📘 Almas de Fera
CapÃtulo 65– A Raposa Zangada
O abraço apertado e cheio de amor foi afrouxando lentamente, até se separarem um pouco, ainda de mãos dadas e com os olhos brilhantes de lágrimas felizes. Zaira ainda limpava devagar o rosto, quando de repente franziu a testa e parou — uma ideia estranha e suspeita acabara de lhe ocorrer.
Afastou‑se um pouco mais de Kael, fitou‑o bem nos olhos e estreitou o olhar com desconfiança.
— Espera um pouco… espera aÃ…
Kael inclinou a cabeça, fingindo‑se confuso, embora já tivesse percebido onde queria chegar.
— O que foi, minha querida? Aconteceu‑te alguma coisa?
Zaira observou‑o com toda a atenção, como se estivesse a tentar descobrir um segredo escondido nos seus olhos dourados.
— Porque é que não ficaste chocado? Nem espantado? Parecias já saber tudo há muito tempo…
O rei leão ficou imóvel de repente, sem saber muito bem o que dizer.
Selene, Arion e Lyra trocaram entre si olhares rápidos e discretos, abafando sorrisos.
— Eu… bem… é que… — gaguejou ele, coçando a nuca sem jeito.
As orelhas da princesa ergueram‑se de imediato, atentas e firmes.
— Kael… — chamou ela, com voz firme.
Ele desviou o olhar para o chão, envergonhado.
— É que eu… ouvi sem querer a tua mãe e o teu pai a conversar ontem… quando estávamos na varanda… — confessou por fim muito baixo.
— Então tu já sabias? Desde ontem?! — perguntou ela, a voz a subir de tom.
— Sim… infelizmente ouvi tudo… — admitiu ele, encolhendo‑se um pouco.
— E não me disseste nada? Fizeste‑me crer que era uma novidade para ti também?! — Zaira já estava quase a gritar de indignação.
Kael abriu a boca para tentar explicar, mas ela não lhe deu tempo.
— NÃO ME CONTASTE NADA E DEIXASTE‑ME DESCOBRIR ASSIM?!
Antes que alguém pudesse sequer mexer um dedo, uma luz dourada e brilhante envolveu‑a rapidamente. Num instante, ali já não estava a princesa: apenas uma pequena raposa de pelo ruivo, de orelhas eretas e cauda bem eriçada, com um ar profundamente ofendido e zangado.
Lançou‑lhe um último olhar reprovador, virou‑lhe as costas com toda a dignidade que uma criatura tão pequena conseguia ter e caminhou com passos firmes até ao sofá mais afastado do quarto. Saltou para cima, enrolou‑se numa bola bem fechada e virou‑se para o canto, deixando apenas ver uma cauda fofa e muito zangada.
Kael piscou os olhos, perdido e um pouco assustado com a rapidez da mudança.
— Raposinha… por favor, não fiques assim… — pediu ele suavemente.
Nenhuma resposta. Nem um som. Apenas a cauda continuava bem eriçada, mostrando que a mágoa ainda estava bem presente.
Selene levou uma mão à boca para esconder o riso que teimava em sair. Arion já não conseguiu segurar e começou a rir abertamente, batendo levemente na coxa.
— Pois é… agora tens trabalho feito, rapaz. Muita sorte a tentar acalmá‑la — disse ele divertido.
Kael olhou para eles com um ar completamente desesperado.
— Isto não tem graça nenhuma, sabem? Estou mesmo em apuros aqui…
Lyra sorriu com sabedoria, olhando para a pequena forma no sofá.
— A princesa sempre foi assim desde muito pequena: quando se sente magoada ou enganada, fecha‑se e não fala com ninguém até se sentir ouvida e compreendida. Mas também perdoa depressa se vir que o arrependimento é verdadeiro.
Kael aproximou‑se devagar e com muito cuidado do móvel, como se se aproximasse de um animal muito bravo.
— Zaira… ouve‑me só um bocadinho, por favor…
Ela enterrou ainda mais o focinho nas almofadas macias, recusando‑se a olhar.
— Eu só não te contei logo porque queria ter a certeza absoluta primeiro, não queria dar‑te uma notÃcia que podia ser falsa e deixar‑te confusa — explicou ele com voz calma e doce. — E também porque estavas tão assustada e cansada por causa de Vharok… tinha medo de te sobrecarregar ainda mais com tantas coisas ao mesmo tempo.
Houve um pequeno movimento: a ponta da cauda mexeu‑se muito devagar e quase impercetivelmente.
Kael sentou‑se no chão, mesmo ao lado do sofá, para ficar à sua altura, e continuou:
— Tu sabes, não sabes? Que eu nunca te esconderia algo tão importante como isto por maldade ou segredo. Tudo o que faço é para te ver segura e feliz.
A pequena raposa permaneceu imóvel durante uns longos segundos, pensando no que ouvira. Depois abriu um só olhinho verde, espreitando‑o com desconfiança.
Kael sorriu‑lhe com toda a ternura do mundo.
— Ainda estás muito zangada comigo? Ou já me podes dar uma pequena hipótese de me redimir?
Ela soltou um som pequeno e agudo, cheio de indignação fingida, fechou o olho de novo e virou‑se ainda mais para a parede.
Selene levantou‑se devagar, fazendo sinal aos outros para a seguirem até à porta.
— Acho que o melhor é deixarmos os dois sozinhos agora. Eles resolvem tudo melhor assim.
Ao passar por Kael, Arion deu‑lhe uma forte e amigável p*****a nas costas.
— Muita coragem, rapaz. Vais precisar.
Quando a porta se fechou e só restaram os dois no quarto calmo, Kael continuou sentado ali no chão, quieto e paciente.
— Não me vou mexer daqui nem um passo, nem irei dormir, até que me perdoes e venhas ter comigo de novo — prometeu ele baixinho.
Passaram‑se alguns minutos em silêncio. Depois mais uns quantos. Até que, muito lentamente, com muita cautela, uma pequena ponta de cauda ruiva apareceu e deslizou devagar até tocar na mão dele, ali pousada no chão.
Kael sorriu largo e doce, acariciando‑a muito suavemente. A sua pequena raposa já começava a perdoá‑lo, pouco a pouco.
continua....