📘 Almas de Fera
Capítulo 64– A Verdade
A tarde decorreu de forma calma e serena nos aposentos reais, longe do barulho e das preocupações do resto do palácio. Zaira permanecia na sua pequena forma de raposa, enrolada e quentinha contra o peito forte de Kael sobre a cama ampla e macia. O rei leão não se afastara dela nem por um instante; mantivera‑se ali sentado, quieto e atento, passando‑lhe suavemente a mão pelo pelo ruivo e brilhante, num ritmo lento que a ajudava a descansar profundamente.
Uma batida leve e cuidadosa na porta quebrou o silêncio do quarto.
— Entrem — respondeu Kael, falando muito baixo para não interromper o sono da princesa.
A porta abriu‑se devagar e entraram Selene, Arion e a curandeira Lyra, todos de passos silenciosos e expressões calmas mas carregadas de importância. Ao vê‑los chegar juntos daquela maneira, Kael percebeu logo que estavam ali para falar de algo que vinham guardando há algum tempo.
— É sobre a Zaira? — perguntou ele num sussurro, inclinando‑se um pouco mais sobre ela.
Selene acenou com a cabeça, aproximando‑se devagar.
— Sim. É sobre ela, sobre todos nós… e sobre o futuro.
Kael olhou com ternura e preocupação para a pequena forma adormecida nos seus braços.
— Mas ela está bem, não está? Nada de grave aconteceu‑lhe com a queda?
Lyra sorriu com bondade e tranquilidade.
— Está perfeitamente saudável, mais forte do que imaginas. Não há ferimentos que não saram depressa.
Kael soltou um longo suspiro de alívio, mas franziu logo a testa de novo.
— Então por que estão todos com esse ar de quem traz uma grande notícia?
Selene chegou‑se mais perto da beira da cama.
— Porque há uma verdade maravilhosa que ela precisa de saber, antes que descubra por si mesma ou que surjam outros problemas. Chegou o momento de contar‑lhe tudo.
Nesse instante, as orelhas pontiagudas da pequena raposa mexeram‑se ligeiramente, despertando‑lhe os sentidos. Pouco depois, abriu devagar os grandes olhos verdes, pestanejando contra a luz suave da janela. Ao ver ali a mãe, o pai e a sábia curandeira, inclinou a cabeça de lado, cheia de confusão.
— O que se passa aqui? Por que estão todos reunidos à minha volta? — perguntou com voz ainda sonolenta.
Uma luz suave e quente envolveu‑a rapidamente, e ela voltou à sua forma híbrida, sentando‑se devagar sobre os coxins.
Selene sentou‑se ao lado dela, segurando‑lhe ambas as mãos entre as suas com muito carinho.
— Minha querida… lembra‑te que a Lyra te examinou com todo o cuidado esta manhã, como te tinha dito?
Zaira piscou os olhos, lembrando‑se bem daquela manhã nos jardins.
— Claro que lembro… mas eu sentia‑me apenas cansada, nada de mais — respondeu um pouco inquieta.
— E ela descobriu algo muito especial ao observar‑te — continuou a rainha com doçura.
A expressão de Zaira mudou imediatamente para apreensão.
— Estou doente? É algo grave? Diz‑me depressa…
— Não, minha filha, de forma nenhuma! — apressou‑se a dizer Lyra, sorrindo largo e feliz. — Muito pelo contrário: estás a viver a mais bela bênção que a nossa espécie pode receber.
Zaira olhou da curandeira para a mãe, cada vez mais confusa e curiosa.
— Então… o que é? Contem‑me já, por favor…
Selene acariciou‑lhe devagar o rosto com a ponta dos dedos, os olhos a brilharem de lágrimas contidas e alegria.
— Zaira… tu estás à espera de filhotes. Uma nova vida cresce já dentro de ti.
O quarto inteiro mergulhou num silêncio absoluto, tão profundo que só se ouvia o bater suave das asas de um pássaro lá fora.
Zaira ficou completamente imóvel, como se tivesse deixado de respirar. Os seus olhos arregalaram‑se lentamente até parecerem enormes.
— O… o quê? — sussurrou ela, quase sem voz.
Olhou primeiro para a mãe, procurando ver se brincava; depois para Lyra, vendo a certeza e a felicidade no seu rosto; e finalmente para Kael, que já a olhava com um sorriso imenso e lágrimas nos olhos.
— O quê?! — repetiu ela, agora mais alto, misturando espanto e alegria ainda incrédula.
Arion não conseguiu segurar um sorriso terno e orgulhoso, inclinando‑se um pouco para ela.
— Vais ser mãe, pequena estrela. E nós todos seremos família ainda mais ligada.
Os olhos de Zaira ficaram tão grandes e brilhantes que quase pareciam encher‑lhe todo o rosto. Levou as duas mãos até à boca, tremendo ligeiramente.
— E‑eu… eu vou ser mãe mesmo? De verdade? — perguntou com voz embargada pela emoção.
Lyra acenou com toda a firmeza e carinho do mundo.
— Sim, princesa. É a mais bela das verdades. Ainda está no início, por isso não percebeste ainda tu mesma.
Zaira permaneceu vários segundos calada, a mente a correr mil pensamentos ao mesmo tempo, até baixar lentamente o olhar para o seu próprio ventre, tocando‑o muito suavemente com a ponta dos dedos, como se temesse magoar algo frágil e precioso.
— Eu… há alguém aqui… — murmurou maravilhada, com lágrimas a rolar‑lhe livremente pelas faces.
Kael aproximou‑se de imediato, sentando‑se bem ao seu lado e segurando‑lhe com toda a ternura a mão livre.
— Zaira… estás bem? Fala‑me, por favor…
Ela ergueu o olhar para ele, cheia de amor e surpresa, e sorriu através das lágrimas.
— Kael… nós… nós vamos ter filhotes. Nós vamos ser pais… — disse como se estivesse a descobrir o segredo mais lindo do universo.
O rei leão sorriu de volta, com um brilho nos olhos que ninguém jamais vira nele, e apertou‑lhe a mão com carinho.
— Sim, meu amor. Nós dois. E faremos tudo o que for preciso para vos proteger e amar para sempre.
Sem pensar mais nada, Zaira atirou‑se aos seus braços e abraçou‑o com toda a força que tinha, aconchegando‑se nele como se ele fosse o seu mundo inteiro. Kael retribuiu o abraço de imediato, envolvendo‑a com cuidado e carinho, protegendo‑a contra o seu peito, sentindo‑a viva e quente ali com ele.
Selene e Arion ficaram ali de pé, observando a cena maravilhosa com os olhos cheios de lágrimas e sorrisos largos, sentindo‑se imensamente gratos e felizes.
Mas, enquanto ali se celebrava o amor e a esperança, muito longe dali, no meio da escuridão fria e alta das Montanhas Sombrias, Vharok abriu devagar os seus imensos olhos dourados e brilhantes, virando‑os na direção sul, para onde o seu coração antigo o guiava. E um sorriso largo, astuto e cheio de planos sombrios cresceu‑lhe nos lábios enormes. Ele sentira a nova luz que acabava de nascer no mundo… e sabia agora exatamente o que procurava.
continua....