não vás

771 Words
📖 Almas de Fera Capítulo 86 – Não Vás Horas tinham passado desde que Zaira adormecera. O sol já começava a descer no horizonte, tingindo o céu de tons dourados e alaranjados. Kael permanecera ao lado dela todo aquele tempo. Não se afastara nem por um segundo. A pequena raposa continuava profundamente adormecida, enroscada entre os lençóis macios da enorme cama. Mas, apesar de tudo, Kael sabia que não podia ficar mais. O Reino dos Leões precisava dele. Havia conselheiros à espera, relatórios sobre as fronteiras, danos causados pelos acontecimentos recentes e, acima de tudo, a necessidade de garantir que o reino continuava protegido. Com um suspiro, Kael inclinou-se e acariciou delicadamente a cabeça da pequena raposa. — Tenho de ir resolver alguns assuntos no meu reino, pequena raposa. Zaira não se mexeu. Continuava profundamente adormecida. Kael sorriu. Com todo o cuidado do mundo, levantou-a dos seus braços e colocou-a delicadamente sobre a cama, cobrindo-a com um cobertor macio. — Voltarei o mais depressa possível. Ele levantou-se lentamente. Mal dera dois passos na direção da porta quando ouviu um pequeno som atrás de si. — Mrrr... Kael virou-se. Zaira estava acordada. Ainda na forma de raposa. As suas orelhas estavam erguidas e os olhos verdes fitavam-no intensamente. — Desculpa ter-te acordado — disse Kael, aproximando-se novamente. — Já volto. Mas, antes que pudesse afastar-se outra vez, Zaira saltou da cama. Num movimento surpreendentemente rápido para alguém tão exausto, agarrou a extremidade da túnica dele com a boca. E puxou. Com força. Kael piscou os olhos. — Zaira? A pequena raposa voltou a puxar. — Mrrr! — Tenho mesmo de ir. Ela puxou novamente. Mais forte. — Mrrr! Kael ajoelhou-se. — Eu prometo que volto. Zaira soltou a roupa dele. Por um instante, Kael pensou que ela tinha compreendido. Estava enganado. A pequena raposa eriçou completamente o pelo. As orelhas colaram-se à cabeça. A cauda ficou enorme. E um rosnado baixo escapou-lhe da garganta. — Rrrrr... Kael ficou imóvel. — Estás zangada. O rosnado aumentou. — RRRR! A porta abriu-se nesse momento. Selene entrou no quarto e parou imediatamente ao ver a cena. — Oh... Arion, que vinha logo atrás, cruzou os braços. — Isso não parece nada bom. Kael suspirou. — Tenho de regressar ao Reino dos Leões. Selene olhou para a filha. A pequena raposa estava claramente furiosa. — Ela não quer que vás. — Eu percebi. Zaira avançou alguns passos. Rosnando. Kael tentou aproximar-se. Ela deu outro rosnado. — RRR! — Zaira... A pequena raposa bateu a cauda no chão. Com força. — MRRR! Selene suspirou. — Os instintos dela estão muito fortes neste momento. Kael franziu a testa. — Por causa da gravidez? Selene assentiu. — Sim. Ela passou por uma experiência traumática, está exausta, grávida e ainda está a recuperar magicamente. Neste momento, o instinto dela diz-lhe que deve permanecer perto daqueles em quem confia. Arion completou: — Especialmente do pai dos filhotes. Kael olhou para Zaira. Ela continuava a rosnar. Mas, por trás da raiva, havia algo mais. Medo. Medo de ser deixada sozinha. Kael aproximou-se muito lentamente. — Zaira. A pequena raposa não se mexeu. — Eu não te vou abandonar. As orelhas dela moveram-se ligeiramente. Kael ajoelhou-se até ficar ao nível dela. — Preciso apenas de resolver alguns problemas no meu reino. Zaira desviou o olhar. — Rrr... — E depois volto imediatamente para junto de ti. Silêncio. Kael estendeu cuidadosamente a mão. Por alguns segundos, Zaira não reagiu. Depois, lentamente, aproximou-se. Mas, em vez de aceitar a carícia, mordeu suavemente a manga dele. E voltou a puxá-lo. Como se dissesse: Não vás. Kael sentiu o coração apertar-se. Selene sorriu tristemente. — Ela está assustada. Kael ficou em silêncio durante alguns segundos. Por fim, levantou-se. — Então não vou. Todos olharam para ele, surpreendidos. — O quê? — perguntou Arion. Kael virou-se para ele. — Enviarei uma mensagem ao meu conselho. Eles governarão temporariamente até eu regressar. Arion arqueou uma sobrancelha. — Tens a certeza? Kael olhou para a pequena raposa, que ainda segurava a sua roupa. — Neste momento, a minha família precisa mais de mim. Zaira soltou imediatamente a roupa dele. As orelhas levantaram-se. Kael sorriu. — Vês? Não vou a lado nenhum. Num instante, a pequena raposa saltou para os braços dele. Enroscou-se contra o seu peito. A cauda começou a abanar tão depressa que parecia um pequeno leque ruivo. Selene riu baixinho. — Pronto. Problema resolvido. Kael abraçou-a cuidadosamente. — Parece que vou ficar aqui mais alguns dias. Zaira fechou os olhos, finalmente tranquila. E, pela primeira vez desde que regressara do vazio, adormeceu sem medo de acordar sozinha. Continua...
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