đź“– Almas de Fera
CapĂtulo 101 – Uma Despedida DifĂcil
O dia terminou de forma tranquila.
Depois do pequeno passeio pela varanda, Zaira passou o resto da tarde a descansar entre as almofadas do enorme quarto real.
Kael permaneceu ao lado dela, conversando sobre assuntos simples, contando histórias do Reino dos Leões e fazendo-a sorrir de vez em quando.
Ao cair da noite, porém, alguém bateu à porta.
— Entre.
Um cavaleiro leão entrou, fez uma reverência profunda e permaneceu de cabeça baixa.
— Majestade.
Kael levantou-se.
— Aconteceu alguma coisa?
— O Conselho Real do Reino dos Leões solicita a vossa presença com urgência.
O quarto ficou em silĂŞncio.
O cavaleiro continuou:
— Alguns documentos importantes aguardam apenas a vossa assinatura. Além disso, há reuniões com os generais e embaixadores dos reinos vizinhos. A vossa ausência já se prolongou por várias semanas.
Kael fechou os olhos por um instante.
Ele já esperava que aquele momento chegasse.
— Entendo.
Na cama, Zaira permanecia calada.
As suas orelhas de raposa moveram-se lentamente.
Ela olhou para Kael.
Depois para o cavaleiro.
Por fim, voltou a baixar o olhar.
Selene percebeu imediatamente a mudança na expressão da filha.
O cavaleiro voltou a falar.
— Majestade... o reino precisa de vós.
Kael respirou fundo.
— Digam ao conselho que partirei amanhã ao amanhecer.
— Sim, Majestade.
O cavaleiro fez outra reverĂŞncia e retirou-se.
Assim que a porta se fechou, o quarto voltou a ficar silencioso.
Kael caminhou lentamente até à cama.
Sentou-se ao lado de Zaira.
Ela continuava sem dizer uma palavra.
Apenas acariciava distraidamente o prĂłprio ventre.
— Pequena raposa...
Nenhuma resposta.
Ele segurou-lhe delicadamente a mĂŁo.
— Tenho mesmo de ir.
Zaira fechou os olhos.
Respirou fundo.
Quando voltou a abri-los, havia tristeza no seu olhar.
— Eu sei...
A voz saiu baixa.
Muito mais baixa do que o habitual.
— Mas não gosto.
Kael sorriu com tristeza.
— Eu também não gosto.
Ela olhou para ele durante vários segundos.
— Vais demorar?
— Vou resolver tudo o mais depressa possĂvel.
— Prometes?
— Prometo.
Zaira permaneceu em silĂŞncio.
Depois olhou para a enorme barriga e suspirou.
— Tenho medo de ficares longe... e de acontecer alguma coisa.
Kael aproximou-se.
Com delicadeza, pousou a mĂŁo sobre o ventre dela.
— Não vou permitir que nada aconteça.
Ela sorriu de leve.
— Disseste isso da outra vez...
Kael baixou a cabeça.
— E falhei.
Zaira segurou imediatamente o rosto dele entre as mĂŁos.
— Não.
Ele olhou para ela.
— Tu não falhaste.
A voz dela era firme.
— Tu voltaste para mim.
Os olhos dourados de Kael encheram-se de emoção.
Zaira aproximou-se e encostou a testa Ă dele.
— Promete apenas que vais voltar outra vez.
Kael fechou os olhos.
— Prometo.
Selene e Arion observavam a cena em silĂŞncio.
Nenhum dos dois quis interromper aquele momento.
Na manhĂŁ seguinte, antes mesmo de o sol nascer completamente, os preparativos estavam concluĂdos.
Os cavaleiros leões aguardavam no pátio principal.
Os cavalos estavam prontos.
Kael vestia novamente a armadura real.
Quando entrou nos aposentos para se despedir, encontrou Zaira já acordada.
Ela continuava na forma hĂbrida.
As orelhas estavam baixas.
A cauda movia-se lentamente.
A barriga parecia ainda maior sob o vestido largo que usava.
Ela levantou-se com algum esforço.
Kael aproximou-se imediatamente para ajudá-la.
— Não precisavas levantar.
— Precisava.
Ela caminhou lentamente até ele.
Parou mesmo Ă sua frente.
Durante alguns segundos, apenas o observou.
Como se quisesse guardar cada detalhe daquele momento.
Depois estendeu a mĂŁo.
Kael segurou-a.
Ela deu um pequeno passo em frente e apoiou a cabeça no peito dele.
— Volta depressa...
— Voltarei.
Ele beijou-lhe a testa com todo o carinho.
Depois ajoelhou-se diante dela.
Com muito cuidado, pousou também a mão sobre o ventre.
— E vocês...
Sorriu.
— Cuidem bem da vossa mãe enquanto eu estiver fora.
Zaira deixou escapar uma pequena risada.
— Já estão a dar muito trabalho.
Kael riu também.
Por fim, levantou-se.
Deu mais um abraço demorado em Zaira.
Depois fez uma reverĂŞncia respeitosa a Selene e Arion.
— Conto convosco.
Arion colocou uma mĂŁo firme no ombro dele.
— Ela será protegida como sempre foi.
Selene sorriu.
— E enviaremos notĂcias todos os dias.
Kael assentiu.
Com um Ăşltimo olhar para Zaira, saiu dos aposentos.
Ela caminhou lentamente até à varanda.
Ficou a vê-lo atravessar o pátio do palácio, montar no seu cavalo e partir acompanhado pelos cavaleiros leões.
Mesmo quando a comitiva desapareceu na estrada, Zaira continuou ali.
Uma mĂŁo sobre o ventre.
A outra apoiada na varanda.
Falou tĂŁo baixo que apenas o vento pareceu ouvir.
— Volta para casa em segurança...
E, no fundo do coração, tinha a certeza de que ele cumpriria a promessa que lhe fizera.
Continua...