dedo comprido para uma zona pintada de vermelho escuro na parte mais baixa do desenho. — Para sul. Se continuar nesta direção e ritmo, dentro de poucos dias chegará às Florestas Rubras. Zaira arregalou os olhos de espanto e compreensão imediata, levando uma mão até à boca: — Às Florestas Rubras? Mas essas são as terras originais, o coração e o lar do nosso povo, o Reino das Raposas! Selene ficou imediatamente muito séria, o rosto fechado de alerta e preocupação: — Isso significa que o nosso reino está exatamente no seu caminho… ou talvez seja mesmo o seu destino final. Kael virou‑se de imediato para os seus generais e conselheiros ali presentes, a voz firme e cheia de autoridade real: — Iniciem já mesmo todos os preparativos de segurança e evacuação das aldeias mais próximas da fronteira. Enviem reforços de tropas, suprimentos e curandeiros imediatamente para ajudar e proteger o Reino das Raposas. Nada faltará, ninguém ficará desprotegido. — Sim, Majestade! — responderam todos em uníssono, curvando‑se e saindo já a dar ordens uns aos outros. Enquanto todos à volta começavam a discutir planos, rotas e estratégias com vozes baixas e agitadas, Zaira continuava ali, afastada de tudo o resto, sentindo de novo aquela sensação estranha e forte a crescer dentro dela. Subitamente, como se uma porta fechada há muito tempo se abrisse de rompante na sua mente, imagens claras e nítidas surgiram‑lhe diante dos olhos: fogo altíssimo a consumir árvores antigas, sombras imensas a moverem‑se por todo o lado, um par de olhos dourados enormes e brilhantes que a observavam de muito perto… e uma voz profunda, grave e antiga que ressoava só para ela: “Encontrei‑te finalmente, pequena raposa…” Zaira levou imediatamente ambas as mãos à cabeça, apertando‑a com força como se quisesse parar aquelas visões. — Ah!… — soltou um grito curto de dor e confusão. Kael chegou‑se a ela num instante e segurou‑a firmemente pelos braços antes que as pernas lhe cedessem e caísse no chão. — Zaira! Olha para mim! Estou aqui! — chamou‑lhe com urgência e carinho. Todos os outros viraram‑se de repente para ela, interrompendo tudo o que faziam. — O que foi, minha filha? O que te aconteceu? — perguntou Selene, aproximando‑se depressa e cheia de receio. Zaira respirava muito rápido e ofegante, o rosto pálido como a neve, os olhos ainda cheios daquelas imagens. — Eu… eu lembrei‑me de alguma coisa… algo que estava escondido muito fundo, que eu tinha esquecido ou apagado sem querer… — conseguiu dizer por fim, muito devagar. Elyra aproximou‑se também, com todo o cuidado: — O que lembraste‑te, Zaira? Conta‑nos tudo, por favor. Pode ser muito importante. Ela fechou os olhos com força para tentar organizar as ideias e as memórias confusas. — Quando eu era pequena… no dia em que fui ferida e atacada perto da fronteira… — começou ela, a voz a tremer um pouco — …eu sempre pensei que tinha sido apenas um jovem dragão perdido e assustado, como nos disseram… mas acho que não era bem assim. Acho que não havia apenas um dragão ali naquele dia. O salão inteiro ficou outra vez em silêncio absoluto, cada um a olhar para ela com surpresa e atenção. — O que queres dizer com isso, filha? — perguntou Arion com calma, mas muito sério. Zaira apertou as mãos uma contra a outra com força, tentando controlar o que sentia. — Lembro‑me do fogo, sim… da confusão… dos guardas a chegar… mas também lembro‑me claramente daqueles olhos grandes, dourados e brilhantes… que me olhavam de cima… — ela ergueu os olhos e olhou para todos, assustada mas certa — …eram os mesmos olhos. Exatamente iguais aos de Vharok. O silêncio tornou‑se tão pesado que quase se podia tocar. Ninguém se atrevia a falar, a pensar sequer. Elyra empalideceu visivelmente, abanando a cabeça devagar, como se não pudesse aceitar tal ideia. — Isso… isso é impossível. Dizem as lendas que ele esteve preso e adormecido nas profundezas das montanhas há mais de mil anos… como poderia ele estar ali, naquele tempo, perto de ti? — murmurou ela, mas no fundo do seu coração e da sua sabedoria antiga, a princesa dragão já não tinha tanta certeza de nada. Muito longe dali, no ar frio e alto por cima das montanhas escuras, Vharok abriu lentamente os seus imensos olhos dourados, virando‑os na direção sul, para muito além de vales e florestas. E um sorriso largo, cheio de dentes afiados e de uma satisfação antiga, apareceu‑lhe nos lábios enormes. — Finalmente estás a começar a recordar‑te de tudo, pequena raposa… — sussurrou ele para o vento que o rodeava. — Ainda bem. O nosso reencontro está cada vez mais perto. continua....
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