📘 Almas de Fera
Capítulo 52 – Feridas do Passado
O enorme rugido de Vharok ecoou pelos céus, tão forte que parecia fazer tremer até as próprias fundações da terra. Ondas de som poderosas espalharam‑se por todo o Reino dos Leões, abalando torres, árvores e montanhas distantes.
No salão do conselho, todos os líderes e guerreiros observavam de boca aberta a gigantesca sombra n***a que cortava as nuvens, imensa e imponente. O ar parecia ficar mais pesado, mais carregado de perigo e de força antiga.
Mas Zaira já não conseguia ver nem ouvir mais nada ao seu redor.
O coração disparou‑lhe no peito como se quisesse saltar para fora, batendo de forma descompassada e dolorosa. As suas mãos começaram a tremer violentamente, os dedos a apertarem‑se e a abrirem‑se sem controlo. A respiração ficou curta, rápida e ofegante, como se o ar tivesse desaparecido de repente.
Sentiu‑se presa, sufocada dentro daquela sala cheia de gente. Sem dizer uma única palavra, sem olhar para ninguém, virou‑se de repente e saiu a passos largos e apressados, quase a correr.
Ninguém reparou na sua saída. Todos estavam demasiado ocupados, de olhos postos na criatura que dominava o céu, demasiado preocupados com o que aquela presença poderia significar para a paz de todos os reinos.
Zaira atravessou os grandes corredores de pedra e mármore do palácio real, andando cada vez mais depressa, quase a tropeçar nos próprios passos. Os sons das vozes lá atrás pareciam‑lhe distantes, abafados, como se estivesse dentro de água; só restava na sua cabeça aquele som terrível, aquele bramido que lhe fazia doer os ossos.
Um segundo rugido irrompeu de novo, mais alto, mais próximo.
Ela parou de repente, como se tivesse batido numa parede invisível. As suas orelhas pontiagudas e macias baixaram‑se completamente contra a cabeça, escondendo‑se entre os cabelos ruivos; a cauda eriçou‑se por inteiro, os pelos todos em pé, tremendo de ponta a ponta.
— N‑não… por favor… não… — sussurrou ela para o vazio, a voz quase inaudível e quebrada pelo medo.
Voltou a caminhar, os joelhos a tremerem‑lhe tanto que m*l a sustentavam. Precisava de afastar‑se daquela altura, daquela a******a para o céu. Precisava de silêncio, de paz, de um sítio fechado e seguro onde pudesse esconder‑se de tudo.
Acabou por chegar à grande estufa real — um recinto alto, cheio de vidraças que deixavam passar a luz, repleto de plantas, árvores pequenas e flores de todas as cores e aromas vindos de todos os reinos. Era um dos locais mais calmos e sossegados de todo o palácio, um lugar onde costumava ir quando queria ficar só com os seus pensamentos.
Assim que entrou e fechou a porta atrás de si, sentiu‑lhe as pernas cederem. Caiu de joelhos sobre o chão coberto de musgo e folhagem macia, entre canteiros de flores de pétalas suaves e perfume doce. Apoiou as mãos no chão frio, tentando a todo o custo controlar a respiração, acalmar o coração que ainda batia como um tambor descontrolado.
— Acalma‑te… Zaira, acalma‑te… está tudo bem… estás segura… repetia para si mesma, fechando os olhos com força, tentando afastar o som que ainda lhe soava nos ouvidos.
Mas m*l tinha acabado de falar, um terceiro rugido ecoou mais uma vez — mais forte, mais profundo, parecendo virar de novo por cima da própria estufa.
Ela encolheu‑se de imediato, curvando o corpo para o chão, abraçando as próprias pernas e apertando‑as contra o peito, como se isso pudesse protegê‑la de algo imenso que viesse de cima. Os ombros sacudiam‑lhe, e lágrimas grossas e quentes começaram a rolar‑lhe pelas bochechas, caindo uma a uma sobre as folhas ali ao lado.
E então, tudo o que tinha guardado no fundo da memória, durante tantos anos, veio‑lhe à mente de uma só vez — claro, vivo e doloroso como se tivesse acontecido na véspera.
Imagens partidas, confusas mas marcadas a fogo na sua lembrança:
Ela tinha apenas sete anos de idade ainda. Era uma menina pequena, ágil e cheia de vida, que adorava correr e brincar nas matas perto da fronteira do seu reino. Ninguém a vigiava de perto, pois todos sabiam que conhecia aqueles caminhos melhor que ninguém.
Recordava‑se de repente o céu escurecer, como se uma nuvem n***a e pesada tivesse descido rapidamente sobre si. Depois asas enormes, imensas, que batiam o ar com uma força brutal, fazendo ventania e levantando folhas e poeira por todo o lado. Lembrava‑se do brilho avermelhado e quente que saía da boca da criatura, do fogo que queimava árvores e arbustos à volta. Ouvia gritos distantes, de pessoas que vinham em seu socorro, mas que pareciam estar muito longe. E sentia um medo tão grande que paralisava todo o seu corpo, fazendo‑a ficar imóvel no chão, sem conseguir correr nem chamar.
Um jovem híbrido de dragão, ainda selvagem e sem domínio sobre os seus poderes, atravessara os limites dos territórios naquele dia, assustado e descontrolado por alguma perturbação nas terras altas. E ao encontrar‑se com a pequena raposa indefesa, a sua própria confusão e força tinham‑se transformado em ataque.
Zaira ainda sentia na pele o arrepio ao ver as garras enormes e afiadas aproximarem‑se devagar, o brilho feroz nos olhos daquele ser gigante, o som rouco e aterrador que saía da sua garganta — um som igualzinho ao que acabara de ouvir. Sentia de novo a dor aguda quando foi atingida, a queda, o sangue, a sensação de que ia morrer ali sozinha.
