📘 Almas de Fera
Capítulo 67– Ainda Muito Zangada
Kael sorriu com esperança e alegria ao ver a ponta daquela cauda ruiva aproximar‑se devagar e tocar‑lhe suavemente a mão estendida no chão.
— Sabia que no fundo ias acabar por me perdoar, minha pequena raposa… — murmurou ele baixinho, aliviado e feliz.
Foi um erro grande.
PÁ!
De repente, a cauda bateu‑lhe com toda a força que uma criatura tão pequena conseguia reunir, bem no meio da palma da mão.
— Ai! Que foi isso?! — Kael puxou a mão de imediato para trás, esfregando‑a com surpresa e até um pouco de dor.
A pequena raposa ergueu‑se de um salto, toda direita e imponente. O pelo estava completamente eriçado, parecendo ter duplicado de tamanho; as orelhas baixas e firmes contra a cabeça; e aqueles grandes olhos verdes brilhavam com uma indignação pura e absoluta.
Lançou‑lhe um olhar tão furioso que parecia querer queimar‑o só com o olhar, e soltou um rosnado curto, agudo e muito convincente:
— Rrrr!
Kael piscou os olhos várias vezes, confuso.
— Então… ainda estás mesmo zangada comigo? A sério?
A resposta foi outro rosnado ainda mais forte, e uma pequena batida da pata no chão, como se dissesse “Claro que estou! E muito!”.
Sem lhe dar tempo de abrir a boca ou tentar falar mais uma vez, Zaira deu‑lhe meia‑volta imediata e saiu rapidamente do sofá, caminhando com passos decididos e firmes por todo o quarto, até chegar ao canto mais afastado, junto à janela alta — o lugar mais longe que conseguiu encontrar dele. Ali enrolou‑se apertadinha sobre si mesma, virou‑lhe as costas por completo e não mexeu mais um dedo.
Kael soltou um longo e pesado suspiro, apoiando a testa na mão.
— Parece que não vou ser perdoado tão cedo… — disse para si mesmo.
Nesse instante, a porta abriu‑se devagar e um pouco, e Selene espreitou para dentro, curiosa e sorridente.
— E então? Como estão por aqui as coisas? Já fez as pazes?
Kael apenas apontou com o polegar para o canto escuro e silencioso do quarto.
Selene olhou para lá, viu a pequena silhueta imóvel e teimosa de costas para todos, e não conseguiu evitar um sorriso travesso.
— Ah… isso é mesmo mau, sim senhor.
— Assim tão grave assim? — perguntou ele, desanimado.
A rainha acenou com a cabeça, aproximando‑se devagar.
— Quando ela era ainda muito pequena e fazia exatamente isto — virar‑se e ignorar tudo e todos — podia ficar zangada e calada durante horas a fio, até achar que já tínhamos aprendido a lição. E é muito teimosa, como deves ter reparado.
Kael passou a mão pelo rosto, resignado.
— Ótimo… então estou aqui para um longo período de espera.
Selene aproximou‑se devagar do canto, ajoelhou‑se ao lado da filha e acariciou‑lhe muito suavemente o pelo do lombo.
— Zaira, meu amor… ouve‑me só um instante. O Kael não fez por m*l, nem para te esconder coisas de propósito. Ele só queria proteger‑te, como sempre faz.
A pequena raposa abriu um só olhinho verde, espreitando‑a com desconfiança, mas fechou‑o logo de seguida e enterrou bem o focinho debaixo da cauda fofa, recusando‑se a ceder tão depressa.
— Ainda continua zangada, já vejo — sorriu a mãe com doçura. — Mas ouve bem o que te vou dizer, minha pequena estrela: não fiques zangada demasiado tempo, nem te deixes consumir por raiva ou mágoa. Porque agora… já não és responsável apenas por ti mesma. Há mais vidas que dependem de ti, do teu sossego e da tua alegria.
As orelhas da pequena raposa mexeram‑se devagar, uma e outra vez, atentas àquelas palavras. Instintivamente, quase sem dar conta, baixou o olhar para o seu próprio ventre pequeno e macio. Pela primeira vez, pareceu realmente compreender o que aquilo significava: ali crescia algo seu, algo deles dois, algo frágil e maravilhoso que precisava de paz e amor para crescer bem.
O seu corpo inteiro foi relaxando pouco a pouco; o pelo foi baixando, deixando de estar eriçado e ameaçador.
Kael, que observava tudo em silêncio do outro lado do quarto, soruiu muito suavemente, com o coração cheio de carinho e gratidão.
— Não importa quanto tempo demores, nem quantos dias precises para ficar tranquila e me perdoar — disse ele baixinho, com voz calma e sincera. — Eu ficarei aqui, ao teu lado, à espera. Sempre.
A pequena raposa não virou, não falou, nem fez qualquer movimento grande. Mas, pela primeira vez desde que se afastara, as suas orelhas já não estavam completamente baixas e fechadas; ergueram‑se um pouco, mostrando que ouvia, que sentia, e que o caminho para a paz já tinha começado.
Era apenas um pequeno passo, mas era o suficiente para ele saber que tudo ficaria bem.
continua....