📖 Almas de Fera
CapÃtulo 100 – O Primeiro Passeio
Na manhã seguinte, uma luz suave atravessava as cortinas dos aposentos reais.
Pela primeira vez em muitos dias, Zaira acordou sem sobressaltos.
Abriu os olhos lentamente e respirou fundo.
O quarto estava silencioso.
Kael continuava sentado na poltrona ao lado da cama, mas tinha adormecido durante a noite.
O livro que estava a ler permanecia aberto sobre o colo.
Ao vê-lo naquela posição desconfortável, Zaira sorriu.
— Tolo...
Falou tão baixo que m*l se ouviu.
Com cuidado, estendeu a mão e tocou-lhe levemente no braço.
Kael abriu os olhos quase de imediato.
Quando percebeu que ela estava acordada, sorriu.
— Bom dia.
— Bom dia...
Os dois permaneceram alguns segundos apenas a olhar um para o outro.
Era um silêncio confortável.
Zaira tentou levantar-se devagar.
Desta vez conseguiu sentar-se sem tanta dificuldade.
Mesmo assim, colocou imediatamente uma mão sob o ventre.
— Continua pesado...
Kael levantou-se e aproximou-se.
— Queres ajuda?
Ela assentiu.
Com delicadeza, ele ajudou-a a ficar de pé.
Assim que os pés tocaram o chão, Zaira percebeu que o seu centro de equilÃbrio estava diferente.
Olhou para a barriga arredondada e soltou uma pequena gargalhada.
— Acho que já nem me lembro de como era caminhar sem isto.
Kael riu.
— Vais reaprender.
Ela deu um passo.
Depois outro.
Caminhava devagar, com cuidado.
A cauda movia-se lentamente atrás dela para ajudar no equilÃbrio.
Nesse momento, Selene entrou no quarto.
Ao ver a filha de pé, os olhos iluminaram-se.
— Estás a caminhar!
Zaira sorriu.
— Muito devagar...
— Não faz m*l.
O curandeiro, que vinha logo atrás, ficou satisfeito.
— Excelente. Caminhadas curtas dentro do palácio vão ajudar a recuperar a força, desde que não te canses.
Zaira fez uma expressão divertida.
— Se eu me cansar, volto logo para a cama.
Todos riram.
Depois do pequeno-almoço, Kael sugeriu:
— Que tal irmos até à varanda? Só um bocadinho.
Zaira olhou para a janela.
Fazia dias que não via os jardins de perto.
— Está bem.
Kael caminhou ao lado dela o tempo todo.
Sem a pressionar.
Sem a apressar.
Quando chegaram à varanda, uma brisa fresca acariciou o rosto de Zaira.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Tinha saudades disto...
Os jardins estavam cheios de flores.
As fontes corriam tranquilamente.
Ao longe, algumas raposas brincavam entre as árvores.
Selene aproximou-se da filha.
— Quando eras pequena, passavas horas naquele jardim.
Zaira sorriu ao recordar.
— Eu escondia-me dos guardas...
Arion apareceu logo depois.
— E eles passavam metade do dia à tua procura.
Ela riu.
— Eu achava que era um ótimo esconderijo.
Kael olhou para os três e sorriu.
Era bom vê-la assim.
A rir.
A recordar momentos felizes.
Enquanto conversavam, Zaira apoiou distraidamente as mãos sobre o ventre.
De repente...
Parou de falar.
Piscou os olhos.
Kael reparou imediatamente.
— O que foi?
Ela olhou para ele com um sorriso surpreendido.
— Eles mexeram outra vez...
Kael aproximou-se.
— Posso?
Ela assentiu.
Ele colocou cuidadosamente a mão sobre o ventre.
Esperou.
Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Então...
Sentiu um pequeno empurrão.
Kael abriu um enorme sorriso.
— Olá, pequenos.
Zaira riu baixinho.
— Parece que já reconhecem a tua voz.
Selene sorriu emocionada.
— Talvez estejam a responder ao pai.
Arion cruzou os braços com um sorriso divertido.
— Ou talvez estejam só a dizer que querem comer.
Todos riram.
O ambiente era leve.
Feliz.
Depois de alguns minutos, Zaira suspirou.
— Acho que já caminhei o suficiente.
Kael assentiu imediatamente.
— Vamos voltar.
Ele passou um braço cuidadosamente pelas costas dela para lhe dar apoio durante o caminho.
Ela aceitou sem protestar.
Ao entrarem novamente no quarto, Zaira voltou a deitar-se entre as almofadas.
Apesar do pequeno passeio, havia um brilho diferente no seu olhar.
O medo ainda existia.
Mas, pouco a pouco, a alegria estava a voltar.
E Kael percebeu que aquele era o maior sinal de recuperação que poderia desejar.
Continua...