Foram os seus próprios pais e os guardas mais rápidos e corajosos que chegaram a tempo de a afastar, de afugentar o jovem dragão e de salvar‑lhe a vida. As feridas sararam com o tempo e com os cuidados dos melhores curandeiros, mas o que ficou dentro dela demorou muito mais a mudar. Durante anos e anos, acordava a meio da noite a tremer, a gritar, a ver aquelas mesmas imagens.
Com o crescimento, aprendeu a esconder tudo isso. Aprendeu a dominar o coração e a mente. Conseguiu até conviver com os híbridos da tribo dos dragões, falava com eles com respeito e calma, tornara‑se amiga de alguns, como Elyra — que era tão doce e gentil quanto qualquer outro ser. Mas aquele medo antigo nunca desaparecera de verdade; apenas ficara adormecido, escondido bem no fundo da alma, coberto por coragem e confiança. Bastara ouvir aquele rugido, forte e primitivo, para que tudo voltasse à superfície com a mesma intensidade de há tantos anos.
— Não… não quero voltar a sentir isto… não quero… — soluçou ela, escondendo o rosto nos joelhos, deixando as lágrimas correrem livremente agora.
Nesse instante, a porta de madeira pesada abriu‑se devagar, fazendo um leve ruído que a assustou ainda mais.
— Zaira? Estás aqui?
Era a voz de Kael — grave, calma, inconfundível.
Ele reparara que ela não voltara ao salão, que faltava há muito tempo, e a preocupação tinha crescido nele até não conseguir mais ficar parado. Saiu à sua procura por todo o palácio, perguntou aos guardas, percorreu corredores e alas, até que o seu próprio instinto o guiara até ali.
Ao vê‑la encolhida no meio das plantas, com o corpo todo curvado e a tremer, o rosto molhado e os olhos cheios de terror, sentiu uma pontada forte no coração. Aproximou‑se depressa mas sem fazer barulho, ajoelhou‑se devagar ao seu lado, os joelhos tocando o chão frio também.
— Minha querida… o que se passa? Porque estás assim tão assustada? — perguntou ele com a voz mais suave e doce que conseguiu, estendendo‑lhe uma mão grande e quente com muito cuidado.
Mal ela o sentiu perto, atirou‑se de imediato para os seus braços, agarrando‑se a ele com toda a força que ainda tinha, apertando‑o contra si como se ele fosse a única coisa sólida e segura no mundo inteiro. Enterrou o rosto no peito forte dele, buscando o calor e o cheiro que só ele tinha — cheiro de terra, de sol, de força e p******o.
Kael envolveu‑a nos seus braços compridos e musculados, apertando‑a com carinho, deixando‑a sentir‑se completamente coberta e guardada por ele. Acariciava‑lhe as costas lentamente, passando a mão pelos seus cabelos e pelas orelhas macias, tentando acalmar cada tremor que sentia no corpo dela.
— Está tudo bem… estou aqui contigo… nada te vai fazer m*l… repete‑lhe baixinho ao ouvido, beijando‑lhe a cabeça com ternura.
Zaira agarrava‑se à sua roupa com os dedos entrelaçados, quase a rasgar o tecido de tanto aperto.
— Tenho medo… Kael… tenho tanto medo… — conseguiu dizer por fim, entre soluços abafados.
Ele ficou imóvel por um instante, surpreso e tocado. Em todo o tempo que a conhecia, em todas as situações difíceis por que tinham passado, nunca a ouvira dizer uma palavra assim — ela era sempre a coragem, a esperteza, a força.
— Medo de quê, minha princesa? Diz‑me, e eu afasto esse medo de ti com a minha própria vida — prometeu ele com firmeza, mas com muita doçura.
Ela ergueu um pouco o rosto, os olhos vermelhos e brilhantes de lágrimas, olhando para ele com uma expressão de criança assustada.
— Dos dragões… daquele som… daquela força… — e então, aos poucos, com a voz ainda trémula e lenta, contou‑lhe tudo o que lhe acontecera quando era pequena, o que vira, o que sentira, o que guardara escondido todos estes anos.
Kael ouviu‑a em silêncio, sem interromper, sentindo cada palavra como se fosse uma ferida aberta também nele. Agora compreendia tudo: porque ela tinha ficado assim, porque fugira, porque tremia só de ouvir um som. Não era apenas receio — era uma dor antiga, uma cicatriz profunda que o tempo não apagara.
Quando ela acabou de falar, ele puxou‑a ainda mais contra si, apoiando‑lhe a cabeça no seu ombro, beijando‑lhe a testa, os olhos, as mãos que ainda tremiam.
— Nunca ninguém te contou isto, mas eu juro‑te por tudo o que sou e por tudo o que tenho: enquanto eu respirar, enquanto eu for rei e viver, nenhum desses seres, nem ninguém mais, chegará perto de ti para te assustar ou magoar sequer um pouco. Eu estarei sempre à tua frente, como o teu escudo, como o teu leão — disse ele com toda a força e seriedade do mundo, fazendo‑lhe sentir a verdade de cada palavra.
Zaira fechou os olhos e deixou‑se ficar ali, sentindo‑se finalmente mais calma, mais segura, sabendo que ao lado dele nada de m*l podia acontecer‑lhe. A dor do passado continuava lá, mas agora já não estava sozinha para a enfrentar.
Lá fora, Vharok ainda dominava os céus, mas ali, entre as flores e o calor dos braços do seu rei, o medo começava lentamente a desvanecer‑se, substituído por uma confiança maior do que qualquer perigo.
continua....