📖 Almas de Fera
Capítulo 86 – Não Vás
Horas tinham passado desde que Zaira adormecera.
O sol já começava a descer no horizonte, tingindo o céu de tons dourados e alaranjados.
Kael permanecera ao lado dela todo aquele tempo.
Não se afastara nem por um segundo.
A pequena raposa continuava profundamente adormecida, enroscada entre os lençóis macios da enorme cama.
Mas, apesar de tudo, Kael sabia que não podia ficar mais.
O Reino dos Leões precisava dele.
Havia conselheiros à espera, relatórios sobre as fronteiras, danos causados pelos acontecimentos recentes e, acima de tudo, a necessidade de garantir que o reino continuava protegido.
Com um suspiro, Kael inclinou-se e acariciou delicadamente a cabeça da pequena raposa.
— Tenho de ir resolver alguns assuntos no meu reino, pequena raposa.
Zaira não se mexeu.
Continuava profundamente adormecida.
Kael sorriu.
Com todo o cuidado do mundo, levantou-a dos seus braços e colocou-a delicadamente sobre a cama, cobrindo-a com um cobertor macio.
— Voltarei o mais depressa possível.
Ele levantou-se lentamente.
Mal dera dois passos na direção da porta quando ouviu um pequeno som atrás de si.
— Mrrr...
Kael virou-se.
Zaira estava acordada.
Ainda na forma de raposa.
As suas orelhas estavam erguidas e os olhos verdes fitavam-no intensamente.
— Desculpa ter-te acordado — disse Kael, aproximando-se novamente. — Já volto.
Mas, antes que pudesse afastar-se outra vez, Zaira saltou da cama.
Num movimento surpreendentemente rápido para alguém tão exausto, agarrou a extremidade da túnica dele com a boca.
E puxou.
Com força.
Kael piscou os olhos.
— Zaira?
A pequena raposa voltou a puxar.
— Mrrr!
— Tenho mesmo de ir.
Ela puxou novamente.
Mais forte.
— Mrrr!
Kael ajoelhou-se.
— Eu prometo que volto.
Zaira soltou a roupa dele.
Por um instante, Kael pensou que ela tinha compreendido.
Estava enganado.
A pequena raposa eriçou completamente o pelo.
As orelhas colaram-se à cabeça.
A cauda ficou enorme.
E um rosnado baixo escapou-lhe da garganta.
— Rrrrr...
Kael ficou imóvel.
— Estás zangada.
O rosnado aumentou.
— RRRR!
A porta abriu-se nesse momento.
Selene entrou no quarto e parou imediatamente ao ver a cena.
— Oh...
Arion, que vinha logo atrás, cruzou os braços.
— Isso não parece nada bom.
Kael suspirou.
— Tenho de regressar ao Reino dos Leões.
Selene olhou para a filha.
A pequena raposa estava claramente furiosa.
— Ela não quer que vás.
— Eu percebi.
Zaira avançou alguns passos.
Rosnando.
Kael tentou aproximar-se.
Ela deu outro rosnado.
— RRR!
— Zaira...
A pequena raposa bateu a cauda no chão.
Com força.
— MRRR!
Selene suspirou.
— Os instintos dela estão muito fortes neste momento.
Kael franziu a testa.
— Por causa da gravidez?
Selene assentiu.
— Sim. Ela passou por uma experiência traumática, está exausta, grávida e ainda está a recuperar magicamente. Neste momento, o instinto dela diz-lhe que deve permanecer perto daqueles em quem confia.
Arion completou:
— Especialmente do pai dos filhotes.
Kael olhou para Zaira.
Ela continuava a rosnar.
Mas, por trás da raiva, havia algo mais.
Medo.
Medo de ser deixada sozinha.
Kael aproximou-se muito lentamente.
— Zaira.
A pequena raposa não se mexeu.
— Eu não te vou abandonar.
As orelhas dela moveram-se ligeiramente.
Kael ajoelhou-se até ficar ao nível dela.
— Preciso apenas de resolver alguns problemas no meu reino.
Zaira desviou o olhar.
— Rrr...
— E depois volto imediatamente para junto de ti.
Silêncio.
Kael estendeu cuidadosamente a mão.
Por alguns segundos, Zaira não reagiu.
Depois, lentamente, aproximou-se.
Mas, em vez de aceitar a carícia, mordeu suavemente a manga dele.
E voltou a puxá-lo.
Como se dissesse:
Não vás.
Kael sentiu o coração apertar-se.
Selene sorriu tristemente.
— Ela está assustada.
Kael ficou em silêncio durante alguns segundos.
Por fim, levantou-se.
— Então não vou.
Todos olharam para ele, surpreendidos.
— O quê? — perguntou Arion.
Kael virou-se para ele.
— Enviarei uma mensagem ao meu conselho. Eles governarão temporariamente até eu regressar.
Arion arqueou uma sobrancelha.
— Tens a certeza?
Kael olhou para a pequena raposa, que ainda segurava a sua roupa.
— Neste momento, a minha família precisa mais de mim.
Zaira soltou imediatamente a roupa dele.
As orelhas levantaram-se.
Kael sorriu.
— Vês? Não vou a lado nenhum.
Num instante, a pequena raposa saltou para os braços dele.
Enroscou-se contra o seu peito.
A cauda começou a abanar tão depressa que parecia um pequeno leque ruivo.
Selene riu baixinho.
— Pronto. Problema resolvido.
Kael abraçou-a cuidadosamente.
— Parece que vou ficar aqui mais alguns dias.
Zaira fechou os olhos, finalmente tranquila.
E, pela primeira vez desde que regressara do vazio, adormeceu sem medo de acordar sozinha.
Continua...