📖 Almas de Fera
Capítulo 99 – Um Despertar Tranquilo
A tarde passou lentamente.
O quarto permanecia calmo, envolvido apenas pelo crepitar suave da lareira e pelo canto distante dos pássaros nos jardins do palácio.
Zaira continuava a dormir profundamente.
O descanso parecia finalmente aliviar o cansaço que carregava havia semanas.
Kael ainda permanecia sentado ao lado da cama.
Em nenhum momento soltou completamente a mão dela.
Sempre que Zaira se mexia durante o sono, ele olhava imediatamente para confirmar que estava tudo bem.
Selene entrou no quarto novamente, trazendo uma manta leve.
Ao ver que a filha continuava a dormir, aproximou-se em silêncio.
Cobriu-lhe cuidadosamente as pernas.
— Ainda não acordou? — perguntou baixinho.
Kael abanou a cabeça.
— Dormiu quase o dia inteiro.
O curandeiro, que acabava de entrar para mais uma avaliação, sorriu.
— O corpo dela está a recuperar. Não a acordem. Quando despertar, será porque o organismo já descansou o suficiente.
Selene assentiu.
— Faremos exatamente isso.
As horas continuaram a passar.
Quando o sol começou a desaparecer no horizonte, uma luz alaranjada invadiu os aposentos.
Foi então que Zaira respirou mais fundo.
As orelhas de raposa mexeram-se.
Os dedos apertaram ligeiramente a mão de Kael.
Ele sorriu.
— Acho que alguém está a acordar.
Muito devagar, Zaira abriu os olhos.
Piscou algumas vezes, ainda desorientada.
Olhou para o teto.
Depois virou a cabeça para o lado.
Assim que encontrou Kael sentado ao seu lado, relaxou imediatamente.
Um pequeno sorriso surgiu-lhe nos lábios.
— Ainda estás aqui...
Kael sorriu de volta.
— Eu prometi que não ia embora.
Ela fechou os olhos por um instante, aliviada.
Depois tentou endireitar-se na cama.
Assim que fez força, levou automaticamente as duas mãos ao ventre.
— Ai...
Kael levantou-se imediatamente.
— Devagar.
Ele apoiou-lhe as costas enquanto ela se sentava entre as almofadas.
Zaira soltou um longo suspiro.
— Parece que esta barriga ficou ainda mais pesada...
Selene aproximou-se.
— Como te sentes?
Ela pensou por alguns segundos antes de responder.
— Menos cansada... mas ainda sem muita energia.
O curandeiro assentiu.
— É um bom sinal. A recuperação será gradual.
Zaira olhou para o ventre arredondado.
Passou a mão cuidadosamente sobre ele.
— Vocês realmente gostam de ocupar espaço...
Como se tivessem entendido a brincadeira, sentiu um movimento suave.
Ela sorriu.
— Outra vez...
Kael observava cada reação dela com um sorriso tranquilo.
— Acho que responderam.
Zaira riu baixinho.
Era um riso discreto, mas sincero.
Selene levou a mão ao peito.
Havia muitos dias que não via a filha rir daquela forma.
Arion entrou no quarto nesse momento.
Ao ouvir a risada, sorriu também.
— Finalmente um som feliz neste quarto.
Zaira olhou para o pai.
— Pai...
Arion aproximou-se e beijou-lhe a testa.
— Estavas a assustar-nos.
Ela baixou um pouco o olhar.
— Desculpa...
— Não precisas pedir desculpa. O importante é que estás connosco.
Zaira respirou fundo.
Pela primeira vez desde o trauma no templo, sentia que o peso dentro do peito diminuía um pouco.
Ainda havia medo.
Ainda havia dúvidas.
Mas já não estava sozinha.
Kael segurou novamente a mão dela.
— Vamos enfrentar um dia de cada vez.
Ela apertou-lhe a mão de volta.
— Um dia de cada vez.
Lá fora, o céu escurecia lentamente e as primeiras estrelas começavam a surgir.
Dentro dos aposentos reais, porém, havia algo que não existia havia muito tempo.
Esperança.
Uma esperança silenciosa, construída por pequenos gestos, pelo cuidado da família e pela certeza de que, independentemente do que o futuro reservasse, Zaira teria sempre pessoas ao seu lado para a apoiar.
Continua...